Eu o amo

Foto: Pixabay


Eu o amo – e esse é o começo de tudo.
  Quando se gosta tanto alguém, ele é o começo do seu dia. É a primeira coisa que você procura ao acordar. É o primeiro pensamento que te vem ao ver o Sol passando pela janela e também o último antes de dormir.
  É a memória travessa que vem te perturbar (ou te animar) naquela tarde cinzenta de um dia nublado. É aquela música que você escuta mil vezes, mas jamais se cansa, ou ainda aquela risada tímida que você dá ao lembrar o quão bem ele te faz.
  Ele é tudo isso e mais um pouco.
  De certa forma, eu me encantei à primeira vista. Eu o admirei mesmo sem conhecê-lo, notando-o pelas palavras, por sua forma íntegra de agir e a maneira especial com que tratava pessoas que nem mesmo conhecia. Fui enfeitiçada pelo seu senso de humor e sua presença de espírito; pelo seu jeito irreverente e desafiador.
  Nunca pensei que conhecer alguém pudesse me fazer sentir tanto encanto. O mundo anda tão amargo, tão machucado, que sentir algo por ele pareceu uma loucura, pois imaginava que me machucaria como todas as outras vezes. O mais engraçado foi não precisar de mais do que um beijo para me sentir cativada. Apenas um beijo bastou para colocar as borboletas do meu estômago em pânico.
  Quando estou mais romântica, penso nos meus primeiros dias com ele. Feito criança, procuro cada detalhe que explique de onde surgiu; procuro o princípio de cada formigamento dentro de mim. Sinto-me boba, mas gosto de pensar na tiara no seu cabelo e no frio que ele me fez passar. Na sua cara de surpreso ao descobrir que, sim, eu sei dançar e de como nos divertimos construindo no nosso barco de vela. Gosto de pensar nele sentado ao meu lado, contando histórias sobre um país distante.
  Gosto de me lembrar de como me senti seduzida; de como era engraçado sentir que ele não era nada e ao mesmo tempo era tudo; de como eu não podia tê-lo conhecido em hora pior, nem melhor. Principalmente, de como parecia que ele tinha sido escolhido a dedo pelo destino.
  Não acredito em almas gêmeas nem em amor à primeira vista, mas acredito que tudo na vida tem um motivo. Não foi por acaso que eu o conheci. Sinto como se eu o conhecesse por uma vida inteira e ao mesmo tempo sinto como se ainda precisasse conhecer mais.
  Ainda quero muito mais.
  A verdade é que não vejo mais ninguém além dele – nem mesmo acho nenhum outro tão bonito ou tão charmoso. Nem tão sedutor. Às vezes me sinto drogada – às vezes me sinto em crise de abstinência. Às vezes só acho que estou louca.
  Não consigo esquecer o sorriso dele nem o som da sua voz. Não quero esquecer o calor do seu corpo nem o jeito como cada parte de mim é atraída por ele feito magnetismo. É impossível esquecer aquele sorriso de Sol iluminando esse mundo escuro e sem cor. É impossível esquecer como ele me fazia sorrir com seu jeito mordaz de aclarar todo o universo ao nosso redor. É impossível apagá-lo quando ele está em tudo ao meu redor.
  Eu o vejo na cerveja paulista que ele adorou, no brigadeiro que ele tanto queria experimentar. Vejo-o na minha cama, misteriosamente maior desde que ele se foi. Vejo no filme que recentemente assisti e no calor de trinta e oito graus que ele não sentiu. Sinto-o a cada música eletrônica e penso nele quando passo pelas ruas que caminhamos de mãos dadas.
  Ainda hoje procuro seus olhos perdidos me observando do outro lado da mesa. Ainda vejo sua expressão confusa de quem não está acompanhando a conversa. Ainda escuto sua voz mansa em palavras que não entendo e ainda procuro sua mão do outro lado da cama. Ainda penso em formas de fazê-lo rir e de chamar sua atenção. Na maior parte do tempo, penso no quanto sinto falta dele.
  Quando se gosta de alguém, ele é tudo que você pensa. Ele e o quanto você o queria por perto. É difícil não pensar no quando ele significa para você. E é difícil até de acreditar que você se deixou apegar em tão pouco tempo. Às vezes você até culpa o tal do Cupido, mas a verdade é que você sabe que escolheu se apaixonar. Sabe que não simplesmente caiu de amores. Você tomou cada passo conscientemente, escolhendo gostar dele.
  Eu o escolhi. Escolhi me apaixonar por ele. Escolhi me lembrar do primeiro olhar que ele me deu e do seu toque suave correndo pelo meu corpo. Entre tantos, quis seu beijo com gosto de água de coco, cheiro de mar e cor de pôr de sol. Quis seu sorriso travesso, seu humor irônico e seu jeito de homem meio menino.
  Optei por sua mania de me fazer rir. Optei pelo seu jeito protetor e carinhoso, só para que eu pudesse dizer que não gosto de todo seu cavalheirismo. Escolhi sua forma de ver a vida e sua máxima de Você não sabe o que está perdendo até experimentar.
  Escolhi seu jeito descuidado e sua tara por me matar do coração. No fundo, gosto de todas as formas com que ele consegue me matar: de rir, do coração e de prazer. Quis seu olhar safado me analisando de cima a baixo e seu silêncio dizendo que sabe – ele simplesmente sabe como me fazer.
  Quis o pouco que ele me mostrou e tudo que ainda não sei que ele é. Escolhi me entregar de peito aberto no desconhecido, escolhi cada passo durante o caminho.
  Acredito em destino – acredito que somos levados aos lugares a que devemos pertencer; acredito que conhecemos aqueles tem algo a nos ensinar – mas acredito que somos levados principalmente ao que escolheríamos de qualquer forma. Eu o escolheria – em milhões de vidas, em milhões de universos, em qualquer versão da realidade, eu o escolheria.
  Escolheria desejá-lo dessa mesma forma, sem limites e com uma confiança desesperada de que não durará. Escolhi ter minha dose dele de uma vez. Não lutei contra em nenhum momento. Deixei meus sentimentos e minhas necessidades se alimentarem naturalmente. Amei-o como se eu o fosse perder. Deixei-o virar meu tudo. Mesmo sabendo que logo viraria nada.
  Ele é uma alma livre, vai onde o vento o leva. Tem o estilo aventureiro de quem precisa da estrada. Tem aquele ar despreocupado de quem está apenas de passagem e talvez seja por isso que me encanta tanto. Como alma livre, é alguém que morre se for preso. Eu sabia disso desde o começo e mesmo assim permiti que invadisse meu universo, mesmo sabendo que precisaria deixá-lo ir. Mesmo sabendo que ele não ficaria.
  Acredito que tudo que é seu encontra seu caminho de volta. Acredito que se meu amor estiver destinado a ser tudo para ele, o destino vai encontrar sua forma de nos colocar na mesma página de novo. É verdade, eu gostaria que nunca mais precisasse dizer adeus, mas apenas boa noite. Adoraria que todos os adeus significassem “até eu te ver amanhã”, mas sei que devo deixa-lo partir.
  E eu o deixarei ir – consciente de que talvez não tenha meu final feliz. Mas isso me consola. A verdade é que no amor não há final feliz, pois amor verdadeiro nunca acaba. Deixar ir é apenas mais uma forma de dizer eu te amo. Eu o amo e isso é o suficiente para mim.
Eu o amo – e esse é o fim de tudo.

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