Seu Personagem





Eu nunca escrevi sobre você, não é? Não como já escrevi sobre todos os outros, em cartas, em desabafos de palavras não ditas. Não que eu não quisesse escrever, não tenho nenhuma birra contigo, nem nada do gênero. Acho que apenas te deletei completamente da minha memória. Sequer um personagem sobrou de você.


É engraçado lembrar quão
apaixonada eu fiquei logo que te conheci, e como praticamente fiquei de quatro
por você. Estava claro para o mundo inteiro; tão claro que até você já sabia
antes mesmo de eu abrir o jogo… Antes mesmo de eu mostrar as cartas, que você
já conhecia.

Logo depois que todas as minhas
ilusões foram destruídas pelo seu “quero apenas ser seu amigo”, seguido de um
abraço carinhoso, que quase me matou, eu procurei conversa após conversa, olhar
após olhar, dia após dia, pelos sinais que eu não vi.

Até hoje não os encontrei.

Parei de viver pensando nisso,
pensando em onde tinha me enganado, tentando descobrir o que eu fizera de
errado. Eu não podia ter me iludido tão fortemente. Os sinais estavam tão
claros pra mim – como poderiam ser mentira?

Foram meses bem sombrios para mim
– tão sombrios quanto enevoados, tanto que sequer me lembro do que me ocorreu
naquela época, e nem faz tanto tempo. Sei que depois que decidi me desvincular
de qualquer sentimento por você, eu apaguei tudo. Todas as memórias falsas e as
ilusões verdadeiras. Todos os sorrisos e olhares; todas as piadas e conversas
no banco após a aula. Tudo foi deletado como se sequer tivesse existido.

As tramas que comecei a escrever
para o personagem que você seria não foram jogadas fora porque não
consigo me livrar de meus escritos… mas apenas por isso; não porque você
merecesse ser mais um dos meus personagens. Você não merecia tamanha honra. Não merecia ser eternizado.

Naquela época eu não sabia; eu
achei que eu era a errada. Não tinha consciência de que de príncipe, você não
tinha nada. Agora, quando eu olho para trás, sei que eu me deixei embrulhar
pelas minhas ilusões e mais uma vez me permiti viver nas minhas fantasias. Você, ao contrário, percebeu – e se divertiu com isso.

Você gostava de me ver te procurando. Gostava do sentimento de domínio por existir alguém que o queria tanto. A palavra certa é essa – eu estava dominada, completamente
domada. Um leão de circo que você brincava do jeito que preferia. Soltava a rédea
quando estava cansado e ia atrás de outros brinquedos, mas nunca o suficiente para
que perdesse sua fonte de autoestima.

Sua fonte de ego inflado.

Fui a menininha apaixonada,
correndo atrás de você, por tempo demais. Tempo o suficiente para que eu percebesse
quão ridícula era minha situação, mas tempo demais para que eu saísse por cima.

Eu saí machucada, bastante
ferida, e as cicatrizes impediram-me por meses de tantas outras coisas. Não que
eu te culpe – não sozinho. Você foi o culpado por brincar; eu fui a culpada por
me manter cega por tanto tempo.

Por sorte não te encontrei mais depois
de tudo. Quando vi, fingi que não enxergava, e apaguei no instante seguinte a
informação de sua existência. No começo foi difícil, confesso, mas você fazia o
mesmo com tamanha naturalidade que me deu mais forças para apagar.

Deletei tudo, como disse. E nunca
mais pensei. Realmente não me importava mais. Não foi o primeiro coração
ferido, não seria o último. Não te daria nenhum título pelos seus feitos.

Até hoje.

Quando te encontrei novamente, não teve
nenhum coração palpitante. Não houve rosto corando quando você se sentou ao meu
lado. Nenhuma alteração na minha respiração, nenhuma palavra engasgando na
garganta… Nada além da indiferença de ter ao meu lado um completo
desconhecido.

Não foi por você agir como se eu
fosse uma desconhecida também, como se nada tivesse acontecido… Foi a forma
como meu corpo não reagiu ao tapa na minha cara de que você ainda existia. Simples
assim – não houve qualquer reação. Nem vontade de te olhar, nem vontade de
mandar mil mensagens para minha melhor amiga contando que você estava ao meu lado.

Nada.

Foi minha indiferença que me surpreendeu. Atingiu-me tão forte que fui obrigada a procurar todos os papéis sobre você
que não joguei fora. Li um por um e sorri. Sorri mesmo. Não por você, mas por
mim, porque eu sempre fui alguém que nunca conseguiu se desvincular de ninguém,
mesmo quando a pessoa me faz mal. Jogo tudo para debaixo do tapete e finjo que
não sei que ainda estou machucada.

Mas não com você. Eu simplesmente
não sinto mais nada. E por isso você merece um personagem.

O cara que eu não amo mais.