Foto: @byrawpixel
O MENINO DO SKATE
A incrível história do amor que não aconteceu
Sabe como vários romances na
literatura e no cinema começam com um pequeno acidente? Um trombo, um tropeço,
coisas simples do cotidiano. Eu nunca fui muito chegada nesse tipo de trama,
acho que em parte porque nunca vivenciei nada do gênero e não conseguia
enxergar realidade nas narrativas do surgimento desse amor.
literatura e no cinema começam com um pequeno acidente? Um trombo, um tropeço,
coisas simples do cotidiano. Eu nunca fui muito chegada nesse tipo de trama,
acho que em parte porque nunca vivenciei nada do gênero e não conseguia
enxergar realidade nas narrativas do surgimento desse amor.
Pois bem, digamos que eu mordi minha
língua. Lá estava eu, tranquilamente caminhando, entretida na música que vinha
do meu iPod. Grande avenida, o grande movimento de sempre – e eis que ele me atropela.
Acho que tentou desviar de outro alguém, ou tentou me ultrapassar e eu que mudei
de sentido… A bem da verdade, não importa muito como se sucedeu – para todos
os efeitos, ele acertou o skate no meu pé. Ele voou para frente, seu meio de
transporte voltou para trás.
língua. Lá estava eu, tranquilamente caminhando, entretida na música que vinha
do meu iPod. Grande avenida, o grande movimento de sempre – e eis que ele me atropela.
Acho que tentou desviar de outro alguém, ou tentou me ultrapassar e eu que mudei
de sentido… A bem da verdade, não importa muito como se sucedeu – para todos
os efeitos, ele acertou o skate no meu pé. Ele voou para frente, seu meio de
transporte voltou para trás.
Pela forma com que ele aterrissou,
pude ver sua raiva por ter sido interceptado. Oras, era o meu pé que estava
machucado, não o dele. Eu que deveria estar com raiva. Acho que fechei a cara
enquanto observava o “babaca” se equilibrar, torcendo para que ele desse de
cara no chão…
pude ver sua raiva por ter sido interceptado. Oras, era o meu pé que estava
machucado, não o dele. Eu que deveria estar com raiva. Acho que fechei a cara
enquanto observava o “babaca” se equilibrar, torcendo para que ele desse de
cara no chão…
Minha macumba não deu certo, que
pena.
pena.
Eu vi a raiva em seus ombros antes de
ele se virar e me ver.
ele se virar e me ver.
Se estivéssemos em um filme, esse
momento duraria uns cinco minutos. Se estivéssemos em um livro, um de nós perderia
o fôlego por um milésimo de segundo. Ele coçaria a cabeça, constrangido, e eu
arrumaria o cabelo, claramente envergonhada, e lentamente desceria em direção
ao meu pé dolorido. Ele se aproximaria para checar se eu estava bem, nossas
mãos se tocariam, nossos olhares se encontrariam e BAM! Surgiria o amor.
momento duraria uns cinco minutos. Se estivéssemos em um livro, um de nós perderia
o fôlego por um milésimo de segundo. Ele coçaria a cabeça, constrangido, e eu
arrumaria o cabelo, claramente envergonhada, e lentamente desceria em direção
ao meu pé dolorido. Ele se aproximaria para checar se eu estava bem, nossas
mãos se tocariam, nossos olhares se encontrariam e BAM! Surgiria o amor.
É óbvio que nenhum dos dois notaria
isso logo de cara – mas algum objeto meu, obviamente identificado, teria caído
durante o pequeno acidente sem que nenhum de nós notasse. Ele me ajudaria a me
levantar, esperando, no fundo, que eu não conseguisse andar, mas eu estaria
encabulada demais para manter essa situação constrangedora por muito mais
tempo. Eu agradeceria a ajuda e ele pediria desculpas pela milésima vez. Aliás, as
únicas palavras a saírem de sua boca durante todo esse “encontro” seriam “Foi
mal” e algumas tentativas ininteligíveis de se começar uma conversa mais profunda.
isso logo de cara – mas algum objeto meu, obviamente identificado, teria caído
durante o pequeno acidente sem que nenhum de nós notasse. Ele me ajudaria a me
levantar, esperando, no fundo, que eu não conseguisse andar, mas eu estaria
encabulada demais para manter essa situação constrangedora por muito mais
tempo. Eu agradeceria a ajuda e ele pediria desculpas pela milésima vez. Aliás, as
únicas palavras a saírem de sua boca durante todo esse “encontro” seriam “Foi
mal” e algumas tentativas ininteligíveis de se começar uma conversa mais profunda.
Eu me despediria com o olhar de quem
quer ficar e já a alguma distância viraria para trás, para saber se ele ainda
estava lá, se ele também me olhava. Ele me observaria partir depois de soltar
um longo suspiro, não acreditando no que acontecera – e não acreditando, ainda
mais, na sua incapacidade de conversar normalmente com uma garota. Quando já
não conseguisse mais me distinguir dos outros, ele desviaria o olhar para o
chão e encontraria meu artefato.
quer ficar e já a alguma distância viraria para trás, para saber se ele ainda
estava lá, se ele também me olhava. Ele me observaria partir depois de soltar
um longo suspiro, não acreditando no que acontecera – e não acreditando, ainda
mais, na sua incapacidade de conversar normalmente com uma garota. Quando já
não conseguisse mais me distinguir dos outros, ele desviaria o olhar para o
chão e encontraria meu artefato.
Ah, os cosmos sempre ajudam os
apaixonados.
apaixonados.
Ele cuidaria do que quer que fosse
esse artefato como se fosse sua vida, afinal, seria a única forma de me
reencontrar. E eu? Bom, eu seria eu mesma. Como diria meu amigo, eu iria Luisar
desde o segundo que o deixasse para trás. Por certo pensaria em mil tramas que
começariam com um acidente – e começaria um livro novo, em que a protagonista
se apaixona por um skatista.
esse artefato como se fosse sua vida, afinal, seria a única forma de me
reencontrar. E eu? Bom, eu seria eu mesma. Como diria meu amigo, eu iria Luisar
desde o segundo que o deixasse para trás. Por certo pensaria em mil tramas que
começariam com um acidente – e começaria um livro novo, em que a protagonista
se apaixona por um skatista.
Eu o procuraria em cada cara em cima
de uma prancha com quatro rodas, mesmo consciente da impossibilidade de encontra-lo
novamente, afinal, São Paulo não é como as novelas da Globo nos fazem
acreditar. De noite, na hora de dormir, perguntaria a minha fiel abelha de
pelúcia o nome do amor da minha vida que eu, por uma vergonha que não me é
peculiar, perdi a chance de perguntar.
de uma prancha com quatro rodas, mesmo consciente da impossibilidade de encontra-lo
novamente, afinal, São Paulo não é como as novelas da Globo nos fazem
acreditar. De noite, na hora de dormir, perguntaria a minha fiel abelha de
pelúcia o nome do amor da minha vida que eu, por uma vergonha que não me é
peculiar, perdi a chance de perguntar.
Após alguns dias, já desacreditaria
do amor novamente e blasfemaria o destino, o culpado pelo meu sofrimento. Então
teria uma pequena taquicardia quando ele conseguisse me contatar, querendo me
devolver meu preciosíssimo objeto. Quando o encontrasse, eu contaria toda a
história envolvendo esse quase-talismã e ele escutaria toda a besteira que eu
diria com inquestionável interesse.
do amor novamente e blasfemaria o destino, o culpado pelo meu sofrimento. Então
teria uma pequena taquicardia quando ele conseguisse me contatar, querendo me
devolver meu preciosíssimo objeto. Quando o encontrasse, eu contaria toda a
história envolvendo esse quase-talismã e ele escutaria toda a besteira que eu
diria com inquestionável interesse.
Por óbvio, combinaríamos em todos os
gostos e demoraria muito até percebermos que aquele acidente nada mais foi do
que o destino unindo duas pessoas que foram feitas uma para a outra.
gostos e demoraria muito até percebermos que aquele acidente nada mais foi do
que o destino unindo duas pessoas que foram feitas uma para a outra.
Ah, que esplêndida história de amor
poderia ter começado com um erro de direção dele ou um desequilíbrio meu – ele poderia
ter me dado um novo personagem, poderia ter virado um livro.
poderia ter começado com um erro de direção dele ou um desequilíbrio meu – ele poderia
ter me dado um novo personagem, poderia ter virado um livro.






