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Remorso

by - sexta-feira, janeiro 18, 2019

Foto:  Peter Fricke

Eu teria trazido flores e deixado-as ao lado da lápide como manda o protocolo, mas seria estranho e me pareceu inadequado. Nunca entendi o sentido de levar flores ao cemitério. Não é como se você fosse recebê-las e cuidar delas. Elas só iam ficar lá. Jogadas. Apodrecendo. E, de qualquer forma, eu não gostava de você quando era viva.
Eu a odiava. Com todas as minhas forças. Você era estranha, em todos os sentidos possíveis da palavra estranha, ninguém gostava de você, você não servia para nada, mais atrapalhava do que ajudava. Desculpe-me se estas palavras são cruéis, mas você sabe que era exatamente o que eu pensava sobre você. Como não saberia? Passei muito tempo repetindo essas palavras, até elas ficarem cravadas na sua cabeça.
Eu não deveria ter feito isso. Eu deveria ter te ajudado. Eu deveria ter colocado um pouco de sensatez nessa sua cabecinha. Eu sei que deveria. Sinto muito se me deixei levar pelos outros e comecei a repetir o que eles diziam. Sei que é tarde para isso, mas é verdade, eu sinto muito. E se eu pudesse ter feito tudo diferente sei que você ainda estaria viva.
Muita gente se culpa pelo que aconteceu com você, mas sei que ninguém é mais responsável do que eu. E eu pediria para você me perdoar, mas de que importa isso agora? É tarde. O perdão é irrelevante. E eu não vim aqui para você saber o quanto sinto por tudo. Eu vim, porque sei que você ainda está aqui. Não num sentido espiritual, mas no físico. É aqui que sobrou um restinho de você. E eu sinto tanto a sua falta que preciso ficar perto deste restinho.

Sinto falta do jeito que você sorria quando via um cachorro abanando o rabo. E de como você ajeitava os óculos que estavam sempre caindo. E de como você dava uma corridinha de leve para atravessar a faixa de pedestres mesmo quando o sinal estava vermelho para os carros. Eu acho que te amava, com todo o meu coração. Não, eu não acho, eu tenho certeza. Você era a pessoa mais importante para mim. Como eu fui me esquecer disso? Por quê? Mas agora é tarde. Eu vejo o meu nome escrito na lápide e só consigo pensar que não há nada que eu não faria para acordar, olhar no espelho e ver você de novo ao invés da parede do quarto. Eu não odeio você. Nunca odiei. Espero que de alguma forma você saiba disso. E eu sinto a sua falta. Terrivelmente.

-Suki

Texto de autor convidado para o aniversário de 5 anos do Degradê Invisível

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