A Lenda do Corvo

segunda-feira, fevereiro 19, 2018
Imagem: Sammy's Art



No início de tudo, havia o Universo, e apenas ele.
  Ele ansiava por companhia e, dessa Ânsia, nasceu uma escuridão que cobriu todo o Universo. Era a Noite.
  O Universo, temendo a imensidão que havia dado a Noite e demandando Equilíbrio, usou o que restava de seu poder para Criar algo que pudesse se opor a Noite. Então, do seu centro fumegante, nasceu uma Luz.
  Apesar da Luz combater a Noite de maneira incessante, ela sabia que um dia haveria um Fim; o seu centro queimava forte demais, rápido demais. Com parte da sua Vida, a Luz deu forma a uma ave, um corvo com penas mais brancas do que um floco de neve e olhos mais azuis que o mais claro dos oceanos.
  Enquanto o Corvo Branco caia pela imensidão da Noite, ele abriu suas asas. Ele descobriu que sabia Voar. Ao abrir o bico, ele descobriu que tinha uma Voz. Ao Voar ao mesmo tempo que usava sua Voz, o Corvo descobriu que conhecia uma Canção. Ele voava em meio a Noite, ameaçado, porém intocado, pois ele era um Filho da Luz e compartilhava parte do seu centro fumegante. Ao Cantar, o Corvo foi capaz de forjar a Vida num mundo só dele, um mundo que era capaz de sobreviver a Noite, pois aqueles que o habitavam carregavam consigo a Luz do Corvo.
  O Corvo Branco olhou para aquela Criação e descobriu em suas penas uma nova palavra. Minha. Com ela, o Corvo também descobriu o Orgulho. Ele sentia a mesma Ânsia que o Universo sentira ao criar a Noite. O Corvo abandonou seu mundo, abrindo caminhos na Noite e forjando novos caminhos com a sua Luz, criando Estrelas para iluminar o seu caminho.
  Antes que sua Ânsia estivesse satisfeita, o Corvo Branco chegou ao Fim do Universo. Além dele, uma escuridão além da Noite se estendia. Uma escuridão que a Luz de nenhuma estrela alcançava. O Corvo, ainda acompanhado por seu Orgulho, abriu as portas do Fim e adentrou a escuridão-além-de-estrelas.
Lá, ele encontrou a Morte, adormecida.
  O Corvo Branco bicou a Morte e determinou que ela não despertaria de seu sono. Ele cantou a Canção que havia forjado a Luz na Vida em um milhão de milhão de mundos e, ao som da primeira nota, os olhos da Morte já estavam abertos. Ela percebeu a ferida que o Corvo abriu em sua pele e, em apenas um grito, liberou a Raiva e a Dor pelo Universo. O Corvo fugiu da Morte, escapando pelas portas do Fim, pois esperava que a Morte não conseguisse passar deles. Mas já era tarde demais. As portas foram abertas, e a Morte adentrou o Universo.
  Ela perseguiu o Corvo, e na sua fúria, consumiu tudo que encontrava. As Estrelas se tornavam Buracos Negros a sua passagem, consumindo o espaço entre as Estrelas. Conforme o Corvo fugia de volta para a Luz, a Morte o seguia, apagando o Universo.
Ao chegar a Luz, o Corvo implorou para que ela pusesse um fim aquilo. A Luz lhe disse que nada seria suficiente para dar um fim aquilo, pois a Morte era o Fim de todas as coisas, e nada poderia pará-la agora que ela estava acordada. Em suas penas, o Corvo descobriu o que era a Culpa.
  Ele olhou para trás e descobriu que a Morte não foi a única coisa que escapou daquela escuridão. Algo mais vinha, anunciando a sua chegada. O Medo nascia em todas as criaturas Vivas.
  O Corvo Branco descobriu o Medo em suas penas. Porém, ao lado dele, havia algo que viera junto com o Medo. O Corvo descobriu a Coragem.
  Ele voou até a Noite e implorou para que ela ajudasse a combater a Morte que se aproximava. A Noite lhe disse que não havia motivos para que ela o ajudasse, pois fora ele que espalhara a Luz no Universo. Mas o Corvo disse a Noite a verdade sobre a Morte: ela era o Fim de todas as coisas, das Estrelas e do espaço entre as Estrelas, da Luz e da Noite, e ela não faria distinções. A Morte era o Inimigo.
  A Noite concordou com o Corvo e lhe disse:
  “A Morte nunca poderá ser derrotada. Mas você pode desafiá-la. A chave para enfrentar o Inimigo se encontra em sua posse. Ela o guiou até esse momento, mesmo que você não se dê conta disso.”
  O Corvo pensa em muitas respostas. A Luz? A Ânsia? O Destino?
  A Noite riu do Corvo, pois o Destino não era nada mais do que o esqueleto de um Deus morto e esquecido. A chave para enfrentar a Morte era muito mais antiga e poderosa que o Destino.
  Então, em meio a suas muitas penas, o Corvo achou a resposta. O Corvo descobriu que ele possuía uma Escolha. Que sempre possuiu.
  Ele partiu da Noite e rumou direto para a Luz, voando tão rápido que até o Medo se desprendeu dele. Ele rumou para a Luz e não olhou para trás. Ele uma vez saíra da Luz e agora, retornava a Ela, não porque era o seu Destino, mas porque era sua Escolha.
  Ao se chocar contra a Luz, o Corvo Branco fez o primeiro Sacrifício. O poder de tal desafio fez com que a Morte fosse espalhada por todos os cantos do Universo, retornando as estrelas e os mundos da escuridão e do frio do Vazio. Cada criatura viva ficaria responsável por manter consigo um pedaço da Morte para impedir que ela cubra o Universo novamente. Eles passariam a Morte aos seus filhos, e estes a passariam aos próprios filhos, mantendo-a enjaulada em seus corpos e presa a sua própria Luz.

  Enquanto o Corvo Branco queimava no centro da Luz e suas penas queimadas caiam pelo espaço, o Universo se uniu em silêncio para acompanhar o Fim do Corvo Branco. Com o Silêncio, uma nova força surgiu entre todas as criaturas do Universo: Compaixão. Guiadas por essa força, as lágrimas da Luz e as lamúrias da Noite forjaram de cada uma das penas enegrecidas do Corvo Branco um novo Corvo, de asas tão negras quanto a Noite e olhos tão brilhantes quanto o Sol. E mesmo após o Tempo ter sido inventado e esquecido, mesmo após a Lenda ter sido contada e enterrada, os Corvos ainda carregam a memória do primeiro Corvo, o Corvo de Penas Brancas que ensinou ao Universo que é preciso sempre respeitar a Morte, mas que nunca devemos nos render a ela.

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