5 segundos

segunda-feira, janeiro 01, 2018



 Temos o terrível instinto de não apreciar os momentos como deveríamos. Aqueles momentos em que tudo parece estar simplesmente... certo. Em que você sobe uma rua com o Sol sobre a cabeça e um óculos escuro sobre a cara e um número delicado de nuvens no céu, quando o seu celular começa a tocar uma música aparentemente selecionada à dedo para aquela subida, quando você descobre que o volume do fone está alto o suficiente para que você esqueça que o resto do mundo sequer exista e você tenta caminhar no ritmo da batida na melhor maneira que consegue, mas você não se preocupa com o que os outros estão vendo, porque para você só há um aqui e um agora no mundo e eles são completamente, unicamente, seus.

 Nós costumamos não dar o valor para estes momentos.

 Talvez por termos tanto prazer em recordá-los e compará-los à fases posteriores de nossas vidas, descobrindo que o resto nunca chegou perto de oferecer o que aquele único e infinito momento ofereceu. Dizemos que é melhor esquecer destes momentos para que outros como ele possam surgir. Mas a verdade é que a memória perfeita deles nos dói a alma, a nostalgia nos parece tão ácida quanto é prazerosa, um fruto tão doce que chega súbita e rapidamente ao caroço.

 Não há valor suficiente para pagar por momentos como estes. A única forma de pagamento compatível com o valor de momentos como esse seria o sangue: o rio da vida que não deve ser apreciado por fora. É o sangue aquele que deve ser sentido antes de visto.

 Para se lembrar desses momentos, você precisa antes se lembrar de cada gota de sangue que corre por suas veias, dando voltas pela sua alma e varrendo o seu corpo de tudo o que não pertence a ele. Quando você se lembrar de tudo isso, aí você terá a memória perfeita de como aquele momento ocorreu: invisível e banal e perfeito.


 É nesses momentos que a vida de verdade acontece.


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