Ganância Vil - Parte I

by - segunda-feira, novembro 20, 2017



         Gnolls gritavam e rosnavam ao humano que adentrava seu covil. O primeiro recebeu uma intensa martelada na lateral da cabeça, fazendo com que o barulho do impacto ecoasse pela caverna toda. Sangue espirrou de suas narinas e seus olhos saltaram pra fora das cavidades. Logo em seguida, antes de absorver todo o primeiro impacto, recebeu uma batida no topo da cabeça. Seu crânio estourou com um som alto e grotesco, afundando não só contra si mesmo mas contra o chão. O humano girou seus dois martelos de guerra e avançou contra o segundo monstro que vinha, golpeando-o com as duas armas no peito, jogando-o para o lado ao mesmo tempo que causou uma poderosa implosão em suas costelas. Outros três avançaram brandindo espadas mal feitas, mas suas armas, assim como seus corpos, foram esmigalhados rapidamente pelos furiosos golpes do guerreiro.
         O homem estava fundo na caverna dos gnolls quando finalmente achou um baú contendo, entre muitos lixos, o colar de pérolas e ossos que fora contratado para encontrar. Rapidamente o enfiou dentro do bolso e sacou o martelo novamente, avançando contra a saída. Dentro da caverna estava numa espécie de cânion, gnolls atiravam pedras contra o homem do topo dos escarpes. Elas não incomodavam muito, mas era melhor não dar chance pro azar. Os monstrinhos agora procuravam se proteger do guerreiro e evitavam combate corpo-a-corpo, mas alguns corajosos ainda foram esmigalhados. Próximos a saída, um pequeno Gnoll segurava uma adaga mal feita, tremendo, apontando-a contra o humano. Sem nem olhar pro bicho, o matador deu um fortíssimo golpe lateral na cabeça do infante, esmagando-a e estraçalhando-a no processo. As criaturas se chocaram com a situação e se uniram ao redor do pequeno. Pelo menos, aquele cara já estava longe.
          De volta à Vila d’Ouro, o velho careca já corria na direção do guerreiro.
          - Zack! Como está? Os gnolls te machucaram? – Disse ele, preocupado.
          Zack  lhe encarou com o canto dos olhos e sorriu.
          - Acho que quem saiu na pior foram todos eles. Lilian está na vila?
          - Sim! Mas logo sairá para Cerro Oeste. Vem, vem comigo!
         Chegaram na pequena casa. Era simples, mas bem feita. Possuía os mesmos materiais e estilo de construção das outras casas de Vila d’Ouro.  Zack entrou lá, e logo foi recebido por uma mulher pequena, magricela e loura. Ela sorria, empolgada, independente da armadura cinzenta e respingada de sangue do guerreiro. Ele lhe estendeu colar, que foi recebido com um sorriso gigante e um pulinho de felicidade.
          - Nossa! Eu não sei nem como agradecer... Na verdade, eu sei! Espera aí.
       Ela entrou na casa e logo voltou com um saquinho de moedas de ouro, entregando pro homem.
          - Isso é importante demais pra mim, obrigada.
         Ele respondeu assentindo, e saiu dali, contando as moedas no saco. Cem peças de ouro. Excelente. Foi até a taverna, com uma moeda dourada na mão. Vila d’Ouro costumava ser um caminho comum entre aventureiros que saíam de Ventobravo, então a taverna estava sempre cheia de personalidades interessantes como, por exemplo, um humano de armadura prata e dourada, uma anã de manto branco e um elfo noturno acompanhado de uma pantera discutiam algo diante de um grande saco de ouro no meio da mesa. Do outro lado, quatro gnomos conversavam animados sobre algum tipo de engenhoca, apontando para uma folha amarelada e rabiscada.
                - Uma enânica forte. – Disse Zack, largando uma moeda de ouro no balcão.
               A taverneira já sabia o que ele gostava, então pegou a peça, deu o troco em prata e pouco tempo depois, lhe entregou um grande caneco cheio de uma cerveja escura de cheiro intenso. Sem frescuras, bebeu até molhar sua barba. Ficou ali alguns minutos aproveitando sua solidão até que sentiu uma mão em seu ombro. Olhou pro lado e viu um homem alto, largo, moreno e de cabelos negros.
          - Você deve ser Zackeriel, mercenário. Certo? – Disse o grandalhão.
          - E você é...? – Retrucou o guerreiro.
          - Venha comigo. Tem aguém qu-
          - Não. – E Zack tomou um gole da cerveja. A mão do cara apertou mais forte seu ombro.
          - Você não vai gostar do que aconteceria caso se recusasse.
          - Cai fora.
          O homem de pé irritou-se, levando a mão a um porrete. Porém, quando tocou-o, recebeu uma martelada no queixo, fazendo-o partir em um poderoso estalo. Caiu no chão, cuspindo sangue. A taverna parou e focou a atenção em Zack e no homem agora caído. O guerreiro guardou seu martelo, levantou e saiu. Todos mantiveram-se em silêncio, observando. Lá fora olhou para cima e avistou aquela coisa bizarra flutuando para além de Azeroth.
          Ouvira que aquele era o planeta Argus, base da Legião Ardente. Illidan, junto de Hadgar, Velen e outros heróis haviam trazido-o pra perto para que pudessem, junto aos campeões de Azeroth, parar a Legião de uma vez por todas. Por pior que parecesse a situação, pelo menos, estava trazendo mais trabalhos pra ele. Desde o início da campanha às Ilhas Partidas, a quantidade de ataques demoníacos haviam aumentado. E agora com Argus tão perto, os ataques eram cada vez mais frequentes. Proteger civis, cidades, fazendas e outras coisas das hordas demoníacas davam muito dinheiro.
          E parecia que a necessidade havia lhe trazido um cliente.
       Lá fora, um homem vestindo uma espécie de armadura de couro batido com algumas adagas presas ao cinto o aguardava, recostado sobre uma árvore logo à frente da taverna.
         - O capanga foi muito difícil pra você? – Disse ele, num tom cínico. Zack não respondeu, então prosseguiu: - Tenho um ótimo trabalho pra você. Está disposto a ganhar uma bolada?
          - Quanto? – Disse o guerreiro, ríspido.
          - Quinhentas moedas de ouro.
          Zack arqueou as sobrancelhas. Das duas, uma: era uma armadilha ou tinha tirado a sorte grande. Pelo menos ele sabia bem decifrar mentiras.
          - Conte-me mais.
      - Não. Aqui não. Me encontre em uma hora ao sul, na fronteira com a Floresta do Crepúsculo. Nosso trabalho é praqueles lados.
           - E qual seu nome?
           - Renath Zim. Pode me chamar assim.
          O homem não esperou resposta e virou-se, indo em direção ao norte. Zack então foi ao estábulo, onde estava sua égua. Deu-lhe comida, preparou a cela, subiu e partiu ao sul.

//

 No local, não havia ninguém. Imaginou, então, que havia chego primeiro. Manteve-se montado em sua égua, atento, até que ouviu um farfalhar de arbustos próximos. Virou-se e percebeu um homem fortemente armadurado indo em sua direção. Ele brandia um largo machado e gritava. Do lado oposto, um encapuzado brandindo um arco levantou-se, mirando contra Zack.
           Sem pensar, saltou de sua montaria e foi na direção do que possuía a espada. Seu inimigo realizou um golpe vertical, tentando acertar-lhe o ombro, mas bloqueou com a cabeça do martelo, empurrando pro lado num único e rápido movimento. Sem equilíbrio, aquele bandido era alvo fácil para o mercenário, que golpeou-lhe com um dos martelos na lateral de seu corpo. Saltou para frente num giro, acertando suas costas. Empurrou seu corpo com força na direção do arqueiro, que já lançava uma flecha que perfurava a armadura fraca de cobre do escudo humano. O arqueiro percebeu o plano e tentou correr, mas o guerreiro, finalizando seu primeiro inimigo com um poderoso golpe em sua nuca que estraçalhou seu crânio, arremessou uma de suas armas contra o fujão. Ele recebeu o golpe, deslocando seu ombro com um arrepiante estalo. Zackeriel sabia que, no medo, ele conseguiria escapar no estado em que estava, então quando alcançou distância o suficiente, saltou, segurando o martelo restante com as duas mãos e lhe dando um golpe na cabeça. Sua força, somada à gravidade, era devastadora. Onde deveria ficaria a cabeça do inimigo, restava apenas uma poça de sangue, miolos e ossos espatifados.
         Faltava mais um: Aquele que o contratou. Com certeza ele estava por trás da emboscada. Era de se esperar, pois se tratava de muita grana. Não demorou muito para encontrá-lo: o desgraçado estava amarrado e amordaçado no meio de alguns arbustos. Se remexia, tentando sair. Pelo jeito, aquelas suas adagas não serviram de nada.
         Livre, pode contar o que houve:
         - Esses caras desconfiaram que eu esperava alguém e me amarraram. Queriam pegar quem quer que viesse para roubar o dinheiro. Eu não dei nenhuma informação, sabe como é que esses caras são! Eu juro, acha que eu iria me amarrar assim e me jogar no meio do mato só pra te enganar?!
         Zack assentiu, subindo em sua montaria. Fez um gesto com a cabeça.
         - Suba e me conta os detalhes agora.
         - Vamos para Vila Sombria. Eu morava lá nos arredores com meus pais. Ficamos lá muito tempo, meu pai era lenhador, sabe? Até que os exércitos de Ventobravo saíram pra lutar contra a horda. Bom, você sabe.
         - E agora, toda Floresta do Crepúsculo está tomada por horrores e mortos-vivos. O canteiro do flagelo.
         - Sim. Preciso voltar pra cabana que eu vivia e buscar uma carta. Ainda deve estar preservada. Era uma carta de crédito da época que meu pai trabalhou pro rei. Se eu encontrá-la, posso abandonar minha vida de crime e viver com o dinheiro. Enfrentaremos criaturas horríveis. Ainda pode desistir se quiser.       
         Sem uma palavra, Zack direcionou sua égua para frente, em direção à Floresta do Crepúsculo.


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