A Rainha de Ossos


Há uma Rainha de Ossos
Que aguarda em todos nós
A chance de erguer-se
De seu trono cadavérico
Pálida como a luz do luar
E tão fina quanto a porcelana,
Sua pele se estica sobre a cara
Revelando um olhar vazio,
Que demanda ser servido
Olhar de filha, olhar de criança,
Olhar de puta e de cigana

Essa Rainha não tem reino,
Pelo menos não ainda,
Mas logo ela terá súditos,
Servos, escravos e concubinas
Para lhe encher a corte
E encher os olhos
Dos que se acharem
Sob as juntas de seus pés
Para que todos aprendam
Que ninguém escapará de seu julgo;
Nem as estrelas que cortam o espaço,
Nem os reis que se dobram em seu encalço
A ela servem todos
Os vencedores e os aniquilados
Filhos de nobres e bastardos
Povo da noite e da alvorada,
Sentinelas e desertores
Homens bons e traidores

Mas ela não terá rivais
Pois inquestionável é a sua fúria
Fúria de menina, fúria de mulher, fúria de mãe
Fúria de Rainha
Fúria de morte
Fúria de derrotada
E todos que pensarem em abandona-lá
Se tornarão adornos em sua coroa
Seus dedos tornarão em contas,
Seus dentes, colares e
Suas pernas, um cetro
Pelo qual ela se erguerá
Acima de todos os outros
Que ousarem questiona-lá
Pois todos acabam servindo ao seu Reino
Tanto os mortos quanto os vivos
Corações apaixonados e partidos
Memórias esquecidas e enobrecidas
Cavaleiros das casas e das vielas
Toda uma legião de donzelas,
Todos tão mortos
Quanto aquela Rainha de Ossos

Assim ela governa
Implacável, irrefutável e impossível
Até que a Morte se levante
E seduza aquele último consorte
E o passe adiante
E suas filhas herdem o cetro
Pelo qual sua mãe fora erguida;
Para que elas herdem o Palácio das Flores Renascidas
E portem a coroa de cálcio
Com rigidez ainda maior do
Que ela um dia teve;
Para que elas um dia se ergam
Na colina das mágoas
E se tornem maiores
Do que ela um dia foi;
Para que ornem a coroa
Não com ossos
Mas com prata e ouro
Pois a Rainha dos Derrotados
Não foi nada,
Senão uma Rainha de passagem
De um Reino fadado à ruína
De tudo, exceto o tempo
Destinada para sempre
A ser uma sombra do passado
Uma sobra de um tempo perdido

E adorado.



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