Charlottesville

by - domingo, agosto 20, 2017




Uma mulher está morta.
   Não há forma de se suavizar isso, ou de dizê-lo de maneira que diminua a importância desse fato. Uma mulher morreu neste sábado (12) na cidade americana de Charlottesville, Virgínia, enquanto protestava contra manifestantes que pediam que a estátua do general confederado Robert E. Lee fosse mantida no mesmo parque em que se encontra desde 1924.
   Uma mulher está morta, e seu nome era Heather Heyer.
  Ela morreu porque, no meio do protesto, um carro veio de encontro direto a multidão, ferindo várias pessoas, além de matar Heather. O motorista do carro era James Alex Fields Jr., habitante de Ohio, que está sob custódia e teve seu pedido de liberdade sob pagamento de fiança negado até o presente momento. Ele foi até a cidade de Charlottesville com o objetivo de participar de uma manifestação ao lado de grupos de extrema-direita contra a retirada de uma estátua de um general confederado do Parque da Emancipação (Emancipation Park). Seu professor disse que ele possuía visões extremistas e que era um admirador do ditador Adolf Hitler. Sua mãe, no entanto, negou saber que o filho de 20 anos havia ido participar da dita manifestação, alegando que não sabia das convicções políticas do filho, que os dois “não discutiam política”.
   Uma mulher está morta, e seu nome era Heather Heyer. Ela era uma advogada.
  Heather tinha 32 anos. Todos os seus amigos e familiares afirmam que ela era uma defensora ferrenha dos direitos civis, e seus colegas de trabalho afirmam que ela sempre chamou atenção para casos de negligência policial e racismo nos casos em que trabalhou. Seu chefe disse que o seu objetivo no sábado era deixar que os supremacistas brancos soubessem que as pessoas de Charlottesville abominavam a visão de mundo deles. No final, Heather morreu pelas mãos de um homem de Ohio.
  Uma mulher está morta, e seu nome era Heather Heyer. Ela era uma advogada, e ela morreu porque acreditava.
  Heather acreditava que uma pessoa só poderia ser julgada pelo conteúdo de seu caráter e não pela sua cor, sua religião, sua orientação sexual ou seu gênero. Heather acreditava que a liberdade de expressão não é uma licença para se propagar o ódio total e irrestrito. Heather acreditava em tudo isso, e morreu por causa disso. Porque um homem que discordava dela não viu outra opção além de jogar um carro contra Heather, para que seu ponto fosse feito.
  De novo, é impossível sublinhar o suficiente a importância do que aconteceu: uma mulher está morta. Uma mulher de apenas 32 anos nunca mais irá sorrir, chorar, se alegrar, se machucar, rir com seus amigos, dizer que ama seus pais, se casar, ter filhos, ou poderá olhar em um álbum de memórias e sentir saudade do tempo que passou. Por quê?
   Porque alguém não concordava com ela.
  Heather morreu em um confronto no qual o lado oposto ostentava bandeiras nazistas e de cunho racista. Ela morreu defendendo aquilo no que acreditava, porque ela sabia que seria incapaz de se olhar no espelho caso não o fizesse. Porque aquilo em que acreditamos vale tanto quanto nós mesmos, e vale a pena ser defendido.

  Uma mulher morreu, e seu nome era Heather Heyer, e ela acreditava.


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