As coisas que eu gostaria de dizer

by - sexta-feira, agosto 04, 2017






“Me lembrando que eu ando sonambula
Num oceano de felicidade
No qual não posso me batizar”
- Sabrina Benaim, Explaining my depression to my mother: a conversation





- as coisas que eu gostaria de dizer

como é difícil explicar pras outras pessoas
o que eu mal consigo explicar pra mim mesmo
são as coisas que eu gostaria de dizer
mas que eu nunca vou poder
porque elas são simplesmente muito duras
pra eu mesmo ouvir
porque se de repente, eu dar um nome,
é porque é real, não é imaginação,
e se não for, eu sou só um mentiroso, um leproso,
uma coleção de peças faltando
que ninguém pode encontrar
nem eu mesmo, nem no meu lar.
e nos dias em que é tão complicado
apenas levantar da cama pra lutar
esses são aqueles que eu mais gostaria de ter alguém
pra escutar, pra me contar o que há de tão bom no seu dia
pra que você encare esse mundo que eu vejo da janela
esse mundo em que eu cresci me ensinando
que a ordem da vida era ter medo,
era olhar pra noite e ver todas as coisas que poderiam dar errado
era ter ansiedade
era aceitar ansiedade
era amar ansiedade
que era errado dizer que eu tenho ansiedade
e culpar aqueles que diziam ter ansiedade.
era sentir meus ossos pesados, feitos de chumbo
e ao mesmo tempo senti-los ocos e vazios até mesmo de ar
era viver como se meu espírito fizesse parte de um corpo diferente
e que a única maneira de me libertar
fosse fazer furos na minha pele pra poder ver
o sangue correr sem parar só pra me convencer
que eu ainda estou vivo e que eu ainda respiro
mas aí eu sinto culpa pelo que sinto, e eu escondo
(porque aprendi a esconder tão, mas tão bem)
só pra que ninguém faça perguntas
que eu não tenho condição de responder
eu me sufoco com todas as coisas que me passam pela cabeça
as boas, as ruins, as feias, até que
os filmes, as séries, os livros
são a única maneira de escapar,
não porque neles eu me perco da realidade
mas porque por um momento
parece que eu a encontrei de novo
que há novamente um chão sob meus pés
mesmo que seja feito de geleia
mesmo que eu possa ver que não há fundo
porque quando eu vejo um filme realmente bom,
eu vejo o que está por trás da arte
eu vejo o artista e a pintura,
o quadro e a moldura,
e eu vejo eu mesmo, funcionando
filmando, pintando, escrevendo
eu vejo eu mesmo, só que vivendo
e quando eu saio do cinema, o chão se desfaz
como eu sabia que iria acontecer
e como eu mesmo assim não fiz nada pra evitar,
porque cair e se estatelar
ainda soa mais produtivo do que parar
sem tem lugar pra ir, como um zumbi
preso num instante, numa constante,
na faísca de um incêndio prestes a explodir
sem se libertar e sem acabar
sem oxigênio pra viver
e sem espaço pra morrer.
eu quero chorar, eu quero mostrar
mas só consigo dizer que está tudo bem
que eu não estou afetado
que só estou cansado,
quando na verdade estou exausto,
por puramente não fazer nada,
por viver no mesmo dia parado,
não importa o mês do calendário.
sou a mesma foto, desfocada
que vê o todo pela metade
(geralmente a metade que se esconde)
que se deixa convencer
de que não há razão e nem motivo
de que tudo acontece por acaso
e que o mundo não tem uma razão sequer
pra se preocupar comigo
ou com como me sinto
e a insignificância não me abala,
ao contrário, me conforta
me diz que eu tenho uma saída,
já que o mundo não se importa
mas quando eu finalmente piso fora
não sou só mais um grão
sou um balão cheio
de veneno,
um veneno horroroso e fedorento
que matará todos que conheço,
e que eles vão saber que fui eu
e eu ainda vou sentir
mesmo não estando mais aqui,
e eu me afundo nessa situação,
de culpa sem perdão,
de sofrimento sem sentimento
que me engole e me cospe
até que eu rasteje de pés amarrados
até que eu abra a porta de casa
até que eu chegue no quarto e feche a porta,
porque não quero que me incomodem,
não enquanto eu durmo e sonho,
em como seria bom chorar de novo
aquele choro por mim mesmo
e não pelos outros,
o choro que faz bem ao ego
e não o que o destrói
de novo e de novo e de novo
pra que eu possa pelo menos parar
de sofrer por motivos que
ninguém, muito menos eu,
consegue entender.

A autoria ficará anônima, a pedido do autor.

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