Toc toc





Recentemente eu comprei um porta-chaves.
   Não é um porta-chaves particularmente bonito ou especial, para falar a verdade. É só um porta-chaves. Daqueles que você encontra em qualquer loja de conveniência por um preso muito superior ao valor de fabricação e ainda assim muito mais barato do que você seria capaz de acreditar. Ok, confesso que peguei o preto ao invés do branco, já que a minha parede já é branca e achei que um pouco de contraste faria bem ao ambiente. Mas, fora isso, só a porra de um porta-chaves.
   O que levanta a questão: por que eu estou escrevendo sobre a porra de um porta-chaves?
   Bem, porque eu descobri que eu odeio meu porta-chaves.
   Descobri que sou capaz de odiá-lo como nunca odiei a alguém, mais do que jamais sonhei ser possível odiar. Descobri dentro de mim um ódio que eu mesmo julguei que era incapaz de produzir, um ódio tão primal e visceral que queima nas minhas entranhas e força seu caminho até a minha língua, vazando palavras que há um minuto não estavam lá.
   Então, por que o porta-chaves?
   Você já saiu de casa e se pegou na soleira da porta ou na frente do apartamento, pensando que esqueceu alguma coisa? Uma coisa esquiva, uma coisa que você não consegue associar a um nome imediatamente, mas que sabe que é importante o suficiente para te fazer parar aonde está? E, quando você inevitavelmente volta para procurar a tal coisa, acaba por concluir que não havia coisa alguma, que tudo foi apenas uma peça pregada pela sua mente, uma resposta ao stress e a pressão que você tem sofrido no trabalho ou na faculdade ultimamente, uma pequena vingança dos neurônios fatigados e sofridos cujas bainhas estão quase torradas depois de tanto esforço. E você sai de novo de casa.
   E você percebe que ainda sente falta da tal coisa.
   E, pelo resto do dia, você vai tentar se fazer acreditar que aquilo não era nada, apenas uma alucinação causada pelo calor, mesmo quando cada célula e terminação nervosa no seu corpo está lhe dizendo que sim, aquilo era alguma coisa, seu imbecil, e é melhor você voltar imediatamente para pegá-la! Mesmo depois de você ter se aliviado no banheiro, parece que aquela sensação se apega a você como um parasita que lentamente se aloja no estômago e se recusa terminantemente a sair, não importa o que aconteça. Você tenta se livrar dessa sensação, claro.
   Você tenta o álcool, e ele te deixa meio tonto, mas não faz com que a sensação desapareça. Você tenta drogas, mas elas só fazem com que a sensação fique mais forte. Você passa para drogas mais fortes, até finalmente iniciar um romance e, por um tempo, a sensação some. Por um tempo. Você constrói uma vida, uma com casa, filhos, um emprego estável, um cachorro, um gato, uma hipoteca aceitável e uma taxa de juros não muito exorbitante...
   Mas nada faz com que a coisa desapareça. Não por completo.
   Então, você decide cometer um crime. Os meses de preparação e de recrutamento te mantêm ocupado, e você se esquece da tal coisa. Mas na noite do golpe, quando não há mais nada para ser planejar, quando o plano todo depende das ações dos seus comparsas e do cuidado deles ao executar o plano, ela volta com tudo. E você é pego.
   Você é pego e você é julgado e você é condenado. Você passa o seu tempo no xadrez sendo comido e carcomido por aquela sensação desoladora, dia após dia até que o seu tempo subitamente acaba e, sem demais explicações, você está na soleira daquela casa que deixou hoje de manhã mesmo, quando aquela sensação infernal surgiu e tomou as rédeas da sua mente. E você procura as chaves no bolso.
   E percebe que elas não estão lá.
   De repente, tudo faz sentido.
   Afinal, as chaves estão aonde era suposto elas estarem: no porta-chaves.
   Quem, em sã consciência, compraria um porta-chaves para não colocar as chaves nele?
   Isso seria loucura, certo?

   Diga-me, você já teve um dia assim?




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