1986

by - segunda-feira, julho 24, 2017




 

Quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho certeza”.
Oscar Wilde 

 Em 1986 aconteceu muitas coisas na minha vida. O cruzado era o dinheiro utilizado na época, mas eu nunca tinha nenhum tostão furado nem pra comprar um sorvete para a minha garota.
 No mesmo ano, foi noticiado que o cometa Halley estaria de passagem. Isso alarmou muitas pessoas, pois na época era o maior acontecimento do mundo.
 Eu era apenas um garoto de 16 anos, e como a maioria dos adolescentes, queria logo ter a minha primeira experiência sexual. E a passagem do cometa Halley era a oportunidade perfeita pra isso.
 Minha namorada, Cristina, acabara de completar 15 anos, e como toda garota daquela época, ela era fã de Cindy Lauper, e queriam ser como ela.  Inclusive usava aquele corte de cabelo horrível e fazia aquelas mechas coloridas. Mas ela era a minha garota, e eu gostava mesmo assim dela. E aquela noite seria a nossa primeira vez.
 Com a passagem do cometa, e o alarme sobre o fim do mundo, o que era pra ser um verdadeiro caos no meu bairro, se transformou em verdadeira festa. Morar no subúrbio era incrível. Meus vizinhos transformaram toda situação em um grande churrasco em frente a suas casas. E os garotos da minha idade pela primeira vez podiam beber cerveja sem ser escondido e serem pegos pelos seus pais.
 Na casa de um amigo, chamado Jorge, estava marcado para acontecer o último campeonato de atari, e como ele era o único em todo bairro que tinha, todos garotos iam para sua casa jogar, mas ele ditava as regras e no final sempre ganhava. Mas pela primeira vez todos os garotos e garotas do meu bairro não queriam ir para casa do Jorge.
 Meu pai havia comprado um carro Del Rey na cor laranja para fazê-lo de táxi, e como todos diziam que era final dos tempos, meu pai me deixou dirigir o carro pelo bairro. E todos queriam dar uma volta de carro. Foi a primeira  vez que eu soube como era ter dinheiro. Cada garoto do bairro que queria dar uma volta pelo bairro me pagava 1000 cruzados. Alguns levaram suas namoradas e o preço triplicava para que fossem sozinhos no banco de trás.
 Ninguém mais se preocupava com dinheiro. Os pais davam todo dinheiro que tinham guardados no colchão para que seus filhos gastassem com o que eles quisessem. E como meu pai não guardava dinheiro no colchão, pois tinha comprado o carro, ele só podia me dar o carro pra que eu ficasse rodando com ele pelo bairro.
 Passei o dia rodando com o carro do meu pai, e ganhei um bom dinheiro até a hora que a gasolina acabou próximo de um cemitério. Foi aterrorizante para todos que estavam no carro. Principalmente para minha namorada Cristina, que estava sentada no banco da frente.
 Todos comentavam que os mortos estavam para se levantar dos seus túmulos quando cometa passasse. Um dos garotos,  falou uma passagem da bíblia sobre o dia do julgamento. Então todos se olhavam assustados e ninguém falava mais nada. Até que ficou um silêncio ensurdecedor, e eu olhei para minha namorada que estava suando frio. E de repente, um cachorro pula na janela ao lado de onde estava sentada minha namorada e todos começaram a gritar e saíram do carro correndo desesperados.
 Com o susto, todos correram, inclusive minha namorada que passou por cima de mim e saiu pela porta do lado do motorista. Foi difícil acompanhar os outros na corrida. O susto fez a adrenalina ficar bem forte. E ninguém dava pausa na corrida. E com isso, tive que deixar minha mochila com todo dinheiro que eu havia ganhado o dia todo com carro. No momento, ninguém se importava se o cometa passaria ou não, apenas se importavam se os mortos se levantariam de seus túmulos e nos comeriam.
 Todos conseguiram retornar para suas casas, inclusive eu que cheguei em casa e fiquei pianinho no sofá ainda me tremendo de medo.
 Quando chegou à noite, vieram novas notícias na televisão que o cometa já havia passado e que ninguém mais precisaria ficar preocupado com o final do mundo. Quando finalizaram a notícia, meu pai que estava com uma lata de cerveja na mão, e mais outros secas no chão, virou o pescoço igual a garota do filme do  exorcista.
 __ Onde está meu carro? __ Perguntava com os olhos arregalados e vermelhos.
 __ Pai, eu, eu, eu  __ Tentava responder, mas a gagueira impedia de completar.
 __ Onde você deixou o meu carro? __ Seus olhos estavam cada vez mais vermelhos de fúria.
 __ Perto do cemitério. __ Respondi rápido e papai levantou-se da poltrona e foi até a geladeira e pegou outra cerveja e saiu.
 Depois de algumas horas meu pai retornou no seu carro. Entrou em casa, foi direto para seu quarto, se jogou na cama e dormiu. Corri até o carro para buscar a minha mochila. Mas ela não estava mais lá.
 Passaram-se dias, e papai deu a notícia que eu deveria arrumar as malas, pois havia me matriculados em um colégio interno. Não sei como meu pai conseguiu dinheiro pra pagar o colégio,  pois colégio interno é muito caro, mas imagino de onde veio. Afinal das contas, eu rodei muitas vezes com o carro do meu pai, com os garotos e garotas do bairro, e eles gastaram todo dinheiro do seus pais passeando de carro pensando que era o último dia de suas vidas.
 No final, eu planejei ficar rico e perder a virgindade com a minha garota, e sair lucrando com a passagem do cometa Halley no ano de 1986. Mas acabei continuando virgem, sem dinheiro, gago e preso em um colégio interno.


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1 comentários

  1. Gostei muito do conto. Aquele parte do cemitério me fez lembrar do clip thirller do Michael Jackson.

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