Um sapato azul em cima do baú



Um sapato azul em cima do baú. O resquício de tudo se resumia nesse objeto e na lembrança que ele remetia.  12 de fevereiro. Eu estava lá. Entediada, cansada. Cansada daquelas superficialidades esdruxulas. As risadas ecoavam da sala, toda aquela gente rindo e eu me sentindo tão entediada. Olhei para trás e vi que o centro das atenções tinha um belo sorriso, mas parecia ser só mais um babaca boçal . Não imaginava que ele fosse me notar, tampouco desejava qualquer tipo de contato. Mas ele notou, não da maneira mais convencional, mas notou. Disse que eu devia me animar, que logo mais o pessoal da copa seria liberado. Acendi um cigarro e sem o olhar nos olhos respondi que eu não trabalhava com eventos. Ele tentou disfarçar, porém flagrei seus olhos nos meus sapatos azuis, semelhante ao pessoal da copa. Ele enrubesceu e constrangido pediu desculpa e se retirou. Continuei fumando. Apenas mais um babaca tentando ser legal, numa tentativa falha.
 15 de maio. Carros, caminhões, cruzamentos, enfim atravessei. Não sabia para que porra eu estava indo. Andava meio perdida. Só precisava ir. Subway. 4º andar da galeria. Ás vezes a gente precisa de arte, e de comida também. Peito de peru. Frango ao molho. Aquela voz me soava familiar. Sorrisinhos, cordialidades, casualidade e um lanche divido. Passamos a nos encontrar com frequência a partir desse dia. O começo de uma construção a dois, talvez por superfícies não planas, mas afinal o que é mesmo realmente plano? Ele divorciado, com um filho,28, moralista, guardião da moral e bons costumes, paradoxalmente desnorteado. Eu solteira, 21, subversiva, rebelde, perdida.  Nos encontrávamos em sua casa de praia. Vivemos nossa paixão num universo particular, isolado de tudo e de todos. Parecia que existíamos apenas nós, mas não. A realidade a nossa volta também existia, embora quando juntos, deixássemos de lembrar.
   O cotidiano nos encarregou de enxergar bem as outras pessoas a nossa volta. Sua ex infernizava, os problemas aumentavam como em bola de neve. E quando um resolvia, três apareciam, era um efeito borboleta infindável. Na vida real o amor não suporta tudo como pregam Hollywood, as novelas e literatura água com açúcar. Eu não aguentava mais tanta pressão, não suportava o ver mal e saber que eu tinha grande influencia nesse sentimento. Não conseguia mais sorrir em paz ao seu lado, ele percebia. Tentamos tanto, até nos cortar, até nos fazer sangrar amargamente. Não dava mais, e era impossível reverter todo mal que nos causamos, tudo que deixamos para trás, abdicamos para estar juntos. Como eu quis apagar tudo. Como eu desejei que nunca houvéssemos existido! Chorando no quarto escuro na casa em que esporadicamente vivamos. Quis desaparecer completamente. Aquela havia sido nossa ultima briga. Estava tudo acabado, tudo havia acabado. Quis voltar no tempo e mudar tudo. Desejei com toda força em mim, cada átomo, cada molécula, eu quis e pagaria qualquer preço para isso.
14 de fevereiro de 2014: Cansada de todo aquele risinho tosco e fútil. Acendi um cigarro na varanda enquanto o bonitão proferia suas gracinhas superficiais. Não é que ele se aproximou. Meu coração estúpido não soube se conter no peito. Ele veio tentar me animar e sem graça comentou do meu sapato que era semelhante ao das serviçais da festa. Fui grosseria e rudemente o disse que tanto faz, sequer olhei na cara dele e dei de costa, o deixando sem resposta, sem ação. Por coincidência do destino ou sei lá que caralho for, não lembro de ter o encontrado na subway na semana seguinte. Comi solitariamente meu sanduíche.
Não conseguia desprender os olhos do sapato azul em cima do baú. A dor e nostalgia que ele me causavam eram intraduzíveis, tal como a saudade. Lembrei dos beijos apaixonados na casa de praia. Da brisa no fim de tarde de mãos dadas, das jurar de amor eterno de corpo colado, coração pulsando na mesma frequência, de forma acelerada, os olhos marejados. Caralho, como eu amei. Agora doía lembrar, e doía mais saber que tudo que restou na história era um objeto. Nem minhas lembranças eu podia compartilhar com alguém porque nossa história não existia mais no tempo e no espaço. Só existia em mim, nos meus saudosos pensamentos que tanto me corriam. Mas eu me consolava dizendo que assim fora melhor, para mim, para ele, e para todos que se importavam com a gente. A forma a qual nos consumíamos e destruíamos não fazia bem a ninguém. Dois anos vivendo a sombra de algo fadado ao fracasso. Não tinha mais como sustentar. Diria ao destino, aos deuses, e a mim mesma que assim foi melhor.

  17 de outubro. Dois meses após nada mais existir. O vi. Na fila do pão. Ele estava sorridente, com ar iluminado, o mesmo ar que ele possuía antes de mim, antes da gente. Havia uma criança ao seu lado, e junto da criança uma mulher. A sua mulher. Lembrei da sua filha em minhas memórias, antes um bebê que gritava pela casa inteira, até doía meus ouvidos lembrar. Agora crescida. E cresceu perto do pai, da mãe. Ao mesmo tempo que quis ser altruísta e sorrir por eles, quis gritar desesperadamente para todo mundo me ouvir. Permaneci lá, não sei se por força ou fraqueza. Enquanto fazia o pedido seu olhar se esbarrou no meu. Me olhou de uma forma peculiar, provavelmente tentando lembrar de onde me conhecia, mas não o conseguiria.  Ele prendeu seu olhar em mim e senti seus olhos me percorrerem, até surpreendentemente parar nos meus pés. E olhou e sorriu docilmente. Fiquei sem entender o que havia ocorrido ali. Sua esposa o puxou. Eu desisti de fazer o pedido e voltei para casa. Olhando para o chão, para os meus pés. Mas que diabo, aquele sapato azul sempre diria algo a mais. Que ironia do destino. Tudo começar e acabar com um sapato azul.




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