Presságio






Esta é uma história noir.
   E como muitas outras histórias deste tipo, ela é completamente franca quanto a isto. Se um texto pudesse ser lido em preto e branco, este o seria.
   Esta é uma história noir, daquelas que começa no topo da página junto as cinzas de um cigarro e termina com um “Fim” escrito em letras cursivas ao lado de uma mancha de café.
   É uma história para ser apreciada ao som de um jazz suave no tardar da noite ao lado de uma boa garrafa de vinho.
   Mas mais do que tudo, esta é a história sobre um homem. Um homem não muito extraordinário e também não de um todo medíocre. Era apenas um homem que tentava continuar sendo o que era, com todas os perigos e tribulações que tal tarefa demandava. Era um homem que esperava um táxi na chuva forte, e, nessa chuva, encontrou outra coisa que o fez escorregar em seus próprios pés e espatifar no chão de concreto. Era um homem que encontrou a mulher dos seus sonhos.
   Era um homem prestes a descobrir que seus sonhos custariam caro.

***

Ela era perfeita.
   Era isso que qualquer marmanjo com meio culhão lhe diria se você perguntasse quem era aquela beldade que passava no meio da chuva como uma musa em um vestido de blues embaixo de um temporal digno das tragédias gregas que vivem no imemorial. Era o que eu te diria também.
   E já que, naquela fatídica rua, naquele fatídico dia de temporal éramos só eu e ela à procura de um táxi para casa, eu seria o único a te responder. Eu vestia apenas meu velho blazer marrom por cima da camiseta branca que usava quando servia bebidas no bar, indefeso perante a intempérie que assolava a cidade desde a noite anterior. Ela surgiu como um fantasma, vinda de lugar nenhum, logo assombrando cada canto da imaginação conhecido ao homem e tomando-o para si como se fosse um direito de nascença, pondo-se sob o mesmo guarda-chuva de luz contra o qual eu também me protegia da escuridão incessante e aterradora.
   Não demorou para que nossos olhares cruzassem e eu dissesse para mim mesmo:
   “Eu vou cair pra essa mulher.”
   Droga. Pode até ser que eu algum dia viesse a amá-la, mas o que eu tinha absoluta convicção é que eu cairia por ela. Não importa de que altura, não importa do alto de que edifício, eu iria querer cair por ela.
   É. Acho que é isso que todos os outros pensavam nessa hora também. Seus olhos não eram mais do que o caramelo caindo sobre a pele avelã, engolfando os outros sentidos e confirmando cada suposição que seu cérebro tenha criado. E o sorriso que ela deu não fez nada senão derreter todo o meu trem de pensamento em palavras incoerentes e expressões insuficientes.
   Ela se moveu para mais perto e eu pude ver que seu vestido não era, como eu havia assumido, feito com o azul da noite e as estrelas do céu, mas sim com seda e brilhantes e que seu casaco era de marca e não o sonho de algum artista na modelo ideal. Ela gostaria que nós dividíssemos o táxi, afinal, quem quer ser mesquinho num temporal desses? Por que outro motivo ela se aproximaria de mim? Eu era apenas um cara tentando sobreviver na selva de concreto, ela era uma amazona procurando quem matar na dita selva. O que nos unia ali era a conveniência e a necessidade, nada mais.
   Mas talvez esse “nada mais” fosse tudo que ela precisasse.
   Depois do que pareceu uma eternidade, um farol surgiu da escuridão na nossa esquerda e veio se aproximando numa velocidade constante, revelando um daqueles gloriosos veículos amarelos de faixas pretas com luzes no teto que anunciam a mais linda promessa: TÁXI.
   Nossas mãos se tocaram quando ambos tentamos abrir a porta. Eu olhei para ela e pedi desculpas. Ela me olhou e eu pude jurar que ela pedia por algo completamente diferente. No final, algum senso antiquado de cavalheirismo paternalista venceu e ela entrou enquanto eu segurava a porta.
   Éramos só nos dois, um taxista que não era de falar muito e uma estação de rádio que não era de falar pouco.
   Éramos só nós dois.
   - Obrigado.
   Não sei com quem ela falava, porque comigo não era. Não senhor. De jeito nenhum...
   - É, eu estou falando com você, bobo.
   Quando eu me viro, ela é ainda mais bonita do que eu havia visto por entre a chuva e a sombra. O pouco que vejo de seus dentes faz eu me perguntar se não há outro carro vindo pela esquerda, em uma rota de colisão que certamente fará de todos nós uma bola escaldante de carne e aço deslizando pela autoestrada. Alguma força  além do meu conhecimento me força a responder:
   - Oi.
   Ela me olha por um momento e ri.
   - É. Oi.
   - Então. – Eu limpo a garganta. Nunca fui bom em jogar papo fora. Pensando nisso, é por isso que eu não ganho boas gorjetas. – Obrigado por quê?
   - Por dividir esse táxi comigo. E por ter segurado a porta para eu entrar. Não são todos os caras que fazem mais isso.
   - Eu não... bem, teria sido idiota eu ter que esperar outro táxi vir, certo? – Ela olha para mim como se eu tivesse acabado de dizer algo engraçado – O quê? O que foi que eu disse?
   - Você não pensou em me deixar naquela chuva forte lá atrás nem por um minuto. Você é realmente uma coisa rara.
   - Bem, eu vou tentar levar isso como um elogio.
   - Como você deveria. Sou Ava, falando nisso.
   Falando nisso? Falando em quê?
   - Scott.
   - Bom, Scott, obrigado por ser duas vezes mais cavalheiro do que qualquer outro cara com quem eu cruzei hoje.
   Eu olhei para a mulher que estava sentada ao meu lado com uma expressão distante e me perguntei como qualquer cara conseguiria não ser um cavalheiro com ela. Era uma beleza que não admitia vulgaridades ou cantadas baratas. Era algo para ser apreciado em primeiro lugar.
   - Dia difícil?
   - Bota difícil nisso. Tive uma briga com meu namorado, fui demitida e estou quase certa de que fui despejada.
   Não importa quão pequenas fossem minhas chances com aquela mulher, a menção de outro cara na vida dela ainda partiu meu coração.
   - Puta merda... – Percebendo o que eu havia dito, completei: - Desculpe. – Ela se esforçou para não rir.
   - Você é um doce, cara.
   - Bem, eu acabei de descobrir que tenho uma reputação de perfeito cavalheiro a preservar.
   Os dois rimos enquanto o táxi nos levava pelas ruas sinuosas e acentuava cada buraco e respingo por que passávamos.
   - E o que você faz? Fazia, quero dizer.
   - Eu cantava naquela boate ao lado do rio, a Bleachers. Conhece?
   Pensei por um momento.
   - Aquela que sempre tem aquele grandalhão de gravata borboleta do lado de fora?
   - É, essa mesmo!
   - É, acho que os lugares que eu frequento tem um padrão um pouco menos elevados que os seus, senhora.
   - A é? E o que você faz, senhor humilde?
   - Eu sirvo bebidas em... bem, em um monte de lugares, para falar a verdade. Para quem estiver aberto quando eu preciso de dinheiro, precisamente.
   As linhas do rosto dela se contraíram. Eu percebi que toda a sua postura corporal havia mudado desde o início daquela viagem. Seus joelhos agora repousavam no banco de couro puído do táxi e apontavam diretamente para mim. Todo seu foco parecia estar direcionado a mim, por razões que ninguém poderia explicar.
   - Então... por que você precisava de dinheiro hoje?
   - Nossa, e logo quando a sua opinião sobre mim era tão boa. – Ela riu daquela forma que parecia fazer todo o resto do mundo brilhar um tantinho mais forte. – Se quer mesmo saber, meu senhorio me disse que se eu não pagasse o aluguel ainda essa semana ele iria chamar a polícia e me acusar de vadiagem.
   - Ele não disse isso!
   - Disse sim, senhora. – Ficava cada vez mais fácil conversar com ela, da maneira que fica mais fácil olhar para o Sol depois de um tempo. Também era um sinal de que eu provavelmente deveria parar de olhar. – Seu dia começou uma m... droga ou você pelo menos teve um bom café da manhã?
   - Hmpf. Quem dera, cara. Acordei com meu namorado me acusando de ter trepado com o dono da outro cara, depois tive que ir trabalhar sem nem me arrumar, cheguei e descobri que tinham contratado uma loira qualquer para me substituir naquela tarde e, chegando em casa, percebi que não tinha mais casa já que vivia com meu namorado e que os dois anos que passamos juntos significam menos do que uma gota de chuva a esse ponto.
   Ela olhou para mim com expectativa, me desafiando a achar algo de positivo naquela bagunça.
   - Porra. – Sem desculpas. – Se te faz sentir melhor, tinha uma formiga andando nas minhas panquecas hoje de manhã.
   Ela levou um momento para processar o que eu havia dito, levando as mãos ao estômago e soltando uma gargalhada que fez a cabeça careca do taxista aparecer pelo retrovisor, perguntando silenciosamente o que aquele cara deve ter dito para fazer uma moça daquelas rir daquele jeito.
   - Scott, por favor, me diga que você não é solteiro.
   - Uau, isso veio do nada. Sou, sim. Por que a pergunta?
   - É um crime não ter alguém para você entreter 24 horas por dia.
   Pensei um pouco em suas palavras, medindo inconscientemente o tempo médio de cada uma das minhas relações passadas, e, eliminando aquelas que só duravam uma noite, percebi que praticamente todas elas não duraram mais do que um ou dois meses no máximo.
   - Gostaria que você pudesse ter dito isso paras as minhas ex-namoradas.
   - Uou, desculpa. Assunto delicado?
   - Acho que nem tem assunto para ser delicado. Nunca fiquei com alguém para valer. Pelo menos não o suficiente para que doesse quando as coisas acabavam.
   - Sei como se sente. Fazia tempo que eu não ficava com alguém como eu fiquei com o Carlos. A gente, sei lá, a gente simplesmente funcionava juntos, sabe?
   Na verdade, não, eu não sabia. Mas não ia deixar que ela soubesse disso.
   - E o que aconteceu?
   - O que sempre acontece. As coisas acabam e você lida com elas de um jeito ou de outro.
   Pude ver que aquele sim era um assunto delicado.
   - Desculpe. Não queria me intrometer.
   - Está tudo bem. Eu ficaria decepcionada se você não quisesse. – A ponta de seus lábios se curvou num sorriso.
   O resto do trajeto foi percorrido sem demais interrupções além do eventual trovão que nos chacoalhava do estupor da estrada. A chuva não conseguindo atrapalhar meus pensamentos mais do que a presença aterradora de Ava bem ali, do meu lado. Era impressão minha ou nós estávamos mais próximos do que estávamos um quilômetro atrás? Acho que, nos minutos em que conversamos, alguma linha invisível fora ultrapassada. Uma linha sem retorno.
   Para bem ou para mal, aquela noite chegou ao fim abrupto quando o táxi parou na frente do edifício dilapidado que eu chamava de lar. Uma única luz incandescente projetava um halo contra a escuridão da noite, iluminando o número 59 que agora era o número 56. Eu paguei o taxista e olhei para Ava, esperando... não sei o que esperava ver naquele rosto, mas o que eu de fato encontrei nele me surpreendeu de verdade.
   Eu vi vergonha.
   - Ei, Scott.
   - Ei.
   - Seria pedir demais que você me deixasse dormir no seu sofá, pelo menos hoje à noite? Quer dizer, todas as minhas amigas vivem longe daqui e eu não vim carregando tanto dinheiro assim...
   Eu levei apenas um segundo para me perder na fantasia de ter aquela moça, aquela criatura selvagem, aquela deusa da noite dormindo sob o meu teto.
   - ... e eu também já dormi em lugares mais desconfortáveis que o chão, então se o sofá estiver ocupado...
   - Não! Quer dizer, não, o sofá não está ocupado... o que é bom, já que eu vou dormir nele e você pode usar a minha cama.
   Ela ergueu uma sobrancelha e eu respondi com um sorriso embaraçado:
   - Não posso perder essa fama de cavalheiro agora, posso?
   - Acho que você não perderia ela nem se tentasse, Scott.
   O caminho até a porta foi marcado apenas pela minha tentativa fútil de nos proteger da chuva usando o meu blazer. Depois disso, eu disse a ela que as luzes do corredor estavam para ser consertadas há pelo menos um mês e nós subimos as escadas devagar até o segundo andar. Num dos últimos degraus, eu vi um de seus pés pisar em falso em câmera lenta antes que eu impossivelmente a segurasse pela cintura e ela se firmasse no chão mais uma vez.
   Naqueles poucos segundos, vi sua expressão de surpresa e medo ser substituída por uma de alívio e... algo mais.
   Entramos no número 21 depois de um instante constrangedor no qual eu não consegui achar minhas chaves até finalmente aceitar que aquele pequeno gesto no lado de fora provavelmente jogou elas para fora do bolso do meu blazer. Pesquei as chaves reservas do alto do batente da porta e silenciosamente abençoei a precaução da época em que eu ainda tinha dinheiro para esse tipo de coisa.
   Meu apartamento era a imagem da simplicidade: um quarto, um banheiro, uma sala e uma mesa. Ava caminhou com cuidado por entre as pilhas de roupa suja, parecendo absorver cada detalhe, sem nenhum julgamento em seus olhos ao final de tudo.
   - Er... o meu quarto é no final do corredor. Você pode esperar lá enquanto eu pego um lençol para você. Pode usar o banheiro se quiser, ele fica do lado do quarto. – Eu apontei para o banheiro através da parede.
   - Está perfeito, Scott. Desculpe por todo esse incômodo...
   - Não diga isso. É bom praticar aquela boa ação de vez em quando, certo? Comprar a passagem para o céu e toda aquela coisa...
   - Eu não tinha te tomado por alguém religioso. Você é realmente cheio de surpresas, não é mesmo?
   - Não é bem assim. Meus pais me levaram para a igreja algumas vezes, mas depois que eu tinha idade para começar a duvidar eu e o cara lá de cima meio que nos afastamos. A gente ainda se fala, ou melhor, eu falo com ele, mas só quando realmente não tem ninguém mais com quem conversar. – De repente eu havia ficado curioso. – E você? Algum chamado espiritual que gostaria de compartilhar, irmã?
   Ela deu uma risada nervosa antes de responder:
   - Não mesmo. Se existe alguém aí em cima, ele não deve ligar muito pra mim e, sendo assim, eu tento não ligar muito para ele.
   Nenhum de nós se moveu por um bom tempo, até eu me lembrar que tinha que pegar um lençol do varal e ela se lembrar que estava cansada.
   Quando voltei com o lençol ela estava sentada na minha cama, observando as poucas fotos que adornavam a minha cabeceira. Ela me viu entrar e pareceu ter ficado meio sem graça.
   - Desculpa. Eu apareço aqui do nada e você me trata tão bem só para eu ficar dando uma de enxerida e... nossa, me desculpa mesmo.
   - Não se preocupa. Eu sou o cara que serve bebidas, lembra? Não é a primeira vez que eu me meto na vida dos outros.
   - Sério?
   - Bem, teve essa vez... – Eu pensei se devia ou não contar ou não essa história para ela. Por fim, decidi que era uma história boa o suficiente para ser mais engraçada do que trágica. – Um cara veio e começou a pedir uma dose de uísque atrás da outra, até que finalmente ele começa a contar para quem quiser ouvir como a mulher dele está na cama com o jardineiro, com o eletricista, com o padeiro...
   - Espera, qual deles?
   - Todos, segundo o cara. E no final ele olha para mim de todas as pessoas e pergunta: “O que eu devia fazer, cara?”. Eu, que não queria por nada nesse mundo ser parte daquela história, digo: “Seja um homem.” Eu confesso que eu meio que esperava que ele ficasse mais um pouco até que alguém finalmente ficasse puto e o colocasse para fora. Mas não, depois que eu disse isso ele ficou quieto por um tempo e então foi embora sem dizer nada.
   - E o que aconteceu?
   - Dia seguinte o pobre coitado me aparece com um olho roxo e me pede um copo de uísque sem mais uma palavra.
   Os olhos dela brilhavam curiosos.
   - Mas o que aconteceu com ele?
   - Só Deus sabe. Eu ainda tento entender o que aconteceu com ele. Minha melhor hipótese é que ele foi se entender com um dos amantes ou, Deus me livre, todos eles e deu tudo errado. Final anticlimático, eu sei, eu sei. Mas a moral continua forte na minha mente.
   - E qual é essa moral, Scott?
   - Não dê conselhos dos quais vai se arrepender.
   Nós desviamos o olhar um do outro até ela voltar o seu a mim.
   - Olha, eu ainda me sinto culpada por te expulsar da sua cama... não, me deixa terminar. – Ela faz um movimento para silenciar meus protestos. – Então, se você estiver OK, tenho certeza que podemos dividir a cama hoje à noite.
   Tive de resistir a vontade de limpar meus ouvidos. Essa noite ficava mais improvável a cada momento que passava.
   - Tem certeza?
   Seus olhos se curvaram como os de um filhote abandonado.
   - Prometo que não vou tentar me aproveitar de você.
   - Bem, se você tem certeza...
   Momentos depois, éramos nós dois debaixo do meu único lençol seco e limpo dando um “Boa noite” desengonçado um para o outro. Ava tinha colocado uma de minhas muitas camisas desbotadas e deixado seu vestido e casaco secando junto com o meu blazer no varal da área de serviço. Fingi não notar que ela não havia pedido uma peça de roupa de baixo, preferindo demonstrar interesse especial em meu relógio e lembrando de desligar o alarme. Sem chance de eu acordar antes do meio-dia, não senhor.
   Me peguei rememorando sobre os eventos que me conduziram até este momento no tempo e espaço. Havia uma certa aura onírica que rondava a coisa toda que ainda me escapava, como se a partir de um ponto específico essa noite houvesse se transformado em um sonho de alguém bem mais criativo do que eu. A presença em si de Ava no meu apartamento sujo e desarrumado já desafiava as convenções normais da lógica, mas a presença dela na minha cama? Isso já desafiava o reino da própria realidade.
   Foi no meio dessas divagações existencialistas que senti o cotovelo de Ava roçando nas minhas costas, lançando uma série de impulsos elétricos que despertou o meu cérebro para um estado de consciência completamente desperto.
   “Isso foi um erro, meu amigo.”
   Então, seus dedos roçaram nas minhas costas.
   “Um erro daqueles.”
   - Ei, Scott.
   - Oi.
   Silêncio. Eu nunca fui bom de jogar papo fora.
   - Me diga uma coisa.
   Seguro a minha respiração para o que quer que esteja vindo.
   - O quanto você gostaria de se aproveitar de mim?
   Eu me viro e de repente não há nada entre mim e a mulher dos meus sonhos. Nada senão uma minúscula distância que sou capaz de transpor no espaço de um único segundo. Eu a beijo como nunca havia beijado alguém antes, sinto seus lábios como nunca havia sentido os de alguém antes e logo percebo que eu havia acertado em cheio.
   Eu havia caído para essa mulher.

***

Click.
   Alarme idiota... podia jurar que já tinha desligado essa merda...
   Click.
   ... na noite passada. Noite passada... será que tudo aquilo realmente havia acontecido? Eu e Ava? Parecia ridículo demais até eu pensar nisso, mas a dor nos meus músculos me dizia algo diferente...
   - Hora de acordar, flor do dia.
   Porra. Abri os olhos e me deparei com um gigante sentado ao lado da minha cama. E eu realmente quero dizer gigante. O cara devia medir pelo menos 2 metros e se portava como uma marreta. Se vestia como um terno costurado justo sobre a pele e uma gravata borboleta violeta amarrada firmemente contra a garganta do sujeito. Seu rosto era coberto por cicatrizes e seu cabelo era longo e preso num rabo de cavalo que vinha até o pescoço. Seus olhos negros não entregavam uma emoção sequer.
   Me ergui de súbito e percebi que estava nu da cintura para cima. Foi aí que eu percebi a pistola que ele segurava. Enquanto eu olhava, ele engatilhou a arma e a pôs na minha cabeceira, a alguns centímetros de onde eu estava.
   - Bom, você está acordado. E quase vestido, olha só! Isso vai ser mais fácil desse jeito.
   Ele pôs a mão dentro do paletó, puxando um maço de cigarros e tirando um. Em seguida ele sacou um isqueiro prateado da calça e deu uma longa tragada.
   - Agora, que tal falarmos sobre uma garota?

FIM
DA PARTE 1





1 comentários:

  1. amando essa história que veio num momento profético da minha vida. por favor,continue!!

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