Neon I

by - terça-feira, abril 11, 2017




As nuvens de ácido sulfúrico atrás das barreiras de força pairavam sobre Dite como um carrasco esperando pelos condenados.
   A iluminação halógena funcionava apenas na parte alta da cidade, deixando a periferia em sombras durante aquele ano. A dificuldade de importar combustível da Terra durante aquela parte do ano tornava quase impossível a permanência das classes médias em Vênus.
   Girando em sentido contrário ao da Terra e com dias que duram mais que seus anos, Vênus era definitivamente um caso especialmente difícil no que se refere à colonização do sistema solar.
   “Aí está você.”
   Um homem encapuzado andava pela rua, quase camuflado pelas sombras dos edifícios, apenas visível pelo brilho nos olhos embaixo do capuz.
   Enquanto se aproximava, Cauldon deixou o capuz cair por sobre os ombros e tirou os óculos de visão noturna que usava desde que tirou os pés da Ily naquela manhã. Perto de onde ele estava, uma sombra pareceu se separar das outras, formando aos poucos a silhueta esguia de uma mulher usando uma máscara negra que cobria a maior parte de sua cabeça e deixava os cabelos avermelhados caírem por sobre os ombros
   “Demorou, Cal.” A voz que saiu da máscara era seguida por uma série de chiados e pequenos apitos.
   Alex nem se preocupou em tirá-la. Cauldon já havia se acostumado a encarar o rosto de vidro negro como se fosse a verdadeira cara de Alex, vendo suas emoções através dos pequenos olhos brancos que emulavam as emoções da pessoa por trás do capacete.
   “Nem todo mundo dorme tão bem quanto você, queridinha.”
   “Deve ser porque nem todo mundo tem a consciência tão limpa quanto a minha.”
   “Hm. Acho que eu sei de algumas pessoas que iriam discordar dessa afirmação.” Cauldon sorriu afetuosamente.
   “E eu duvido que alguma delas vá atestar isso.” Um dos olhos brancos rapidamente sumiu e voltou a brilhar.”
   “Esse é o lugar? Eles se viraram para o prédio do outro lado da rua. A fachada esburacada tanto por tiros de chumbo quanto de luz e coberta de lodo e fumo revelava um nome: O pregador furado.
   “É esse mesmo.” Alex fez um muxoxo de irritação. “Nunca vi um lugar mais sujo, e olha que fui eu que cresci nessa pocilga de cidade.”
   “Não, é? Quem é que viria parar num lugar desses?” Cauldon deu uma risada forçada.
   Alex olhou atentamente antes de suspirar e perguntar “Sério? Até aqui nesse fim de mundo tu já veio se embebedar?”
   “Fala sério, garota. Quando a vontade aparece qualquer lugar serve. Vai dizer que nunca teve que vomitar ao lado de um mendigo e pedir pra ele emprestar a grana do táxi?”
   “É tão decepcionante você não poder ver a cara de nojo que eu tô fazendo agora, Cal. Sinto te desapontar, mas acontece que eu tenho essa coisinha no meu peito que eu gosto de chamar de respeito próprio.”
   “Nah, quando você for mais velha vai sentir falta de falar das histórias ridículas que te aconteceram.”
   “Você não é tão velho assim.”
   Ela olhou para o Pregador furado e contou as saídas. Uma porta na frente e outra na parte de trás acompanhada junto a garagem, quatro janelas de frente, mais quatro na parte de trás, provavelmente fracas o suficiente para serem quebradas caso precisassem de uma rota de fuga inusitada. Assim como a maioria dos edifícios de Vênus, parecia ter sido construído no milênio passado e não ter recebido manutenção num período similar de tempo.
   “Isso aqui tá estranho. Não é o primeiro lugar em que eu olharia pra encontrar um terráqueo.”
   “Talvez seja por isso que ele esteja aqui.” Todo aquele negócio cheirava estranho para Cauldon, mas esses dias ele não podia se dar ao luxo de recusar um trabalho, especialmente um que pagasse tão bem quanto esse. “De qualquer jeito, a dica é sólida. Além do mais, qual foi a última vez que Mal nos passou a perna?”
   “Marlowe. O nome dela é Marlowe.” A antipatia entre aquelas duas era motivo de discussão entre os dois desde que a aristocrata fez o primeiro contato com os ladrões. “E qual foi a última vez que Marlowe nos contratou sem segundas intenções?”
   “Bom ponto. Mas a não ser que esteja disposta a fazer outro contrato como o de Yindel, nós meio que não temos escolha, garota.”
   Em Yindel, um entreposto comercial entre os planetas telúricos e os gigantes gasosos, eles haviam entrado em uma pequena confusão ao serem pegos no meio de uma festa particular entre as confederações de Júpiter e Saturno que dividiam o poder na região. O resultado dessa pequena desventura foram dois meses na prisão orbital em Plutão, a Estação de Correção If. Foi lá que a doação anônima de uma benfeitora pagou as contas com a justiça e reintroduziu Alex e Cauldon como membros reformados da sociedade interplanetária.
   Ela suspirou e deu de ombros, cruzando a rua. Cauldon foi atrás, prestando atenção na mochila que Alex carregava nas costas. O olhar distraído te diria que era uma mochila comum. O atento o faria prestar atenção no volume cilíndrico duplo posicionado na metade superior e a base circular dupla no fundo. Se passassem por uma blitz e acabassem com o guarda errado, aquilo ia dar uma bela confusão. O ar em Dite já era difícil de se reciclar com a Terra do outro lado do Sol sem malucos de jetpack voando de um lado para o outro.
   “Por que a mochila?”
   “Porque ela combina com meus olhos.” Ela piscou.

Ao passar pela porta, Cauldon teve de concordar com as observações de Alex: esse era o buraco mais escuro nesse lado do Sol. Ao lado disso, If parecia quase higiênica.
   O lugar era meio escavado na rocha vênuseana, dando ao espaço todo um ar de inacabado. O chão estava manchado por todo tipo de substâncias químicas, ao ponto do rodapé da rocha ter começado a erodir, dando lar para os ratos que infestavam a parte baixa. O cheiro azedo da nicotina artificial impregnava o ar.
   “Argh.” Cauldon fez uma careta para Alex “Odeio o cheiro dessa bosta estatal.”
   “Poupe o oxigênio, Cal”
   “Você sabe tão bem quanto eu que nada se iguala a uma boa e velha nicotina de verdade.”
   “Como você ia saber? Nunca provou uma dessas.”
   “Eu a provei nos meus sonhos.” Um sorriso atravessou sua cara rasgada.
   “Bom, se esse trabalho render tanto quanto a sua amiga disse, quem sabe? Talvez dê até pra você provar um pouca dessa tua bendita nicotina. Olha lá.” Ela apontou para a mesa mais afastada do balcão, ocupada por uma figura que tentava demais se misturar com o ambiente e falhava miseravelmente. “Só um terráqueo viria aqui com algo tão ridículo.”
   “Sabe” disse Cauldon enquanto os dois caminhavam em direção a figura, “Nunca entendi essa antipatia sua pela Mal. Ela já nos rendeu uma boa grana.”
   “Sei. Uma boa grana que uma dúzia de outras pessoas poderiam ter resolvido tão bem quanto nós.”
   “O que você quer dizer?”
   “Ela nos dá um bando de trabalhos que até uma criança brincando com um computador poderia ter feito e nos paga uma grana do caralho por eles. É estranho. Como se estivesse nos preparando para algo.”
   A figura os viu se aproximando e ergueu uma mão oculta por uma luva de cetim acima da capa que usava.
   “Dá pra me dizer por que diabos tu tá usando essa coisa?” Alex apontou para a capa do estranho.
   “O que, isso?” Sua voz parecia ficar mais grossa por baixo do capuz. “Isso aqui me deixou chegar vivo até aqui.”
   Alex não parecia impressionada.
   “Tá de sacanagem?” Ela segurou a barra da capa, traçada com padrões brilhantes e complicados em linhas de neon azul claro. “Faz ideia de quanta atenção essa coisa chama? Eu sei que vocês tem esse complexo de superioridade ou sei lá o quê, mas dá pra vir aqui sem se alardear feito um pavão?”
   “Eu não... eu não ...”
   “Só vocês terráqueos pra aparecer numa favela usando uma roupa que deve valer bem mais do que esse bar. Às vezes eu me pergunto se toda essa endogamia não acabou com os seus neurônios no último século.”
   Dava para ver que ninguém nunca falou com o terráqueo com tamanha insolência. Trax se perguntava quem essa espaçiadazinha era para ousar falar com tamanha insolência para com ele? Ele ficou sem palavras até avistar o jetpack que Alex portava.
   “Olha só quem fala? Quem é que traz um dispositivo de combustão em plenos Dias Distantes?”
   “Isso” Alex começou a tirar o capacete. Cauldon sempre dizia que ela tinha um apreço pelo drama. “é um plano B. Um risco calculado. Isso” apontando para a capa e se pousando o capacete com força na mesa, “é atenção desnecessária.”
   Os olhos da garota queimavam em vermelho vivo. Para Cauldon, coloração ocular na maioria das pessoas acabava transmitindo uma personalidade insegura mais do que rebelde, mas não em Alex. Se você a visse de perto, juraria que ela nasceu com aqueles olhos vermelhos e sem pupilas, parecendo com algum tipo de cria satânica vinda das profundezas do inferno. Seus cabelos castanhos eram mantidos numa selva cuidadosamente aparada e agora se agarravam a seu rosto devido ao suor causado pelo capacete. Na parte visível de seu pescoço, Jun, sua bio-tatuagem vermelha de dragão chinês espiava por cima do colarinho, gravando toda a conversa e a transmitindo ao vivo para a Ilíada.
   Alex arrastou a cadeira mais próxima, sobressaltando um minerador e derrubando seu copo vazio enquanto ela se sentava.
   “Vamos acabar logo com isso. Se alguém viu você vindo pra cá com isso, não temos muito tempo.”
   O terráqueo olhava de maneira preocupada de Alex para Cauldon, enquanto esse se sentava. Com um suspiro ele tirou um disco holográfico de dentro da capa e o colocou sobre a mesa.
   “Muito bem. Segundo o nosso contato mútuo, vocês poderiam me ajudar na reaquisição de um certo... item pelo qual me interesso.”
   Cauldon olhou preocupado para o terráqueo. Marlowe nunca antes os havia dado uma missão de recuperação física. Seus outros contratos sempre lidavam com a extração de dados de mineração por meio de servidores extraplanetários. Serviços simples e irrastreáveis, capazes de serem feitos direto do terminal da Ilíada. O máximo que já tiveram de fazer foi colocar uma escuta no escritório de um oficial jupiteriano que a pedido da milícia local. Tiveram de roubar um carregamento do serviço de manutenção de oxigênio e botar a escuta antes que o veículo roubado fosse associado ao que agora estava estacionado na porta da frente do major Vilanov do Grande Exército do Olho Vermelho.
   “Daqui a algumas semanas, haverá um leilão de... peças exóticas... em uma estação geo-orbital nestas coordenadas” o holograma na mesa exibia o conjunto de 18 dígitos que compunha uma coordenada espacial. “As coordenadas exatas estão obviamente protegidas por um código verbal que só eu conheço. O serviço, caso desejem aceitá-lo, será a retirada de um bem muito precioso desse leilão.”
   “E por que você não simplesmente compra esse tal ‘item exótico’? Porque pelo que dá pra ver você deve ter o dinheiro pra isso” Cauldon disse, apontando para as quatro faixas horizontais de neon que cruzavam a manga do antebraço do terráqueo.
   “Fala sério, Cal. Não é óbvio?” Alex sorriu. “O nosso amigo aqui está cansado de ter que pagar por seus brinquedos.”
   O terráqueo olhou para ele como se já esperasse por essa pergunta.
   “Bom, esse é o problema. Eu não estou atrás de algo que estará em leilão.”
   Alex e Cauldon se entreolharam.
   “Elabore.” Pediu a garota.
   “Há alguns dias atrás, eu recebi a informação de que um executivo de alto nível da Atlas-Ryder Corp. estará presente nesse evento. Ele estará realizando uma transação por baixo dos panos para vender uma grande quantidade de dados em informação para variadas partes interessadas.”
   “E a pergunta permanece: se já está à venda, por que precisa que a gente vá pegar?”
   “Porque o objetivo desse executivo é lucrar o máximo que puder vendendo apenas partes da informação completa que são, sozinhas, essencialmente inúteis. E no final, ele ainda vai ser o único com todas as partes, mantendo a confidencialidade da informação e lucrando trilhões de créditos no processo.”
   “E se essa informação vazasse? Ele não seria obrigado a vender os dados completos?” Cauldon perguntou.
   “Por favor, meu amigo. Estamos falando de empresas que venderiam metade de seus funcionários pela oferta certa. Se apenas uma parte do que esse cara estiver vendendo for comercializável, vai ter milhares de abutres só esperando para coletar suas partes. Para eles, as recompensas valem mais do que os riscos...”
   “Ok, então pelo que eu entendi,” Alex interrompeu. “o trabalho é entrar, roubar os arquivos debaixo do nariz desse cara, ou até mesmo sequestrá-lo, conseguir os arquivos e voltar pra você. Confere?”
   “Bem,” ele pigarreou “quase isso. O meu informante garantiu que todo o alto escalão da Atlas-Ryder está agora equipado com implantes neurais classe IV com capacidade de armazenamento de até 500 terabytes. Isso significa que muito provavelmente...”
   “...é aí que estarão os arquivos.” Alex começou a esfregar os olhos com a palma da mão. “Classe IV... protegida contra virtualmente qualquer tipo de invasão... conjunto próprio de processadores de metal uraniano...” Ela suspirou e olhou para baixo, tocando na lateral do pescoço. “Jun, chama o Vask.”
   O dragão em seu pescoço se enrolou em sentido anti-horário, passando pela cara de Alex até se aninhar em sua orelha esquerda e começar a piscar suavemente.
   O terráqueo olhava de Alex para Cauldon, intrigado.
   “Achei que bio-tatuagens ainda estavam em estágio de testes por pelo menos mais quatro anos. Como conseguiram?”
   “Conhecemos um cara.” Disse simplesmente Cauldon com seu característico meio sorriso.
   “Ouviu isso, V? Pode mandar.” Alex olhou atentamente para seu pulso. “Sim, sim, eu digo que você mandou um oi.” Com um rápido movimento ela pegou o disco holográfico antes que o terráqueo sequer tivesse tempo de perceber o que acontecia.
   “Ei! O que você acha que tá...”
   “Vask mandou você ir se foder por não ter consertado os exaustores da Ily da última vez que passamos por Veneza.” Disse a garota para Cauldon.
   “Diz pra ele que se ele quer a droga do exaustor consertado, vai ter que pagar do próprio bolso. As coisas já são difíceis o bastante como estão.”
   Entre isso e os sons exasperados que o terráqueo fazia, Alex virou o antebraço em direção ao disco e de lá eles ouviram a mesma voz que saía debaixo do capuz, só que limpa de qualquer ruído, repetindo uma sequência de frases rápidas e desconexas.
   “Elas não vão ficar mais fáceis quando nós derretermos no caminho pro banheiro, Cal.”
   “Eu sei, eu sei...”
   O disco finalmente respondeu a uma frase e as coordenadas foram rearranjadas.
   “Tá vendo isso, V?”
   O terráqueo olhava consternado para o disco holográfico.
   “Mas... não é... não é possível! Como você...?”
   Alex apontou vagamente para o capacete que tirara e que ainda estava sobre a mesa.
   “Você fala demais, cara. O capacete tá ligado a um microfone de alta frequência.” Ela fez uma careta. “Roda isso de novo, Vask. Não ligo, não pode ser verdade. Não tem como ser verdade...”
   “Mas mesmo assim, como sabiam qual era a frase código?”
   “Deixa eu adivinhar: Bíblia?” o terráqueo ficou confuso mas logo acenou positivamente “É, sempre é a droga da Bíblia. Não sei o que tanto os ladrões terráqueos tem entre eles e Deus, viu.” Ele olhou preocupado para Alex: “Fala comigo garota. O que ele tá vendo?”
   Alex olhou longa e demoradamente para o terráqueo, e então sacou sua pistola de energia e se levantou, chutando a cadeira para longe. Os poucos conscientes que estavam no bar perderam o interesse ao avistar a arma que a garota portava e correram para a saída. Cauldon se pôs ao seu lado, erguendo sua braçadeira cinética em direção ao terráqueo.
   “Seu filho de uma puta.” Seu olhar vermelho era de puro ódio e choque. “Você quer nos mandar para morrer.”
   “O quê?” Cauldon não sabia do que ela estava falando, mas a conhecia o suficiente para saber que ela não brincava com as palavras.
   Ela ergueu o antebraço e o mostrou a Cauldon. Em azul metálico, uma forma cilíndrica massiva se estendia em toda a extensão do dispositivo, afunilando-se na base e com duas protuberâncias diametralmente opostas no topo. Cauldon não podia acreditar no que estava vendo.
   “Janus? Você quer que a gente vá pra Janus?”
  O terráqueo ficou parado, preparando-se para fugir ao menor sinal de que o acordo fosse pelo pior caminho. Os outros bêbados que ainda não haviam fugido quando Alex chutou a cadeira fugiram à menção daquele nome. O barman esticou a mão para baixo do balcão e segurou a ponta da escopeta de íon, espremendo os olhos para cima dos três baderneiros que vieram fazer confusão no seu bar.
   Com o canto do olho, Alex viu o movimento do barman e olhou para o terráqueo. Ela temeu que ele fugisse antes que ela pudesse detê-lo e abaixou a arma. Após um momento, Cauldon fez o mesmo enquanto Alex levantou a cadeira e se sentou apontando a arma discretamente por baixo da mesa.
   “Me dê uma só razão pra gente não sair daqui agora.”
   O terráqueo olhava desesperadamente para a porta, já imaginando que iria se arrepender de não ter fugido antes.
   “Olha, eu não sei como vocês fizeram isso, mas o fato é que todas as outras pessoas que eu entrevistei para esse ‘trabalho’ simplesmente me deram as costas no momento que eu mencionava Janus!”
   “Por uma porra de um bom motivo, seu maluco! Ninguém entra ou sai de Janus sem ser convidado. Então ao invés disso você tenta nos enganar antes que a gente perceba que tá indo pra porra de uma armadilha, é isso?”
   “Não, não é!” Ele parecia genuinamente aterrorizado agora. “Escute, eu tenho uma maneira de entrar em Janus durante o evento! Eu sei que vocês não têm nenhum motivo para confiar em mim, mas é verdade.”
   Alex olhava pensativa para o terráqueo, já imaginando que iria se arrepender de não ter atirado nele antes.
   “Ok, você tem como botar a gente dentro. Parabéns, caralho. Só quero saber como é que nós vamos sair de lá, porra!”
   “Ora, mas é para isso que eu estou contratando vocês! Será que eu tenho de pensar em tudo...?”
   Isso foi a gota d’água para Alex. Ela se levantou e apontou a arma para o barman e disparou um tiro de concussão. O homem bateu pesadamente contra a prateleira, derrubando uma ou duas garrafas enquanto desabava no chão poeirento.
   Alex se virou para o terráqueo aturdido e visivelmente mudou o modo de disparo enquanto apontava a arma para ele.
   “Cansei desse seu papo de intitulado, sacou? Agora, pra você pode até parecer um passeio no parque entrar na estação orbital mais bem guardada do Sistema e roubar uns dados e sair como se nada tivesse acontecido. Romântico, até, sei lá. Só que pra NÓS essa porra é vida ou morte, se ligou? As coisas vão dar errado não importa como nós fizermos isso e essa sua preciosa grana não vai nos salvar.”
   Ela agora apoiava a arma casualmente contra a virilha do terráqueo.
   “Então agora diz pra garota que tem a sua preciosa linhagem na palma na mão: como é que gente vai sair dessa merda?”
   Cauldon olhava preocupado para o barman. Esse seria provavelmente o quinto bar de Dite que os expulsaria perpetuamente. Ele amava aquela garota, mas deuses, ela sabia ser um pé no saco quando ficava irritada.
   O terráqueo puxou coma as mãos trêmulas três discos holográficos menores do bolso interno da capa e os deu para Cauldon, ainda assustado demais para olhar Alex nos olhos.
   “Aí estão três convites para o... para o leilão que acontecerá no dia em questão e...”
   “Cauldon” a garota não tirava os olhos dele. “Manda isso aí pro Jask e pede pra ele confirmar se são verdadeiros. Ei,” ela pressionou o cano da arma ainda mais contra a virilha do terráqueo “que tal olhar pra garota com a arma apontada pras suas bolas?
   E finalmente, o terráqueo olhou, e o que ele viu o deixou ainda mais aterrorizado. Alex tinha um sorriso travesso, quase que diabólico, estampado de orelha a orelha no rosto pálido.
   “Você sabe qual o nome do tal executivo?”
   “O-o quê?”
   “O nome do executivo que vai estará com os arquivos.”
   “Bem eu... eu estava esperando contratar alguém antes, mas... sim, eu tenho alguém que está disposto a me dar essa informação. Posso contatá-la em alguns dias para que...”
   “Você tem algumas horas, no máximo.” disse Alex, colocando o capacete e olhando para a porta do bar e depois para Cauldon “Jun disse que tem companhia vindo da Leste com a 43.”
   Cauldon olhou preocupado para a porta. “Então espero que você tenha um plano de fuga realmente do caralho.” 
   Alex olhou pressionou a orelha de Jun em sua garganta e disse “Sequência de fuga. Código 0-0-9”
   Os ladrões e o terráqueo sentiram antes de ouvir o estrondo que se seguiu. Vênus era um planeta poeirento já por natureza, mas naquele momento parecia que pelo menos metade daquela poeira havia ganhado vida e começado a lutar contra seus superiores. A súbita explosão de dois condomínios residenciais recém completados era tudo que se conseguia ouvir nos canais de notícias planetários. A polícia não tinha respostas, além da explosão de uma tubulação de gás que entrou em contato com um maçarico de íons ativo. Alex bem sabia que na verdade o que acabara de acontecer foi uma explosão de bombas de combustível reduzido colocadas estrategicamente entre os dois edifícios.
   O terráqueo olhava aterrorizado para Alex. “O que... o que você fez?”
   “Acabei de garantir que a maior construtora de Vênus vai ganhar mais umas centenas de investidores descontentes e uma investigação nos próximos três meses. Não é muito, mas é o que dá pra hoje.” Alex olhou para Cauldon e sinalizou a porta antes de se virar uma última vez para o terráqueo. “Lembre-se: o nome o cara que a gente vai dar o pé. Rápido”
   O terráqueo se levantou, as pernas ainda bambas de tanto susto. “Isso quer dizer que vocês aceitam o serviço?”
   Do pé da porta e olhando para o lado a procura de policiais, Alex gritou: “Significa que o trabalho vai ser feito. De um jeito ou de outro” Ela recolocou o capacete.

“Sabe” Cauldon olhava para as sirenes policiais que se aproximavam através da névoa de poeira. “algum dia, eu gostaria que você contasse seus planos pra mim antes de botá-los em ação.”
   “Mas, Cauldon” ela colocou a pistola de energia embaixo do pulso e parou de correr enquanto os policiais não podiam vê-los. “ver o olhar o seu rosto é metade da razão deu bolar tais planos, meu bom amigo.”
   “Hmpf. Sei. E qual é a outra metade?”
   “Explodir merda até o céu, claro.
   O carro passou por eles e parou, chiando, meio metro acima do chão enquanto dois policiais de uniforme verde saltavam e destravavam seus cassetetes cinéticos dos cintos.
   “E o que os dois meia-vidas acham que estão fazendo aqui?”
   “Seu guarda” Cauldon havia mudado completamente de trejeitos, curvando as costas e olhando rapidamente do chão para o guarda. Alex havia se silenciado e seu capacete não emitia nenhuma emoção. “a gente ouviu esse barulhão e resolveu que tava na hora de voltar pra casa. Tinha uns dois demônios fazendo confusão no Furado, senhor.”
   “Furado? Você tá falando do Pregador furado, velho?”
   “Eu não sei fala isso aí direito, seu guarda.”
   O guarda riu. “Muito bem, velho. Pode seguir caminho. Espera aí. Quem é essa?” ele apontou o cassetete para Alex.
   “Essa aí é minha sobrinha, seu guarda. Ela caiu um num tanque de ácido quando era moleca, ninguém nunca mais quis olhar pra cara dela, coitadinha...”
   O segundo guarda olhou para o primeiro e deu de ombros. “Eu não preciso olhar na cara dela, cara. Você?”
   “Que droga, garoto.” Cauldon voltou à sua pose confiante e experiente de sempre. “Vocês poderiam ter passado fácil.”
   “Com quem você acha que tá...” Alex agarrou a ponta do cassetete, aguentando a carga e quebrando o processador cinético enquanto acertava em cheio o capacete do policial, quebrando o visor eletrônico e acabando com a proteção contra poeira.
   Enquanto o primeiro guarda tentava evitar que a poeira entrasse em seus olhos, Alex já partiu para o segundo, esquivando de uma estocada com o cassetete e focando seus socos no lado esquerdo dele, colocando-o entre ela e o primeiro guarda.
   “Garota!”
   Alex se jogou no chão enquanto a braçadeira cinética de Cauldon emitia um pulso que jogou o segundo guarda para cima do primeiro e fez os dois desaparecerem na nuvem de poeira que englobava a maior parte de Dite no momento.
   “Desculpa se eu estraguei o seu estilo, mas nós realmente temos que sumir daqui.” Ele apontou para o barulho das sirenes que cruzavam a cidade.
   “Tem razão.” Ela ajustou a velocidade do jetpack para detonação mínima e olhou para o prédio na frente deles. “Se formos, rápidos, vão achar que é só mais um foco de incêndio passageiro.”
   Cauldon a abraçou pela cintura e se esforçou para não se sentir ridículo demais ao lado da garota que era mais do que algumas décadas mais nova do que ele.
   “Vamos logo, Cal. Temos um roubo impossível pra planejar.” Ela disse, detonando o ­jetpack.




Leia Também

0 comentários