Paulo (ou Como me lembrei de te esquecer)

by - domingo, fevereiro 26, 2017




Qual é a história do suicida?
   Não só de um suicida. Quer dizer, também dele, mas também de todos os outros. E só para facilitar, não vamos diferenciar aqueles que pulam de pontes daqueles que engolem um pote de pílulas daqueles que se trancam na garagem com o carro ligado. Vamos fingir só por um momento que todos eles são a mesma pessoa. Eu sei que é difícil, mas eu juro que é só por um momento.
   Por onde você começaria a contar a história dessa pessoa? A primeira maneira é a mais simples e óbvia: pelo começo, certo? Mas isso não é justo, não mesmo. Não é justo contar a história de uma pessoa e não dizer logo de cara que não, não há final feliz à vista. Quer saber, vou chamar esse suicida mágico e genérico de Paulo. Só para não ter de digitar “suicida” ou “essa pessoa” cada vez que me referir ao suicida mágico e genérico que acabamos de inventar. Só um merda sem coração iria se referir assim a alguém.
   Então, sobre o que falávamos? Certo, não é justo começar a contar a história de alguém que obviamente não acaba bem no final. Então comecemos pelo fato óbvio: Paulo era um suicida. Bem, odeio ter que cortar o seu barato aqui também, mas isso também é errado. O quê, você acha que é justo reduzir a vida do Paulo a um único momento? Ou a de qualquer pessoa, já que entramos nesse assunto? Porque você sabe que quando iniciar uma conversa com: “Você lembra do Paulo, do RH? Pois é, ele se suicidou. Eu sei, né, que coisa...” a única coisa que vai ficar na cabeça das pessoas é “..., ele se suicidou.”. É mesquinho, desrespeitoso e, francamente, o que mais acontece quando ouço falar do Paulo.
   Se já retiramos tanto o começo quanto o final da equação da vida de Paulo, só nos resta o meio. Aqui nos deparamos com outro dilema: por onde começamos? Pelas coisas boas? Por todas as risadas que ele deu, pelos momentos que fizeram a vida valer minimamente a pena, pelo primeiro beijo, pelo dia do seu casamento, por cada sorriso que sua mãe lhe deu e por cada um que ele devolveu? Pelas coisas ruins, então? Por cada uma daquelas coisinhas que vão se acumulando, como lixo, no sótão de sua vida, por tudo aquilo que o sufocava no momento em que ele sequer pensava, por toda a falsidade que praticava e o consumia e no final fez a vida parecer, na melhor das hipóteses, impossível?
   Pensando em toda essa dificuldade, já considerei não falar do Paulo. Tipo, nunca mais. Mas não acho que dê para fazer isso. Não de verdade. Ele ainda está lá. Para todo lugar que eu olhe, há um pequeno fantasma dele me encarando de volta. O cubículo vazio em que ele trabalhava, a caneca que ninguém teve vontade de jogar fora, os papéis que por enquanto estão vagando sem dono pelo escritório. O canto em que nós costumávamos pegar o metrô juntos e onde ele finalmente me chamou para sair num dia especialmente chuvoso e lotado. A escova de dentes que agora acumula poeira no meu apartamento, as meias embaixo da cama que eu sempre pedia para ele colocar na gaveta, os livros que ele me recomendava e eu sempre dizia que não tinha tempo para ler, o espaço do outro lado da cama que eu me recuso veementemente a tocar. Sinto a presença dele em tudo que me faz falta.
   Sim, pois é, então... não, não dá para não falar no Paulo. Acredite, eu tentei. Se qualquer critério que escolhi me leva de volta à essa dor, cheguei à conclusão de que a única alternativa é simplesmente começar pela parte mais interessante. Pode não ser a parte mais feliz ou a mais triste, nem a maior ou a menor, mas se tudo que restou dele é a história que estou prestes a contar, que ela seja no mínimo isso: interessante. Faz sentido, não faz? Droga. Continuo a falar como se você fosse me responder. Em retrospecto, gostaria de ter perguntado isso a ele. Seria mais fácil do que ser juiz, júri e executor da história de sua vida.
   E como é difícil demais ter de escolher entre o que é interessante ou não, resolvi contar aquilo que não é nem factual nem imaginação. As histórias “baseadas em fatos reais”. Aquelas que todo mundo conta sem perceber e que eu tenho de me esforçar para fazer parecerem reais. As histórias que eu gostava de contar para mim mesma. O que eu imaginei que ele imaginava. Daqui em diante, tudo que foi da vida dele é o que eu digo que foi. Por que ninguém nunca acreditaria em mim se eu dissesse o quanto eu o odeio por ter me deixado aqui, sozinha e confusa, cercada por pessoas que provavelmente nunca vão entender o que exatamente é se sentir tão inútil e morta quanto eu me sinto hoje.
   Eu já tentei escrever tantas vezes algo importante e simbólico sobre ter de escrever sobre o Paulo, tentando fazer com que tudo isso signifique algo no final, fingindo que isso é algum tipo de honra maior que ele me concedeu, mas quer saber a verdade? Quer mesmo?

   Paulo era uma porra de um suicida.



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