O Festim



 Imagem: depositphotos

-Batata quente,quente,quente...queimou!
Camila vibrou dando piruetas pela sala,enquanto Bob Esponja se envolvia em outra confusão no aparelho de TV .
-isso não valeu,Cam!-retrucou Adam.
-Hey,maninho! Para de ser um bebezinho birrento!
No seu ânimo irritadiço, Adam se isolou com os braços cruzados e se concentrou nas peripécias do desenho animado.
Observando o bico característico do menino, Camila propôs uma resolução para o impasse:
-Adam! 
O garoto fingiu não estar ouvindo.
-Adam!
Ele assobiou em total descaso.
-Adaaaaammmm!
Desde o berço, ele não suportava gritos. As freqüências faziam um estardalhaço em suas veias e condenava suas têmporas. Necessitava cerrar os olhos num transe meditativo e contar até o número vinte.
Quando o seu estado voltou ao terreno do aparentemente normal, o garoto respondeu com a mais ambiciosa calmaria:
-Pode falar, irmãzinha!
Esse golpe sempre deixava Camila sem armas, forçando-a corresponder ao jogo reduzindo a voz e se tornando dócil. 
-Adam! Vamos jogar mais uma vez?
Pensativo, olhou para a descascada parede e rapidamente encarou Lula Molusco. Após a pausa mental soltou:
-Sim,Camila! Mas antes eu proponho um pouco de arte. E um pequeno lanchinho. O que acha?



César abriu o portão da garagem com o controle. Seu terno suado e a mente ativa e lotada de turbilhões do escritório. 
Banho. Jantar. Um beijo na esposa. Pausa para brincar com as crianças.  Temporada final do seriado investigativo. Caricias. Uma louca transa. E finalmente o sono tão almejado.
Adentrou a casa pela porta da cozinha. Repousou as chaves desgastadas na mesa. Vasculhou as panelas. Nada para o jantar e uma pilha gigante de loucas do almoço. O som da televisão penetrava seus ouvidos, reverberando as falas de um seriado com crianças detetives.
Ele estranhou a imundície da cozinha. Marta deveria estar com cólica, quando estava naqueles dias nem saía da cama. Pensou em encomendar qualquer porcaria para acalmar o estômago. 
Seus sapatos o carregaram até a grotesca cena.
-Batata quente, quente, quente...queimou!
As crianças haviam pintado a sala de escarlate. Sangue em cada minúsculo ponto do ambiente. 
Camila jogara o brinquedo com força o deixando rolar próximo ao pai.
Era a cabeça com os olhos esbugalhados e boca macabra. Marta tornara-se uma cabeça.
Com a bile tentando explodir, Cesar tentou se segurar. A pintura vinha da morte de sua mulher.
Um sofrido choro aprisionou-se em seu âmago.  Com o pisar desfalcado, lançou-se  na direção dos filhos. Desejava ser Édipo agora.
Toneladas de gritos na alcova pairavam em sua cabeça naquele momento. Sentia o desfalecimento de cada membro. Aquela ausência de forças contagiava sua condição. 
No martírio encarou Adam com a boca lambuzada e os dedos vivos em vermelho.  Ele fitou o pai e lambeu o delicioso suco em suas mãos. 
-Papai! Vem jantar!
Camila abriu uma vaga ao seu lado intimando Cesar:
-Vem papai! Ta bem fresquinha. Acabamos de cortar.
A incapacidade de reflexões fisgou suas entranhas e o paralisou. Cesar se sentou ao lado da filha enroscando seus braços ao redor dela.
A menina separou um prato fundo e talheres. Jogou pitadas de sal e entregou ao pai.
Era o coração de Marta!

Morphine Epiphany

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