Receptáculo do Mal

by - quinta-feira, outubro 20, 2016





I

 Logan Filth abriu os olhos e se arrependeu no mesmo instante. A cabeça doía insuportavelmente como se tivesse uma rocha sobre ela, mal conseguia se mexer com os músculos que pareciam travados, erguendo o corpo com dificuldade, percebeu que havia dormido em uma cadeira na cozinha, curvado sobre o tampo de vidro da mesa. As costas e o pescoço rígidos, as pernas dormentes, uma poça de saliva molhava a manga comprida da camisa social azul amarrotada e na mesa, tudo no apartamento estava uma bagunça como se, enquanto ele dormia, um tornado tivesse passado por ali.
 Forçando o corpo a se mover entre as roupas jogadas e móveis derrubados, ele arrastou-se até o quarto e desligou o despertador que gritava pela casa aumentando ainda mais sua cabeça insuportavelmente doída. Conteve a vontade de atirar o aparelho na parede imaginando o barulho que aquilo provocaria e que iria piorar ainda mais a situação. Desconcertado e sem lembrar de nada que acontecera no dia anterior, Logan foi se despindo pelo quarto até entrar embaixo do chuveiro, percebeu que o box estava enxuto, sinal que ele não tomara banho ontem, mas havia roupas no cesto de roupa suja.
 Fechou os olhos enquanto a água quente caía sobre seu corpo, por mais que tentasse tudo na sua mente era preenchido por um grande vácuo, não conseguia lembrar como chegara em casa, para onde fora antes disso e, pior, se havia ido trabalhar. Não podia estar de ressaca em plena quarta-feira! Tinha muitos defeitos, sabia, mas não era irresponsável, mesmo que odiasse seu trabalho tinha consciência de que precisava dele para se manter e dar a pensão da sua filha Alliah. Passou as mãos molhadas pelo rosto sufocando um grito de frustração, a cabeça doía de tal modo que acreditava que até mesmo o som da sua própria voz seria insuportável de ouvir.
 A água quente não resolveu de todo o problema dos seus músculos, mas aliviou um pouco a tensão, de modo que, quando saiu do box, Logan conseguia andar menos travado. Abriu o armário do banheiro e tirou três analgésicos que engoliu com um pouco de água da torneira, prendendo a toalha na cintura, foi até o closet procurar um terno que não estivesse amassado implorando mentalmente para que o remédio fizesse efeito. Logan trabalhava em um escritório de publicidade, não importava para onde fosse sempre havia barulho, pessoas conversando entre si ou ao telefone, passos agitados, chefes berrando nomes de funcionários, se sua cabeça não se acalmasse trabalhar àquele dia — e aturar o insuportável colega de mesa, Mason, enchendo-lhe de perguntas — seria pior que qualquer pesadelo que ele já tivera.
 Colocou um terno básico e certificou-se que não havia esquecido nada, trancou a porta do apartamento e pegou o elevador apertando o botão do térreo. Não fazia um calor insuportável, ainda assim, Logan podia sentir as gotículas de suor se formando em sua testa e nuca, a enorme lacuna na sua mente começava a preocupa-lo, mas se tudo aquilo fosse realmente ressaca — provavelmente de vinho, a pior delas — passaria depois de um café bem forte e sem açúcar, pelo menos foi o que ele disse a si mesmo tentando se convencer de que estava tudo bem e que a sensação de gelo que subia pela sua espinha dorsal era apenas coisa da sua cabeça.
 Logan cumprimentou o porteiro e ganhou a rua, na esquina havia uma cafeteria onde, todas as manhãs, comprava seu café enquanto rumava para o trabalho no centro da cidade. Parecia um dia ordinariamente comum, pessoas transitando de um lado para outro, pais levando os filhos para escola, adolescentes com seus skates voando pelas calçadas, empresários com seus vidros escuros chamando atenção na avenida. Desceu do carro e entrou na cafeteria, a atendente, Lizie Gregori, nem precisava mais perguntar o que ele queria, apenas cumprimentava-o com um sorriso enquanto aprontava seu pedido.
 — Aqui está, senhor Filth — Disse ela com um sorriso e sua voz soprano — forte, preto e sem açúcar com sete rosquinhas recheadas.
 — Obrigado, Liz. — Respondeu ele dando-lhe quarenta dólares.
 Ele sempre saía antes que ela pudesse lhe dar os vinte e sete dólares de troco, então nem tentava mais chama-lo, pois sabia que era inútil. Logan não se importava em deixar tudo aquilo para a menina, considerava-o sua boa ação do dia. Na primeira vez que o fizera, Lizie insistira em lhe devolver a quantia, mas ele persuadiu-a a ficar com o dinheiro, dizendo que se sentiria ofendido se ela o devolvesse. Entrando novamente no carro enquanto dava um gole no café forte, Loga seguiu para Intercorp Communications, ainda tinha vinte minutos de tolerância, esperava que seu chefe, Arnold Fitzgerald, estivesse de bom humor, do contrário sua cabeça latejante teria de ouvir um longo discurso sobre comprometimento e funcionamento da empresa.
 O prédio da Intercorp se avolumou diante dele quando saiu do carro. Era um prédio comprido coberto de janelas espelhadas que refletiam a luz do sol brilhantes e escuras, olhar para o topo causava tontura daquele ponto da calçada, lá em cima, em seus pequenos intervalos de almoço, Logan gostava de olhar a decadente cidade enquanto fumava seu cigarro. Estranhou Donald, o porteiro, não estar ali para lhe dar o bom dia habitual, empurrou as pesadas portas de vidro fumê à prova de balas e seguiu pelo saguão onde Elizabeth também não estava trabalhando como recepcionista. Olhando o relógio de pulso e vendo que já eram nove e meia, Logan começou a sentir uma inquietude dominá-lo.
 Apertou o botão do elevador e entrou notando o silêncio sepulcral que pairava no lugar, a insistência em se lembrar do dia anterior começava a frustrá-lo, não sabia se tinha visto os colegas de trabalho algumas horas antes, não lembrava-se de nada. Pareceu uma eternidade até o elevador alcançar o nonagésimo andar, as portas se abriram e, de início, se Logan percebeu que havia algo errado agora diante do silêncio completo do corredor teve certeza. Àquela altura já era para estar ouvindo o som de máquinas copiadoras e conversas gritadas, mas não ouvia nada. Ele abriu a porta com o identificador digital e seus olhos não estavam preparados para a cena que viria a seguir.
 As portas duplas automáticas de metal se abriram, o piso de cerâmica branca estava escorregadio e ele quase caiu quando olhou para o chão e viu que o líquido que se espalhava por ali era rubro e viscoso. Sangue. Um enjoo dominou-o, o cheiro na sala era forte, sal e ferro, deu alguns passos no chão pegajoso quando viu todos os seus colegas de trabalhos em seus lugares habituais, com a diferença de que todos — sem exceção — estavam mortos. A bagunça de sangue se espalhava por todos os lugares, debruçados sobre suas mesas, alguns deles mostravam cortes profundos na garganta, o sangue empoçava as mesas pingando em grossas gotas no chão, mais ao fundo havia alguns caídos sentados próximos das paredes, onde um rastro de sangue mostrava que escorregaram até atingir aquela posição, jatos do líquido estava borrifados na parede de vidro da sala do seu chefe.
 Logan vomitou. Atordoado, deu alguns passos para trás encostando-se nas portas automáticas, a identificação era digital, como alguém poderia ter entrado ali? E a pior parte é que ele não lembrava de nada que havia acontecido no dia anterior. Deveria chamar a polícia? Como ia explicar sua amnésia? Não tinha álibis, nada. Mas vomitara na cena do crime, logo, quando os peritos chegassem ali saberiam que ele esteve no local. Meneou a cabeça e deu meia volta, ar, precisava de ar. Com o corpo trêmulo ele se empurrou para fora no corredor onde o dedo tentava alcançar e pressionar o botão do elevador. Tinha de sair dali.

 Se ele não lembrava de nada que acontecera no dia anterior, também era um suspeito do assassinato.


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