Aokigahara







Criaturas previsíveis, flores de carniça
Crescendo de crimes recorrentes
O crepúsculo florescente
Lentas e implacáveis, seguimos você
Se agarre a essa dor
Do amor arrancado -
A peste
(Agarre, agarre, se agarre)

 - Chelsea Wolfe, “Carrion Flowers”


As últimas badaladas de uma hora morta soam pela floresta fechada e escura, percorrendo pacientemente o caminho entre o mais alto pinheiro e a mais baixa flor.
 Ela corre. Corre como se tivesse o inferno atrás das costas.
 Bate nos troncos e escorrega pesadamente na lama, mas não para de correr. Ela sabe que ele está ali, em algum lugar, só esperando para que ela pare de correr.
 Atrás de um arbusto? De uma árvore? Sob as folhas espalhadas no chão? Ou logo atrás dela?
 Ela para e gira os calcanhares.
 E lá está.
 Ela segue junto ao riacho que corta a floresta, não se arriscando mais a olhar para trás.
 Uma mão em seu ombro...
 Ela pula dentro do riacho.
 ...e a outra no pescoço.
 A gelidez da água subitamente corta tudo. Sua testa sangra e suas extremidades adormecem, o calor rapidamente deixa o seu corpo.
 A mão continua se aproximando

A cabana é escura, feia e abandonada, até onde eu pude notar. Um rasgo na minha perna, feito pelo vidro quebrado da janela que eu usei para entrar se junta ao corte na minha testa e me faz sentir como uma coisa estragada e cuspida.
 Estou encolhida num canto do que parece ser a cozinha, tentando não pensar na dor na perna, no frio de cortar a pele e no sangue que tapa minha visão.
 Em alguns momentos, vejo meu pai entrando pela porta, minha mãe logo atrás, vindo reclamar das notas da faculdade, de eu quase nunca sair do quarto, do tempo que passo sem fazer nada... Em outros, vejo meu namorado, falando que as outras garotas são mais abertas do que, mais simpáticas do que eu, mais felizes do que eu...
 Nenhum deles ouve minha resposta,
 O cheiro é o que me faz acordar. Aquele horrível, terrível cheiro cadavérico e fétido. Ele se alastra pela cabana e pelas minhas narinas, e quase acabo vomitando minhas tripas junto com o almoço de ontem. Lutando para me manter de pé, me aproximo da janela quebrada e observo aquilo que se estende pela luz do crepúsculo.
 E lá está.
 Uma inflorescência gigantesca, talvez seis metros de altura e uns três de largura, com moscas rodeando sua textura verde, carnosa e pálida.
 Ela desabrocha perante meus olhos, repetindo sua natureza morta por todos os poros da minha cabeça. Escorrego para trás e me apoio na bancada da cozinha, roçando minha mão no cabo de uma faca enferrujada e coberta de pó.
 Eu ainda sinto aquela mão subindo pela minha barriga, torcendo o meu estômago enquanto a outra asfixia meu cérebro. Sinto suas unhas se fincando em minha carne e as larvas começarem a se contorcer em meu intestino, crescendo, crescendo dentro de mim. Não consigo mais aguentar. Não dá mais.
   Não dá.
 Agarro a faca e a transformo numa cobra, uma cobra que dá bote atrás de bote, sibilando com aquela língua vermelha e retorcida enquanto enfia seus dentes na minha alma. Meus joelhos cedem.
  Não sei o que esperava sentir. Realmente, não sei.
 O crepúsculo ilumina momentaneamente o resto da cabana. Vejo a forma amorfa estirada no sofá e outra pendurada com uma corda no ventilador.
  Caio de cara no assoalho e sinto as lágrimas rolarem desimpedidas pelo meu rosto, cada uma mais difícil de produzir do que a anterior.
  As mãos continuam ali, me torcendo e sufocando, até não sobrar mais nada.



*Aokigahara, ou Mar de Árvores, é uma floresta de 35km² localizada na base noroeste do monte Fuji, Japão. Conhecida por sua enorme extensão e pouca luminosidade, é o segundo lugar no mundo com maior incidência de suicídios. Todo ano, cerca de 100 corpos são encontrados, uns em estado de putrefação, outros apenas esqueletos. O governo japonês parou de pulicar os números exatos, com medo de encorajar mais pessoas a realizarem o mesmo ato.



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