Algum Sinal de Saturno

Foto: Pedro Meyer

 Depois de toda uma vida dedicada as questões do espaço, como um explorador anônimo do cosmo e das teorias científicas, Giovanni Chur tinha certeza: Havia recebido um sinal de Saturno. Por e-mail. Sua caixa de spam continha o grande segredo do universo. Há tempos vagava pelos aglomerados com sua luneta de 80 mm já desbotada pelo tempo.  Desprezado pelas virtuais ufológicas – ele poderia enfim, fazer contato com belos organismos inteligentes e magnificamente sedutores. Estava ansioso para abrir aquela página. Fazer download do arquivo que continha – provavelmente as instruções. Giovanni preparou um forte café e estalou os dedos para responder com precisão dimensional os teoremas e significados que deixaria Edwin Powell Hubble, orgulhoso. Enquanto isso montaria os mapas que o levaria certamente para Éris, Ceres ou Makemake – planetas anões poderosamente fabulosos. 
 A conexão estava lenta. Travava as angústias de Chur. Esse perfurava os corredores da casa sem paciência. Abria e fechava portas, armários, gavetas. Ensaiava ligações para amigos barbudos e pouco sociáveis. Sentava-se à frente da tela e levantava. Olhava os arredores e os transeuntes na grande avenida, pela janela. Logo depois, o café já esfriava na sinistra cafeteira improvisada. Resolveu ligar para o filho. Não ouvia sua voz há meses. Desde quando passou a morar com a mãe.
 – Filho?
 – Paiiiiiiii? (mãeeee, é o papai no telefone) A recepção do garotinho com a ligação foi como uma espécie de festa de supernovas transbordando a linha telefônica.
 – Filho, como você está?
 – Bem.
 – O que anda fazendo?
 – Nada, de férias.
 – Poxa, legal. Desculpa não ter ligado antes.
 – Tá…
 – Ainda ama o pai?
 – Claro, sempre… Giovanni Chur observou de longe uma mensagem na tela depois do download do arquivo astronomicamente zipado.
 – Filho, olha, eu tenho uma novidade
 – É mesmo pai?
 – É, vai mudar o mundo! Calma, já volto… 
 No computador: VOCÊ FOI VÍTIMA DE UM E-MAIL FALSO. ESCANEIE O COMPUTADOR IMEDIATAMENTE.
 – Filho?
 – Sim pai.
 – Não era nada. Vou passar aí no fim semana. Vou te levar para ver estrelas.
 – Obaaaaaaaaa!



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