A Solidão Gravitacional

by - sexta-feira, outubro 07, 2016

Foto: Darius Klimczak


Prendo o tempo nas mãos e saio procurando a saída. Nenhum gesto comporta o irreparável. Todos os fragmentos das memórias anteriores ao futuro foram arrastados por um trem para a margem do precipício. Já vejo o túnel. Preparo-me para prender a respiração no fundo dos olhos - último lugar invulnerável - Não ouço mais ruídos nem as cólicas das angustias me atraem. Rendo-me ao esparso vácuo elementar. Por um período curto. Onde as surpresas se revelam caixas vazias com laços aleatórios.
 Todos os dias pela manhã o menino Yksvokrat sobe em seu ônibus espacial rumo aos aglomerados. Parece absurda caro leitor, mas não tão absurdo quanto a procrastinação e o cansaço que acomete nosso herói. O menino Yksvokrat sempre sonhou mesmo em ser o que alguns chamam de “Taikonauta”. Aos nove anos já havia chegado à Lua, dobrado pelas avenidas imaginárias rumo à Fobos e pairado na estrela singular de nome não lembrado. Sim, é demasiadamente inverossímil que o menino Krat - bom sujeito dos descampados - hoje com quase quarenta de idade, ainda continue a observar as cadentes bolas de fogo esculpindo as bochechas das nuvens. Pensava alguns raros amigos. - O sr. Yksvokrat, subindo na primeira locomotiva na manhã chuvosa, tentando, pasmem! Fugir do trânsito dos meteoritos era ironicamente dramático. Para explicar tamanha disciplina, afirmava para os amigos que o seu chefe era de uma região desconhecida de fora da galáxia e que não queria - contraria-lo - chagando atrasado todos os dias.
 O café era o primeiro exercício matinal. Os funcionários iam para uma sala que desfocava a vista a princípio, de tão iluminada. Desligavam os mecanismos antigravitacionais e provavam do gosto escuro do espaço na projeção no café e da ausência da terra em seus laços. “Aquele globo grisalho, um ponto minúsculo inexorável…” Refletiam.


 - Sobre o que pensas? Pergunta a jovem moça anêmica que ainda chorava - às escondidas - Em capsulas abandonadas nos depósitos do grande bloco de galerias que compunha a Estação. O pai, mesmo falecido há décadas, ainda imprimia em si, a falta.
 Yksvokrat há tempos não tinha contato com nem um de seus colegas. Ele só queria terminar as horas do dia saboreando suas fotografias tiradas de dentro dos planetas coloridos do mundo mágico. Escrever seus versos sem gravidade e sentir o chão dos seus próprios pensamentos calmos. Nestes dias - especialmente - desejava ferozmente, soltar-se de volta, sem ripcord, sem máscara. Passaria despercebido pela escotilha e no primeiro cometa; agarraria sua cauda em lúdico plasma e fuga dimensional - queimaria suas mãos - quiçá seus cabelos cinzentos, todavia, percorreria o demasiado corrimão da densa iluminação onírica. Seu destino? Não sabemos. A não tergiversação pode ter um preço febrento, uma lacuna intempestiva. Um sussurro ouvido à anos luz. Confessou depois.
 Yksvokrat apenas balançou cabeça negativamente. Lentamente isolando o olhar num ponto fixo no espaço... – Sobre o nada, apenas uma epifania. Disse. A moça se afastou, sem graça. “Bom, vamos trabalhar”. Disse Yksvokrat para si mesmo, voltando para o seu escrínio.
 O dia seguiu sem mais incidentes. Apenas em turbulentas colisões onipresentes no intermitente âmago da afasia cotidiana.

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