De Olhos Fechados: Resenha de Caixa de Pássaros



  Caixa de Pássaros (em inglês, Bird Box) é um thriller psicológico pós-apocalíptico, do escritor americano Josh Malerman, que também é compositor e cantor de uma banda de rock chamada The High Strung. O romance é a obra de estreia de Marleman e foi publicado inicialmente no Reino Unido em 2014. No Brasil, o romance foi publicado pela Editora Intrínseca, tradução de Carolina Selvatici, com 272 páginas.
  A edição brasileira é muito boa, principalmente na questão do visual.A trama segue os passos da personagem Malorie durante dois tempos distintos: nos primeiros eventos envolvendo “O Problema”, que explicarei logo abaixo, que chamarei de passado, e aproximadamente cinco anos após o início destes eventos, o presente de Malorie.

  A narrativa não segue ordem cronológica, alternando episódios de presente e passado, e mesmo dentro destes dois tempos há algumas reflexões da personagem principal referente a períodos distintos. Apesar de ser narrado em terceira pessoa, a trama segue, em sua maioria, o ponto de vista de Malorie.


O Começo do Problema – Passado
  Malorie é uma estudante universitária que vive no sul de Michigan com sua irmã Shannon. Enquanto Malorie se preocupa com a descoberta de sua gravidez decorrente de um “one night stand”, sua irmã Shannon, viciada em televisão, se mostra envolvida com reportagens sobre pessoas enlouquecendo, atacando outros e, por fim, cometendo suicídio.
  Parecem apenas rumores. Apenas casos isolados. Logo no início, Malorie se mostra muito cética em relação às ocorrências, principalmente porque os primeiros casos acontecem na Rússia, acreditando que se trata de coincidências, mas começa a admitir que realmente há algo de errado quando tais incidentes começam a aparecer no Canadá e ao norte de Michigan. As mortes são horríveis e inexplicáveis e, ao que parece, o surto se inicia quando se vê alguma coisa.
  Aos poucos, as pessoas a deixar de conviver entre si, evitando olhares e até mesmo evitando sair de casa, com lençóis escuros, papelão, colchões. TV e internet deixam de funcionar... Até as autoridades advertem seus cidadãos a se ficarem em casa. Com medo, Malorie e Shannon se protegem dentro de sua própria casa, cobrindo todas as janelas e mantendo todas as portas trancadas.
  Não existe mais o mundo exterior. Só estarão seguras enquanto estiverem dentro de casa, onde não verão estas coisas que enlouquecem quem quer que as encontrem. Coisas estas que ninguém sabe o que é... Se não monstros, se são animais... As visões são chamadas de criaturas, mas ninguém sabe determinar exatamente o que são, como são. Todos que já as viram estão mortos.
  Quando, contudo, encontra sua irmã morta dentro da própria casa, restando implícito que ela se suicidou após ver uma criatura, preocupada com sua gravidez, Malorie decide se abrigar em um refúgio que viu em um anúncio. Ao chegar na referida casa, Malorie conhece os cinco sobreviventes que moram juntos: Tom, Don, Jules, Felix e Cheryl, que lutam dia a dia pela sua sobrevivência.
  Os episódios do passado mostram a incerteza da situação; todo o medo que os sobreviventes sentem e a insegurança que o mundo fora de casa lhe dá. Uma vez que eles não podem ver a criatura sem enlouquecer, tudo é vendado: portas e janelas, e toda que vez que precisam de algo do mundo exterior, como água, comida ou mesmo ajuda, sua única proteção contra o desconhecido são as vendas que cobrem seus olhos.

A Fuga – Presente
  Após quatro, cinco anos do início do Problema, Malorie está sozinha na casa que lhe serve de abrigo com duas crianças de quatro anos, chamadas de Garoto e Menina. Ambas as crianças foram criadas sem poder ver nada do mundo exterior, treinadas, contudo, a ouvir tudo – desde os passos de Malorie pela casa, até o cair de folhas do lado de fora e também o fluir do rio que passo ali por perto.
  Treinadas desde cedo, as crianças desenvolvem uma audição quase que sobre-humana, audição esta que Malorie necessita para que os três possam fugir daquela casa em direção a um lugar que acredita ser mais seguro do que a casa em que vivem.
  Em uma manhã de neblina, Malorie decide se arriscar na jornada para qual se preparou desde o nascimento de seus filhos. A fuga consiste em remar através do rio que passa perto de sua residência até seu destino, vendada, sem nenhuma arma e contando apenas com a audição de seus filhos.

Opinião Pessoal
  Tentarei ao máximo ser fiel à minha real opinião sobre este livro ser dar muitos spoilers.
  Primeiramente, a narrativa de Malerman é muito envolvente. O autor conseguiu prender minha atenção desde o primeiro capítulo. De fato, o desenvolvimento da trama é devagar, mas faz parte deste estilo. As descobertas são feitas pouco a pouco. O leitor que, como eu, não leu nenhuma resenha, que não sabe de nada da trama, demora a realmente entender o que está acontecendo.
  No primeiro capítulo, nota-se, só descobrimos que Malorie está fugindo. Mas fugindo do que, oras? Só saberemos depois, no final do capítulo seguinte. E é assim que a história é contada: com cada peça nos sendo entregue, uma a uma, as poucos. Não há uma chuva de informações.
  Aliás, não há informações.
 Uma vez que em grande parte da trama os personagens vendados, no escuro, basicamente nos sentimento igualmente vendados. Tudo que sabemos é o que eles sentem, o que eles acham que existe, nunca o que realmente existe, o que realmente está lá.
 O grande triunfo do livro é exatamente esta brincadeira com o desconhecido, que não necessariamente é o mesmo para todo mundo. De fato, todos temem a mesma coisa, a criatura, mas esta criatura não tem forma expressa: a criatura pode ser qualquer coisa. Corporalmente falando, a criatura pode ser o que o sobrevivente (e o leitor) mais teme, ou pode ser algo que sequer o aterroriza, mas a criatura é, acima de tudo, o medo.
  Quero dizer, a criatura é personificação do medo.

  O triunfo deste livro é, portanto, brincar com as próprias percepções de medo do leitor. Afinal, do que você tem medo? O que seria capaz de te enlouquecer a ponto de você desejar tanto a morte que chega a cometer suicídio das formas mais horrendas que a sociedade pode imaginar?
  Repito: do que você tem medo?
  Eu, particularmente, tenho medo dois grandes medos: barulhos e escuro. Óbvio, tenho outros medos, como medo de morte violenta ou dolorosa, medo de violências em geral, mas os que importam para essa resenha e que são mais marcantes são meus medos de barulhos e escuro.
  Meu medo de barulho está muito vinculado ao susto que eu tomo. Não é como se eu tivesse medo de qualquer barulho. É mais a questão de não estar esperando que algo vá acontecer – ou seja, não estar esperando o barulho atravessando meus ouvidos. O inesperado me pega e eu grito. Pronto, esse é meu medo de barulho.
  O de escuro é um pouco mais “sério” que o de barulho. Não sou do tipo que não dorme no escuro. Quando estou em casa, ou mesmo na casa de algum parente ou amigo, por exemplo, durmo tranquilamente. Não acho que nenhum monstro vai sair do meu armário, não acho que tem bicho-papão embaixo da minha cama. Sei que estou segura e o escuro nessas situações não me incomoda.
  O que não gosto do escuro é a insegurança. Medo é uma coisa complicada de se explicar, então vou dar um exemplo para explicar melhor no que consiste meu medo de escuro. Recentemente fui a um daqueles jogos de Escape Room, que consiste em escapar de uma sala trancada em até sessenta minutos. Para conseguir sair, você precisa decifrar diversos enigmas dentro da sala.
  A minha trama consistia em achar documentos importantes e sair da sala antes que ela “explodisse”. Não teria explosão nenhuma, isso é fato. Era apenas um jogo. Mas o jogo, a vontade de sair, de vencer, o fato de a sala estar realmente trancada, minha mente imaginativa, a música de suspense que estava tocando, tudo isso me gerou um estado de nervosismo.
  Um estado de querer saber o que iria acontecer.
  Imagina como fiquei quando a luz apagou.
  Entenda, estava em um ambiente controlado e sabia que nada de ruim realmente aconteceria comigo, mas, ainda sim, meu cérebro não tinha consciência do que realmente aconteceria comigo. Consequentemente, fiquei com medo. Muito medo!
  Mas, Luisa, por que você está fazendo uma sessão de terapia no meio da resenha? Pois, como disse, o livro mexe com o maior dos seus medos. E esses dois são os meus.
  Em outras palavras, fiz todo este discurso para dizer que a criatura, o que quer que ela seja, não mexeu comigo. Apesar da consciência de que era a criatura que deveria ser minha fonte de medo, que deveria ser a personificação do medo, para mim a parte mais amedrontadora era o fato de Malorie e outros terem que se valer de vendas e de sua audição para ingressar no mundo exterior.
  Escuro e barulhos.
  Isso sim é amedrontador para mim. Tanto que é por isso que qualquer filme de terror porco, se tiver a trilha sonora e a sequência de quadros corretas, consegue me assustar facilmente.
  Apesar disto, não fiquei com medo em momento nenhum durante a leitura. Já tive livros e até mesmo relatos de experiências mais mundanas que realmente me deixaram arrepiadas, mas não este. No máximo, me deixou curiosa. Queria saber o que estava acontecendo.
  Não teve medo, teve encantamento pela premissa do livro. Pela trama no geral. Fiquei com aquele aperto no peito de: “MEU DEUS! Preciso terminar esse livro agora. Preciso saber o que vai acontecer.”, mas em momento nenhum me assustei, mesmo quando Malorie julgava que estava perto de uma criatura ou mesmo quando uma das personagens estava com medo da criatura ou, ainda, quando Malorie escutou a morte de alguém.
  Nada disso me deu medo ao ler.
  Vai entender?
  Ainda assim, a leitura foi muito prazerosa. A narrativa é viciante do começo ao fim, principalmente quando chega no clímax da trama. É reviravolta atrás de reviravolta. Uma pena, contudo, que não engoli o final. Em um determinado momento, muita coisa acontece ao mesmo tempo – e o final, bom...

  Vou deixar minha impressão, mas vai depender do leitor ler para entender o que quero dizer. O final é consistente com a premissa? Sim. Está dentro do universo e faz todo o sentido. Isto significa que eu gostei? Não. Não gostei do final, pois sou do tipo que gosta de histórias amarradas. E é tudo que posso dizer.
  Em resumo, a premissa, a trama, é maravilhosa; a grande maioria dos detalhes da narrativa é muito bem trabalhada (não todos, porque algumas coisas foram desnecessárias para mim). O desenvolvimento do enredo é impecável, com a alternância de momentos de pico e momentos de calmaria. Mas o final, para mim, deixou a desejar.
  Outro ponto que não me agradou muito foi a construção de personagens.
  Malorie é uma personagem consistente e seu desenvolvimento psicológico é bem claro na narrativa. Todas as suas reações são fundamentadas pelas circunstâncias, de forma que toda sua ligação com o Problema, desde a perda do seu ceticismo até o advento de sua frieza é muito bem trabalho. Apesar de ser a personagem principal, não é minha personagem preferida. Confesso que não costumo gostar de personagens principais em geral, mas admito o mérito de Malerman no seu desenvolvimento.
  Os personagens secundários Tom, Don e Garoto também foram muito bem trabalhados. Tom, que é um ex-professor de ensino fundamental, emana liderança e é claramente a personificação da esperança da casa. Seus objetivos são muito claros desde o primeiro momento, assim como sua maior frustração. Em resumo, é um personagem muito humano e com personalidade.
  Don, exatamente por seu ar problemático e, por vezes, antagonista, é também um dos personagens bons da trama. Sua forma de lidar com o Problema, querendo a todo custo sobreviver, mesmo que isso signifique não deixar mais ninguém entrar na casa, é plenamente plausível e eu não esperaria que fosse diferente. Sempre tem alguém que é mais frio que os outros – ou que, quando a situação aperta, pensa antes em si próprio do que em todo o resto do grupo. Natural e coube muito na trama.
  Garoto, de fato, não é cheio de personalidade, mas existe uma razão para isso. É um menino de quatro anos que nasceu e cresceu em universo de medo e insegurança. Criado e treinado como se dentro de um quartel de general, a única coisa que precisa fazer é escutar o mundo exterior. Basicamente, ele faz o papel dos ouvidos de Malorie, sua mãe, e é só isso que deve fazer. Não pode reclamar, não pode conversar. Só pode falar se estiver escutando algo. Uma super-criança do mundo apocalíptico.
  Entre os personagens bons, por fim, meu preferido é o Gary. Não apenas porque ele é diferente dos outros, não apenas porque seu discurso é contrário ao discurso de medo que dominou a humanidade, mas porque eu sou apaixonada por cofcofvilõescofcofdoidoscofcof. Nada mais direi. Leiam e entendam – ou não entendam, porque com certeza tem quem não goste dele.
Tirando estes personagens, todos os demais são, de certa forma, desnecessários. Talvez desnecessários seja uma palavra muito forte; quero dizer que eles não têm personalidade. Não têm história. Não tem paixão. Não tem expectativas.
  De fato Jules é o parceiro de Tom nas jornadas pelo mundo exterior e ele é dono do cachorro Victor, a quem ama muito. Mas é tudo que sei dele. Felix, por sua vez, adora uma maconha. Sua única participação importante na trama é um dos planos que elabora com Tom. Só.
  Cheryl é só um nome para mim. Nada mais. Ela podia ter sido misturada com Olympia. Uma só entre as duas seria o suficiente. Quanto a Olympia, perdão pelo spoiler, mas achei um pouco clichê a gravidez dela. Aliás, achei muito clichê o fato de os dois bebês nascerem na mesma hora. Em consequência, não me apetece muito o fato de a Malorie ficar com os dois bebês no final. Para mim, um era o suficiente, independente do sexo.
  Aliás, só jogando pra cima, já que quem não leu talvez não entenda, não gostei de toda a cena do parto. Quero dizer, não do parto em si, mas do que acontecia em paralelo a isto. Em parte porque torci por alguns personagens, em parte porque queria um pouco de romance naquele pandemônio todo. Não teve.

Dito tudo isso, pode parecer que não gostei do livro. Pelo contrário, gostei bastante. A leitura em si me cativou muito. Tive alguns desgostos pontuais sim, mas tenho consciência que eles são tão pessoais que provavelmente passariam despercebidos por outras pessoas. Apesar dos meus sentimentos dúbios em relação ao livro como um todo, ainda sim indicaria a leitura.



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