As Incertezas do Poeta

Foto: Elliott Erwitt



Tu vomitas em mim passagens secretas
Cuspo em ti litorais imaginados.
Nossa união parcial é vista com desconfiança para o mundo.
A união do poeta com sua poesia.
Um crime acreditado pelo possível.
As palavras rugem de fome desbravada
E engole cada verso com afiadas mandíbulas de sonhos.
Quem eu sou ou quem somos não importa
Se for do coração que narramos os acontecimentos.
Minha febril insatisfação paga a passagem do ônibus
E senta no lado invisível da janela.
Estou solto como um vento que se enrosca pelos sapatos do desconhecido.
Sou a pedra no sapato dos loucos solitários que se desfaçam de gelo.
Nos jornais ainda não estão estampados a desolação de um coração sem sentido.

Nas manchetes ainda não foram discutidas as novas razoes lúdicas do poeta.
A queda repentina na bolsa não é tão dilacerante quando a queda de si mesmo.
Sou parte dos mecanismos, mas não a expressão absoluta deles.
Prefiro as músicas que levam além das correntes nos pescoços desabrigados.
Dou passos largos escrevendo ofícios despoeticos.
Com a pressa de uma poesia encenada.
Sinto vulcões quase sempre
E sinto os cabelos ao vento das crianças ao correr nas suas próprias dimensões.
Deus afaga-me com raios do tamanho de um verso!
Perco-me entre os corredores de um poema,
Pulo as vírgulas, dobro pelas consoantes,
Atravesso os longos períodos, tropeço pelas reticências inacabadas,
Desacredito que estou existindo então.

Existir é o ato de sentir.
Cubro-te com meu manto de versos indesejáveis
E transbordo-me para as margens do poema em libertação.


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