Paredes em Branco



Ferro nas grades. Tijolos nos muros. Só faltam gárgulas para completar a figura dantesca que se ergue a minha frente. 
   Ele pergunta se eu sei por que estou aqui. 
   Sua sala é tão estéril quanto o resto do prédio. Infelizmente, não houve temporal ou ciclone ante a minha chegada. Havia apenas um Sol entediante e inconveniente quando olhei para a janela antes de responder. 
   Sou acompanhado por dois homens vestidos de branco que me escoltam até a minha cela. As paredes são todas brancas e não há janelas. O teto é iluminado por duas luzes fluorescentes e não há interruptor que eu possa ver. Eu poderia o chamar de estúdio, mas estava mais para uma tela em branco. 
   Eles me dão uma muda de roupas e assistem enquanto eu me dispo das minhas antigas e coloco as novas. Quando termino, ambos me olham com nojo e trancam a porta ao sair. 
   Sento-me ereto na cama e espero alguns minutos após os eles irem embora. Abro a boca e, com cuidado, tiro a lâmina de barbear debaixo da minha língua. Olho bem para todas as paredes e opto por aquela à direita da porta, aquela que teria uma janela, caso houvessem janelas. 
   Agora os ouço através da porta, lutando contra o peso da cama atrás dela, enquanto eu aprecio ajoelhado a minha criação. 
   Os elementos descritivos são pobres e talvez confusos, os recursos narrativos são ou inexistentes ou mal aproveitados, mas devo dizer que a imagem criada no final me encoraja a continuar. 
   A única coisa que atrapalha a imagem é o filete escarlate que escorre da minha mão e forma uma poça no chão. 
   Ainda tanto a ser escrito. 
   E tão pouca tinta.



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