O lobisomem que gritou "garoto" (ou A borboleta sem casulo)

by - quinta-feira, junho 02, 2016






Já faz uma semana que nenhuma substância estranha entra em meu organismo, convidada ou não. Elas me tiravam a insanidade e me condenavam a lucidez, mas nunca mais. Seja lá qual for o horror que me aguarda, ele é só meu, e deve com certeza ser melhor do que a prisão de prescrições e termos médicos em que eu me encarcerara.
   O fluxo inexorável de ideias e pensamentos é quase insuportável. É como se um milhão de sonhos se infiltrassem entre os neurônios, prejudicando as terminações e corrompendo as memórias indiscriminadamente. Eu sinto o expurgo de cada partícula de luz que jamais tocou o meu ser. Não, não, não. Antes de ver o Sol é preciso confrontar-se com a Lua.
   (Há algo de errado com o teclado. Ele continua pondo os pingos nos is, colocando vírgulas no meio e pontos no final, insistindo em corrigir minhas palavras. A verdade nunca foi tão incomunicável quanto é agora.)
   Há uma névoa se espalhando na rua e penso em abrir um pouco a janela para senti-la. Antes que eu perceba, ela está lá, preenchendo o ar dos meus pulmões e a carne em meus tecidos, me tornando fluído, translúcido.
   E, por um momento, me esvaio.
   Não havia nem pensamento, nem emoção, nem luz, nem escuridão,
   nem nada
   Foi apenas por um momento. Foi apenas por um século. Apenas por um milênio. Por uma eternidade.
   (Nunca deveria ter existido uma medida de tempo. Há muitos minutos entre as horas. Muitos segundos entre os minutos. Tempo demais para se decidir sobre qualquer coisa.)
   Mas foi apenas por um momento.
   E no seguinte eu já fechava a janela, mas era tarde demais. Eu já me via lá fora, curvado e retorcido, cercado pelos ratos e baratas que entoavam o canto da noite.
   Eu sentia, eu sentia vindo no ar naquela noite. Sentia seu bafo nas minhas costas, sua língua na minha orelha e seus olhos queimando a minha carne.
   Arqueando as costas, eu uivei. Não havia Lua naquela noite.
   E então eu me despi daquela pele como alguém que se livra de uma roupa velha. Eu me erguia, nas quatro patas, com as orelhas erguidas enquanto farejava o ar a minha frente. Ainda conseguia ver a pele branca e pálida, mas a pelugem escura já crescia e dominava o semblante sinistro que eu me tornara.
   Eu via a Lua no céu.
   Meu rosto havia se alongado, minhas orelhas também, e eu conseguia sentir meus dentes se afunilando e se tornando presas enquanto minha boca se arreganhava num sorriso dos mais cruéis. Meus olhos eram dois abismos de decadência e putrefação.
   Foi assim que me senti pleno. Ali, na minha pele que não era minha, no trapo escuro e fedorento que me fazia mais confortável do que a seda mais exótica.
   Sob a ótica do lobo, o mundo finalmente se releva para mim como o que realmente era, finalmente, finalmente eu via a vida pelos meus próprios olhos. O mundo como o era, o mundo como o era...
   O mundo?

   O mundo não passa de um banho de sangue.



Leia Também

0 comentários