Uma História de Amor em Cinco Atos

by - domingo, maio 22, 2016




Ato I - Tragédia

No meio do matagal
A escuridão me convidava
Mas eu ainda me lembrava
Da Lua em meu quintal

Mas descobri que me enganara
O reflexo afundava
E eu não podia fazer nada
Pois a Lua me abandonara

E assim eu me afogava
Mas as algas me resgataram
Fosse quem fosse a Senhora do Lago
Ela não queria me ver enterrado

Sem querer, respirei o ar
E, com um olho fitando a amada
E o outro se esgoelando
Me afoguei, gritando



ATO II – Despertar

Não sei se foram as larvas
Ou os insetos
Talvez os sapos
Coaxando no Lago

Um olho meu
Já não via mais
E o outro;
Esse ficou pra trás

Os vermes gordos
No coração
Me enchiam o hálito
De podridão

Os insetos na minha cabeça
Zumbiam as palavras
Que antiquado,
Eu mesmo falava

Porém eram os sapos
Que me incomodavam
Pois eram os únicos
Que me beijavam


ATO III - Além

Uma voz me chamou
Eu não me virei
Meu nome era meu
E de mais ninguém

Achei um olho
Numa rosa seca
Os espinhos me cortam
Mas eu podia vê-los

Sem me importar
Continuei a andar
E os vermes morreram
De cansaço

As cigarras, coitadas,
Se entediaram
E deixaram a carcaça
Para o condenado

Os sapos coaxeiros
Não mais importunaram
Mas o gosto se mantinha
Em meus lábios


ATO IV - Clímax

E como um monstro;
remendado
Cruzei a cerca;
em sentido contrário

A vi de novo
No mesmo lugar
A Lua no céu,
Inalcançável

Mas o seu reflexo,
Liquefeito no lago
Me olhava atento,
Diria até assustado

Dei as costas
Para tudo aquilo
Para o amor
E para os seus amigos

E no final das contas
Acabei feliz
E há dias em que nem me lembro
Desse tempo


ATO V - Farsa

Esse, é claro, não foi o caso
O Lago que deixei
Me espera adiante
Uma sereia diferente, um caso semelhante

A canção era clara
As águas, nem tanto
Mas eu já tinha me afogado
E me levantado de novo

Continuarei para sempre
Em direção ao mesmo Lago
Até encontrar a Lua certa
Que me seduza ao naufrágio
E me afogue

De fato



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