Resenha: O Último Desejo

by - terça-feira, março 01, 2016




THE WITCHER:
A saga do bruxo Geralt de Rívia
Livro 1


O bruxo, o ouriço e a feiticeira

   Mesmo após o estrondoso sucesso da série de jogos inspiradas no universo criado pelo polonês Andrzej Sapkowski, os livros da série “The witcher” (em polonês: Wiedźmin) ainda sofrem em achar um nicho no mercado brasileiro, apesar do recente aumento na publicidade pela editora responsável pelo lançamento da série no Brasil, a WMF Martins Fontes. Ela recentemente publicou novas edições para os cinco livros já lançados no Brasil, com capas inspiradas no universo do jogo criado pelo estúdio polonês CD PROJEKT RED, responsável pela aclamada trilogia de jogos inspiradas na fantasia de Sapkowski.
 Mas será mesmo que essa fantasia merece atenção?


1. O universo do bruxo
   Antes de mais nada, é preciso entender como os livros da série funcionam. Os dois primeiros livros funcionam como uma coleção de contos que precedem a história principal e que servem para apresentar o mundo e os personagens criados por Sapkowski, além de dar o tom sombrio às histórias que estão por vir.
   O universo do bruxo é povoado por diversas raças de seres dotados de razão, combinando elementos clássicos da fantasia europeia com outros ainda mais fascinantes recolhidos da mitologia eslava. Porém, em uma terra devastada por guerras entre humanos, elfos e anões, são os chamados monstros que não tem lugar no mundo.
   Provenientes de um evento chamado de “Conjunção das Esferas”, ocorrido 1.500 anos antes dos eventos dos livros, os monstros vieram de uma outra dimensão e agora vivem presos no mundo do bruxo, sem ter para onde ir por não possuírem um nicho em nenhum ecossistema conhecido. Foi também nessa época em que a casta dos bruxos foi fundada, criada para lidar com a crescente infestação de monstros que assolava o mundo.
   Hoje, os bruxos são vistos pelos acadêmicos como relíquias de um passado distante, responsáveis pela extinção de inúmeras espécies, frutos de experimentos e mutações realizados por magos renegados. Para o camponês comum, no entanto, eles ainda são a única maneira de lidar com o fantasma que assombra a sua plantação.

2. Os personagens
   Geralt de Rívia é um bruxo. Um mutante caçador de monstros criado desde a infância para executar sua função com eficiência assassina. Lendas dizem que os bruxos carregam duas espadas, uma de prata, para executar o serviço e uma de aço, para aqueles que se recusarem a pagar por ele. Lendas dizem que os bruxos são seres destituídos de emoções e empatia, criados para um único propósito e incapazes de se desviar dele.
   Como sempre, as lendas estão erradas.
   Durante todo o percurso da obra, Geralt se prova diversas vezes um protagonista complexo e moralmente ambíguo. Apesar dos bruxos serem aconselhados a manterem sua neutralidade mediante os conflitos do resto do mundo, o destino quase sempre escolhe ser cruel com Geralt, colocando-o no centro de peças políticas em que o seu papel é quase sempre desconhecido por todos a sua volta, incluindo ele próprio.

   “ – Um mal é um mal, (...). Menor, maior, médio, tanto faz... As proporções são convencionadas e as fronteiras, imprecisas. Não sou um santo eremita e não pratiquei apenas o bem ao longo de minha vida. Mas, se me couber escolher entre dois males, prefiro abster-me por completo da escolha.”
  
   Por onde começar a falar dos demais personagens?  
   Talvez com o trovador Jaskier, o fiel companheiro de Geralt em diversas jornadas, devasso nato e apreciador das artes, além de compositor de diversas baladas que secretamente protagonizam o bruxo na execução de seu tenebroso ofício.
   Talvez com a rainha Calanthe de Cintra, que convida o bruxo a um banquete ao mesmo tempo que dá a ele uma espada por baixo da mesa, enquanto discursa sobre uma questão de preço.
   Talvez com Yennefer de Vengerberg, a misteriosa feiticeira de mechas negras e olhos violetas...
   Mas talvez eu deva começar com o Destino.
   A ideia de Destino é sempre presente nas histórias de Sapkowski, e principalmente naquela que dá nome ao primeiro volume da série. É uma ideia transmitida de maneira original e inovativa, procurando se afastar dos clichês já consolidados da literatura fantástica.
   Basta dizer que a alma de “The witcher” está em seus personagens. Todos possuem personalidades cativantes e visões de mundo diferentes, resultando em tramas envolventes, engraçadas e, muitas vezes, provocantes.

3. A escrita
   A escrita de Sapkowski combina os melhores elementos da literatura fantástica clássica e os mistura com elementos de uma fantasia moderna tal qual “A guerra dos tronos”. Isso resulta em um tipo de leitura que é ao tempo deliciosamente clássica em diálogos e terrivelmente brutal nas cenas de ação.
   Por exemplo, é fácil achar falas que encham metade de uma página, ao mesmo tempo em que é fácil achar inúmeras ameaças veladas nesses discursos. É fácil achar pessoas que falam de maneira estranhamente cordial e na página seguinte vê-las fazer o oposto disso.
   A tradução de Tomasz Barcinski (1936-2014) é excepcional em todos os aspectos, se valendo de toda a extensão do vocabulário português e realmente contribuindo para que a leitura flua realmente bem. Geralmente a literatura eslava passa por duas traduções antes de chegar ao Brasil, o que acarreta em problemas de coesão textual e alguns diálogos sem pé nem cabeça. Barcinski foi responsável por grande parte da literatura polonesa que pousou em terras tupiniquins, além de quatro livros da série “The witcher”.


4. Conclusão

   “O último desejo” é um excelente livro de fantasia, carregado com referências à mitologia eslava e que realmente exala originalidade em todos os seus aspectos, seja na maneira com que foi escrito quanto na maneira em que monta os elementos da fantasia clássica. É uma ótima introdução ao grandioso universo criado por Sapkowski e uma ótima base para aqueles apaixonados pela série de jogos. Cheio de personagens fascinantes e multifacetados, heróis improváveis e homens que se confundem com monstros, o mundo do bruxo é perigoso, sombrio e fascinante.



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