Coisas Piores

by - segunda-feira, março 28, 2016





   Volta e meia ainda me pego voltando para aquela praia. Ainda consigo sentir a areia fria e as ondas calmas, se estendendo até o limite da visão. Ainda consigo ver as luzes da costa se apagando uma a uma, procrastinando o anoitecer. Ainda me lembro dos meus dedos entrelaçados com os dela, suas palmas geladas parecendo infinitamente mais calorosas do que a areia da praia. Perspectiva é uma merda, certo?
   Ironicamente, a parte menos clara de tudo é ela. Nunca me consegui lembrar exatamente sobre o que conversamos. As coisas estavam frias entre nós já fazia um tempo, então não sei se sobrou muito mais para algum de nós dizer. No entanto, o que eu de fato me lembro sobre aquela tarde é a última coisa que ela me disse:
   - Adeus, escritor.
   Quando me perguntam quando finalmente decidi o que queria ser, sempre penso nesse momento em particular. Por algum motivo quando eu falava em ser escritor parecia um sonho, já quando ela falava, parecia um fato. A palavra de repente me soou muito mais real naquele momento.
   Quando se é jovem e não se tem muitas preocupações, perder um grande amor é uma das piores experiências pelas quais alguém pode passar. Meio que nos prepara para quantidade de coisas horríveis que ainda podem acontecer. Se o tempo cura tudo, ele certamente foi um doutor preguiçoso com essa ferida. Preguiçoso e, ainda sim, terrivelmente eficiente.
   Não, eu nunca a esqueci, pelo menos não por inteira, mas eu também nunca quis. Se lembrar é a capacidade essencial de qualquer escritor. Se lembrar daquilo que os outros gostariam de esquecer. E considerando todas as coisas de que me lembro, percebi há muito tempo que há coisas muito piores do que se perder uma garota, por pior que isso possa soar.
   O pior pecado que podia ter cometido era esquecer esse amor. Há poucas coisas nessa vida piores do que esquecer do amor.



“Só posso dizer o que você já sabe: alguns dias são preciosos. Não muitos, mas acho que em quase toda a vida há alguns. Aquele foi um dos meus e, quando estou triste, quando a vida me dá uma rasteira e tudo parece ruim e sem graça, (...) eu volto a ele, ao menos para lembrar a mim mesmo que a vida nem sempre arranca nosso couro. Às vezes ela oferece verdadeiros prêmios. Às vezes, são preciosos.”
- Stephen King, Joyland





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