Ela É



A porta range antes do bater.
Há sempre um rangido antes do inevitável bater.
Os lençóis ainda estão encharcados de suor, o que só deixa ainda mais difícil a tarefa de me desenrolar deles. A luz vermelha do letreiro de neon do outro lado da rua se infiltra pelas frestas da persiana, pintando as paredes com um vermelho cansado que não contribui para o meu ânimo.
Eu acordo.
Levanto a cabeça aos poucos, passando os olhos pelo quarto listrado de preto e vermelho, pensando que o dono devia ter um gosto pra lá de estranho.
Capto uma luz vinda da cozinha. Ela deve ter se esquecido de fechar a porta da geladeira outra vez. Como sempre.
Finalmente coloco os pés no carpete e quase acordo por completo. Abro a primeira gaveta do criado-mudo e pulo para o pacote de aspirinas do lado do relógio de pulso que eu tirei duas horas atrás. Três e meia da manhã. Eu ainda tenho algumas horas antes de ter que ir pro trabalho.
Me levanto e começo a me arrastar pelo carpete em direção a cozinha enquanto meu cérebro começa a distinguir os sons que vem da rua lá embaixo. A cidade nunca para, ao que parece.
Ela deve ter se perfumado antes de sair, já que o cheiro cítrico e amadeirado preenche o ar da cozinha tanto que é preciso abrir pelo menos uma fresta da janela para não morrer sufocado.
Não há muita coisa na geladeira, apenas uma meia dúzia de ovos e algumas embalagens de leite com um cheiro deveras suspeito. Não posso senão me perguntar o que ela tirou dali. Mal consigo imaginar ela comendo alguma. Parece, não sei, mundano demais para alguém como ela.
Volto para a cama e me ponho a assistir o jornal matutino. Algumas catástrofes aqui, uma ou outra calamidade ali, alguém comentando sobre a intervenção humana vez sim, vez não, alguns episódios repetidos de sitcoms populares que por algum motivo não são assim tão populares no hemisfério sul. Não posso deixar de me sentir afastado de tudo isso, como se não estivesse acontecendo no mesmo plano em que eu me encontro agora, como uma pintura na parede, estática. Nada novo. Nada diferente.
Só ela.
Não consigo me lembrar do dia em que a conheci, mas para falar a verdade não consigo sequer imaginar a vida sem ela. Para mim, ela sempre esteve ali.
Ela acha que eu sou casado. Estranho, uma vez que eu nunca comentei nada com ela a respeito disso com ela, mas parece que essa ideia não sai da cabeça dela.
Poderiam se passar semanas até que tivéssemos algum contato, ou melhor, até que ela me chamasse de novo. Ela nunca me explicou o que fazia nessas semanas de hiato e eu também nunca me interessei em perguntar. Apenas fico aliviado quando recebo um telefonema urgente me avisando para encontrá-la imediatamente no nosso lugarzinho de sempre, um hotelzinho de segunda na periferia da cidade.
Sem palavras carinhosas, sem carícias apaixonadas, sem cuidados de amantes. Quando nos encontrávamos, nossa relação era nosso trabalho.
Ela não era minha, disso eu sabia. Foi conversando com um amigo, quando ele mencionou uma certa garota de beleza melancólica e terrível, com olhos que desafiavam o espectro visível, que eu me toquei disso. Não me senti traído, mas sim curioso. Afinal o que ele via nela que ela via em nós dois e quantos mais? O que nos seduziu?
- Sei lá. Acho que ela inteira. Sabe, ela só existe do jeito que é, e se o fosse diferente, não acho que fosse ser a mesma coisa.
- Uau. Não sei se teria uma resposta mais vaga nem se pedisse por uma. Mas acho que eu estou te sacando.
Seu olhar parece muito triste de repente.
- Pois é. Tenho quase certeza de que não sou o único cara dela. Não tem como uma garota assim ter apenas um só cara, sem chance.
- É. E mesmo assim, só o que caras como nós conseguem fazer é se apaixonar ainda mais por pessoas assim.
- Acho que somos uns viciados crônicos no amor, então.
Pensei um pouco:
- Somos uns fodidos mesmo.
O meu celular começa a tocar, me tirando de quaisquer devaneios que a minha mente resolveu me empurrar. Droga. Me esqueci disso.
Limpo a garganta antes de responder:
- Oi amor. Não, nada, só aconteceu um imprevisto aqui no escritório, uns babacas zoaram com o relatório de vendas, só estou terminando de botar as coisas em ordem e já devo voltar pra casa, ok? Beijos, também te amo. Até logo.
Pego a muda de roupas na poltrona e começo a me vestir quando, de repente, volto a sentir aquele terrível perfume de novo.
As lágrimas vêm logo depois.
Não, ela nunca foi minha. Mas eu sempre fui dela.
E eu sei disso toda vez que ouço aquela porta bater.




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