Invernos e Verões




Meu pai ficou doente esses dias, aos poucos, enquanto via minha mãe lidar com a teimosia e as dores — porque, convenhamos, homem doente fica dengoso também — com toda aquela paciência e companheirismo, sempre preocupada se ele estava bem e se precisava de alguma coisa, me pus a pensar nos dois lados da vida, como seria, um dia “comum”, numa mesma cidade, com tantos opostos como disse uma música: “E na vida a gente tem que entender/ Que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri”. Afinal, os seres humanos hoje são tão individualistas que não pensam que, enquanto eles sofrem em um ponto da cidade, há outra pessoa, em outro ponto, no mesmo dia, sofrendo uma dor semelhante ou pior. Creio que é tendência humana elevar sua dor sobre a de todos os outros indivíduos, e foi pensando nisso que criei Invernos e Verões, um conto básico, que explora essas duas vias da vida, a felicidade e a dor, em diversas nuances diferentes, rápidas como um flash e, como tal, propensas a inverterem-se.

Invernos e Verões
 Rua Moslin, número 123. Lacey Owen, sete anos, corre pela casa animada ao som das conversas dos familiares que ornamentam a sala, sorridentes, prontos para comemorar seu aniversário. Atrás dela, seus primos mais novos e mais velhos riem na divertida brincadeira de esconde-esconde. A mãe grita para que tenham cuidado, a avó chama para beliscarem os brigadeiros na panela, o pai ri com o tio mais velho enquanto tomam cerveja na varanda.
Hora do parabéns, toda a família se reúne em torno de Lacey, sorridentes, celebrando sua nova etapa infantil. Cantam pela sua felicidade, a menina, com um dente de leite a menos na frente, sorri animada, estão todos lá, tudo parece perfeito, tudo está feliz e ela está tendo a melhor festa de aniversário do mundo. Seus amigos trouxeram presentes, todos vão brincar com o pula-pula do lado de fora, a família está animada e se divertindo.
***
Rua Caldwell, número 27. Silêncio. Em volta da cama as mulheres choram, os homens tentam expressar uma força que estão longe de sentir, não importa o que digam, ninguém, nunca, está pronto para aquele momento. No leito, sorri sereno o patriarca, filhas e genros o rodeiam, ele está feliz por ver todos eles, alguns que viajaram até lá só para contemplá-lo uma última vez. Não adianta pedir que não chorem quando ele mesmo se rende à emoção. Mas não tem medo.
Que importa se não tem mais tempo? A consciência de que amou cada dia da sua vida lhe basta, e não é isso que é importante? Amar? Não foi esse o mandamento maior de Cristo? Está em paz. Aquelas pessoas à sua volta são a prova do amor que plantou, florescidas à sombra de uma vida feliz. Orgulhava-se. Seus netos, provavelmente sem sequer entender o que acontecia, olhavam-no com uma inocente melancolia, mas sorriam, e ele sorria sem forças de volta.
Assim, fechou os olhos e adormeceu. A alma evolou-se no etéreo descanso. Gritos pela perda, lágrimas de desespero, perguntas infantis acerca das respostas inexistentes do avô. Dor, em sua forma mais pura.
***
     Hospital Brellin, rua 45; Dor. Debra tenta respirar e manter o foco em seu trabalho, não pode ser fraca naquele momento, estava prestes a fazer a coisa para a qual foi criada: dar a vida. Aperta os braços da cadeira de rodas enquanto lhe enxugam a testa suada. Ao seu lado, preocupado e aflito, o marido acompanha já vestindo a roupa azul de plástico.
     Anestesia, gritos para que seja forte. Empurra. A dor vem. Encorajamentos surgem, o marido lhe segura a mão, o olhar aflito e esperançoso, doloroso por vê-la sofrer. Outra onda de dor, empurra novamente. Os gritos baixos de força enchem a sala, mais encorajamentos, estava indo bem, dor novamente, a mão do marido é apertada com mais força do que ela achava ser possível ter.
     Por fim o choro. Agudo e estridente preenchendo de felicidade a sala. Cansaço e alívio povoam o rosto suado de Debra. Era um menino. O marido lhe sorri tomado de felicidade, beija-lhe os lábios, extasiado pela sensação do milagre que presenciara e lhe agradece, uma dúzia de vezes, pela concretização humana do amor que compartilhavam. Felicidade plena. Indizível. Pura.
***
     Rua Collin, número 74. Escuro. As janelas estão fechadas por cortinas imergindo o quarto em uma escuridão tenebrosa, bem próxima da escuridão que se instalara em seu coração. As lágrimas caem por sua face, estava tão cansado, para que ainda continuava ali? Ninguém se importava. Ele era um peso, um erro. Estava sentado no chão, o silêncio só era cortado pela voz dos pais no andar de baixo, como se ele não existisse ali dentro, como se o mundo inteiro estivesse escurecendo, ele não queria, mas não era mais uma opção ficar ali, queria só que a dor parasse, que o mundo inteiro parasse de pesar em seu peito.
     Olhou para a parede, mesmo no escuro conseguia distinguir cada móvel, cada pôster, cada livro nas prateleiras, cada objeto na cômoda. Aquele era o seu mundo privado, o mundo que o mantinha excluído da pressão dos pais, do bullying na escola, da incompreensão dos amigos e parentes, dos olhares tortos de pessoas na rua... era o mundo onde ele se sentia ele mesmo, onde podia ser quem era sem medo.
     Não trancou a porta. As lágrimas continuaram caindo, sentiu medo, mas qualquer coisa era melhor que continuar no meio de tanta dor, tanto sofrimento, tanta maldade... não fora feito praquele mundo, não era parte daquela vida tão injusta e insana de pessoas individualistas e cruéis. Não era forte o bastante.
     Na sala, vendo um programa de entretinimento qualquer, os pais ouviram o barulho do tiro. Olharam-se por um instante e correram escada acima assustados na pressa de saber o que estava acontecendo. O quarto de Alex estava escuro, acederam a luz que revelou o corpo do adolescente no chão, sob a poça do próprio sangue que espirrara no teto e a arma ainda envolta na mão. O grito da mãe pareceu ecoar pelo mundo, o pai entrou em choque. Nenhuma última palavra foi dita. Só havia ausência, perda, alívio e dor. Uma dor dilacerante que acompanha a culpa.
***
     Parque Washington Grass, rua 36. Sabrina corria sorridente sobre a grama perto da fonte enquanto o pai, um artista plástico, captava cada um dos seus movimentos. Era uma criança tão linda, parecia com a mãe, e enquanto a observava e reproduzia seus movimentos no bloco de desenhos, pensava na pureza e inocente felicidade da filha, como desejava que ela nunca precisasse conhecer a frieza do mundo, como desejava que ela mantivesse aqueles olhos inocentes para sempre, enquanto corria livre e feliz pelo parque, a ver fadas e duendes e aponta-los para a mãe, que a seguia cuidadosa por todos os lados.
     O sol brilhava em seus cabelos castanhos, os olhos atentos e penetrantes tomavam a imensidão azul das nuvens, procurando formatos que só seus olhinhos podiam captar. E era feliz, vivia em um mundo encantado que nenhum mal conseguia destruir, estava na melhor fase da vida, sem fazer ideia do que o futuro lhe reservava, do que as verdades do mundo fariam com seus sonhos e ilusões. Mas era aquela felicidade que ele queria captar, aquela inocência infante e livre tão pura e completa que nada parecia ser capaz de corromper e que ele protegeria o tempo que pudesse. Sabrina era princesa, era fada, era criança, era feliz. E ele compartilhava aquela felicidade, aquele pedacinho seu que nada no mundo podia apagar.
***
     Rua Riverside, número 49.  Deitada na cama, Melissa chora. Ela não sabe a razão consistente para aquilo, apenas a dor pungente em seu peito, a agonia dilacerante que parece cerrar-lhe ao meio. E ela grita, abafando o grito no travesseiro, querendo qualquer coisa que faça aquela tristeza aterradora desaparecer do seu peito, aquela angústia mortal que parece transformar seu sangue em ácido. Há três dias não comia nada e não saía do quarto, não falava com ninguém, não queria tomar banho e, vez ou outra, gritava assustada vendo coisas que não existiam.
     Naquele momento, Melissa estava com medo. Medo da sua vida no dia seguinte, medo do que aconteceria se saísse do quarto, medo de si mesma. E havia também a dor... Doía tanto que ela era incapaz de fazer qualquer outra coisa além de chorar e, ainda assim, nada parecia fazer cessar aquela agonia que se instalara no seu coração. Ninguém compreendia, chamavam-na doente, louca... será que era assim tão difícil aceitar que ela simplesmente não queria ver ninguém? Encolheu-se. As lágrimas que já haviam encharcado o travesseiro continuavam caindo, o mundo descoloria através do vidro da janela pela qual olhava o céu e o carvalho no quintal de casa.
     Estava só em casa, e era bom. Não precisava ouvir os inúteis conselhos da mãe para “reagir”, ou mesmo os pedidos do pai que fosse comer, nem mesmo o estresse de Giulia, sua irmã mais velha, que lhe dizia para “deixar de idiotice”. Que sabiam eles sobre o que ela sentia? Que sabiam sobre ela? No fim de tudo a vida se resumia aquilo, um monte de pessoas que, por saberem seu nome acham que sabem tudo sobre você. Estava cansada de todo mundo ter planos para ela, de dizerem o que ela tinha que fazer, quem tinha que ser e para onde devia ir. Ela não queria participar daquele mundo cruel e frio, não queria interagir com as pessoas egoístas e frívolas, não queria ser a “esquisita” da escola que se esconde no banheiro para chamar atenção. No fundo, como dizia o provérbio japonês: “O prego que se destaca será martelado”. E era assim, não era? Quando você assume-se diferente das outras pessoas, elas fazem de tudo pra te pôr pra baixo, pra tornar você uma delas, e Melissa não queria isso. Queria ficar sozinha, no seu cantinho, sem ser percebida, sem ser diferente, sem ser julgada ou pressionada por todo mundo. Mas naquele momento estava doendo tanto!
     Caminhou até o banheiro do seu quarto e olhou-se no espelho. Quem era aquela garota com olheiras, rosto inchado, aparência cansada e cabelos desgrenhados? As lágrimas não cessavam, abriu o armário e tirou a gilete, subiu a perna da calça do pijama e deslizou a lâmina sentindo arder e sangrar a escoriação, a sensação era boa, enquanto doía ali ela podia esquecer a dor intensa que quebrava seu corpo de dentro pra fora, era momentâneo, mas ajudava quando doía demais daquele jeito. Será que mais alguém no mundo se sentia daquela maneira? Será que, em mais alguém, doía daquela forma? Cortou-se novamente... Havia inúmeras cicatrizes ali, mas tudo bem, ela não se importava. Se parasse de doer, não se importava de sangrar-se até a morte.
***
     Rua Coreset, número 80. Na varanda, Silvia lê, tranquila apreciando aquele dia ensolarado, enquanto viaja nas páginas magníficas daquela história fascinante, e, por um momento, é como se o mundo inteiro desaparecesse e ela fosse sugada para aquele mundo mágico e maravilhoso da história, cheio de perigos e beleza, onde ela podia ser a heroína que sempre desejou ser. Sentia o poder das palavras fluírem pelo seu corpo como um energético, sorria, chorava, xingava, torcia. Os fones no ouvido faziam trilha sonora, às vezes bem desconexa, com as cenas que passavam e ganhavam vida diante dos seus olhos.
     Se perguntava como podia haver no mundo pessoas que não desfrutassem desse prazer, o de submergir completamente no mundo de alguém, de entrar na cabeça de um autor e viver suas emoções, viver o mundo que ele criou para outros habitarem. Não havia sensação melhor, era reconfortante, enchia a pessoa de sabedoria, experiência, conhecimento... enquanto estava presa nas páginas de um livro nenhuma coisa no mundo parecia errada, era sua filosofia, sua terapia, sua vida. Aquelas páginas eram seu pequeno cofre de felicidade.
***
A Rua Caldwell fica na esquina da rua Moslin. No outro quarteirão, encontra-se o hospital Brellin e, na rua seguinte, o parque Washington Grass.  A rua Colling e a rua Riverside ficam no mesmo quarteirão, são paralelas uma à outra, e, apenas uma esquina depois, localiza-se a rua Coreset. É de se imaginar que, mesmo próximos, esses invernos e verões nunca se choquem, são estações distintas que implicam os extremos da felicidade, a vida e a morte, os lados opostos da vida. O velho ditado de que “Um chora enquanto o outro ri.” Afinal, a felicidade é algo relativo, em um mesmo dia, todos esses acontecimentos se passam na mesma cidade, todas as pessoas, todos os dias, vivem invernos e verões como esses, mas parecem mundos fechados, realidades distintas, universos paralelos da realidade, quando, na verdade, são todos partes de um mesmo universo e de uma mesma vida.

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