Formatura







- É um bom começo.
   - O que te faz pensar que é um começo?
   - O que te faz pensar que não é?
   O bar está praticamente vazio. Apenas um velho atrás do balcão e a saudade para nos manter companhia. Eu apaguei meu cigarro no cinzeiro de cristal próximo ao eu copo e já ia tirando outro do maço que carregava no bolso da camisa.
   - Para começar, na maioria dos começos você tem pelo menos alguma ideia do que está prestes a acontecer.
   - Esses são justamente aqueles que te decepcionam, certo? – Ela tomou um trago do meu copo – A realidade nunca se compara com a ficção.
   - Nem deveria.
   - O que quer dizer?
   - Imagina o quão chato isso seria, se nós pudéssemos descrever a vida exatamente como ela é, o tempo todo? Escritores, deem adeus aos seus empregos. – O líquido desce fervendo pela minha garganta. – Mas os começos não precisam ser realistas.
   - Me diz qual é o seu começo dos sonhos, então.
   - Sei lá. Não estava esperava nenhuma merda de coral invisível nem nada. – Olho para o resto do bar e posso jurar que o bar olha pra mim; desde os móveis de segunda mão até a bebida de terceira, tenho certeza de que há um olho lá em algum lugar. – Só esperava mais do que isso, acho.

   I’ve got you under my skin
   I’ve got you deep in the heart of me

   Nos viramos para olhar a rua por trás das janelas esfumaçadas pela sujeira do bar. Lá, as pessoas caminham de mãos dadas, sozinhas, algumas até um pouco loucas, num passo tranquilo, quase ébrio. Não os culpo. Provavelmente devem estar atrás de um bar meia boca qualquer para encher a cara, assim como eu. Isso me faz pensar que meus padrões devem mesmo ser mais baixos do que a maioria.
   - Tu não gostava dessa música?
   - Não me ofenda, eu ainda gosto. Frank Sinatra. Clássico.
   Nós cantamos a próxima estrofe junto com o Frank:

   I tried so not to give in
   I said to myself this affair never will go so well

   Nós rimos juntos por uns segundos antes dela me dizer:
   - Você sempre foi um pouco mais romântico do que deveria, sabe?
   - Você acha? Estranho. Sempre me disseram que eu sou sério demais pra minha idade.
   - E você era. Mas não pelo motivo que você imagina.
   - Não entendi.
   Eu também não.
   - Não queria que você entendesse.
   Olho para ela por mais alguns segundos e logo dou um longo trago na bebida.
   - Já vi que estar bêbado é pré-requisito pra falar com você.
   - Não venha reclamar de mim, foi você que insistiu pra eu estar aqui.
   - Eu sei, eu sei, ok? Só dê um tempinho pra eu me acostumar, certo.
   “De qualquer jeito, imagino que você tenha razão.”
   - No quê?
   - Sempre achei que o mundo precisasse um pouco mais desse romantismo clichê e banal. As pessoas deviam aprender a amar por menos.
   - Bem, você sabe o que eles dizem: - ela segurou o copo no ar por uns instantes. – O que vêm fácil...
   - Vai fácil.
   Tomamos um gole cada um.
   - Talvez devesse ser assim. Aquele negócio todo de “infinito enquanto dure” que o Vinicius de Moraes falava.
   - Por favor. Você está bêbado.
   - Acho que dois bêbados conversando devem chegar eventualmente a um entendimento.
   - Então talvez não estejamos bêbados o suficiente. – Ela pega o meu copo de novo.
   - Talvez ajudasse se você começasse a tomar do própria copo, não é mesmo?
   Ela pensa um pouco a respeito e termina por tomar um gole maior ainda do meu copo:
   - Definitivamente, você tem razão.
   - Como você é cruel.
   - O que é isso, agora? Tu não gosta quando a piada é sobre você? Quanta hipocrisia, cara.
   - Podemos ficar nessa brincadeira o dia inteiro, o quanto você quiser, juro. Mas pelo amor de todos os clichês, não termine isso com uma análise freudiana de como eu sou um babaca, por favor.
   - A verdade é dura demais pra você, docinho?
   - Talvez óbvia demais, gata. Óbvia demais pra qualquer escritor que se preze.
   Ela ainda usava aquele anel estúpido. Nunca soube direito qual foi o metal utilizado, mas agora que paro para pensar, nunca me importei realmente. A inscrição foi a minha maior preocupação desde o início.
   - Não gosta dele?
   - Por que você ainda usa essa merda?
   - Bem, não é como se você pudesse simplesmente esquecer o que aconteceu, docinho. Não é assim que a vida funciona.
   - Então talvez a vida não valha a pena, não é mesmo?
   - Essa não é questão. A questão é: se a vida vale tão pouco, quanto vale a falta dela? Saca?
   - Honestamente? Não.
   - OK. Pense assim: A vida é uma grande mansão, do tipo que você vê por fora e não sabe onde acaba. Dentro dessa mansão, há portas abertas e portas trancadas. As chaves dessas podem ou não estar na mansão. Você passa os seus sessenta, setenta, oitenta anos tentando descobrir tudo o que há em todas as portas. Agora a morte é quando o proprietário da mansão chega e te diz que se ele achar uma coisa fora do lugar ele vai te mandar pra cadeia. Então você, já com seus olhos cansados e sua coluna fodida, tenta ir embora o mais rápido possível enquanto tenta fechar todas as portas, rezando pra Deus e o mundo que não tenha esquecido nada fora do lugar. A maior tragédia e nunca saber se todas as portas estão fechadas, ou se tudo nelas está como deveria...
   - Não é sobre mudar o mundo. É sobre fazer o nosso melhor para deixa-lo como está.
   Ela me olha de um jeito estranho. Volto a olhar para frente.
   - Nem pense em tomar mais um gole. Isso é uma desculpa fraca pra uma pausa e você sabe disso.
   Eu sabia.
   - Isso também não foi muito melhor, sabichão. Além do mais, você já usou esse truque antes. Tô começando a achar que tu quer confundir as pessoas de propósito.
   - Muito bem, acho que já provamos o quanto eu não sou um bom escritor. Agora, você quer ou não ficar bêbada?
   - Já pensou que eu talvez só quisesse participar de uma boa história pra variar?
   - Se é o caso, não deveria ter vindo parar na minha.
   Olho para os últimos goles que restam no copo. Não consigo mais me lembrar se havia um copo ou uma garrafa. Estamos bebendo a tanto tempo que a garrafa me parece a opção mais razoável, mas me decido por manter com o copo por questões de estilo.
   - Por que você está aqui?
   - Você sabe o porquê.
   - Sim, eu sei. Mas eles não.
   Se era realmente um copo, ele deveria estar terrivelmente perto de acabar, então não sinto o mínimo de remorso ao ouvir o barulho seco dos cacos contra o assoalho. Não sei se o fiz de propósito nem se ela o fez. De qualquer maneira, nenhum de nós se preocupa em recolher os cacos.
   - Nunca fui muito bom com esse tipo de coisa. Finais, quero dizer. Nunca aprendi a maneira certa de me despedir daqueles que eu gosto. Tudo acaba saindo... falso. Como promessas quebradas. E agora... agora parece que não há mais tempo pra nada.
   - Não se apegue a clichês. Não agora. Não combinam com você.
   - Me faça o favor. Minha vida inteira é um clichê de mau gosto. Mas quer saber? Clichês existem por uma razão: pra algumas pessoas, eles funcionam.
   - Mas não pra você. Nunca funcionaram. – Nos encaramos por mais tempo do que eu acredito ser humanamente possível, enquanto eu me afundo naquela íris castanha. – Eu acredito... não, eu sei que você pode escrever algo melhor que tudo isso. Algo melhor do que essa dor.
   - Melhor? – Rio descarada e amargamente. – Essa dor é a única coisa que me lembra que eu estou vivo! É a única coisa que me faz levantar de manhã e a única que me faz desejar ter ficado na cama. Isso – gesticulo com os braços, apontando para o bar. – foi tudo o que me restou. – Acendo outro cigarro – Se não pela dor, pelo quê?
   Não consigo dizer se ela está chorando ou não, mas sei que ela está triste. Mais triste do que eu jamais me lembro.
   - Por algo de bom. – Ela se levanta e joga algumas notas encima do balcão. – E se você não achar algo do tipo, apenas... apenas procure por algo melhor. Melhor que tudo isso.
   E é isso. Sem palavras calorosas. Sem lágrimas de nenhuma das partes. Tudo o que éramos um pro outro acaba ali, sem nenhum dos dois sequer saber o quanto destruiu o outro. Tudo o que ela esperava que eu fosse, tudo o que eu sabia que ela já era, tudo que jamais poderia ser sobre nós dois sai por aquela porta com passos calmos e gritantes.

   Eu tomo mais um gole.



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