Umbra Crucis






Post para se distrair um pouquinho! Escrevi esse conto no meio de uma palestra "super interessante" na faculdade em que eu estava morrendo de tédio. Dei a ela um nome latino retirado da música Diem Ex Dei do Globus, coisa de quem estava sem nada pra fazer, mas que até ficou legal... afinal, o amor sempre termina assim, né? Espero que curtam! 

Era tarde. O tic tac do relógio e a brisa que provocava os sons fantasmagóricos na janela eram os únicos sons que se podia ouvir no interior do aposento, não havia mais ninguém ali. Ela sabia. Assim como sabia que ninguém apareceria. Silêncio. Ela estava acostumada com ele, era seu hábito, sua rotina, seu espírito. Não era boa em interações, só lidava com palavras “físicas”, não verbais. Era uma de suas principais falhas. Sua metade falha. Não iria demorar, estava tão perto, ao mesmo tempo em que era tão errado, mas que importava? Poderia ser egoísmo, talvez, mas àquela altura ela não se importava mais.
Calmamente, ela se moveu, os olhos claros, pálidos como o céu de verão, se fixaram na foto sobre o criado mudo, rostos amorenados sorriam para a câmera, atrás deles, o céu azul e o sol alto faziam o plano de fundo adequado para aquele dia feliz. Aquele foi um dia feliz. Por que a felicidade era algo tão volátil? Tão frágil e quebradiço que parecia extinguir-se com um suspiro mal posto. Como ela pudera acreditar em utopias? Como pudera ser tão tola? Odiou-se por aquilo, sua inocência era tão densa que ela tornara-se cega e jogara seu coração no espinheiro.
Riu. Uma risada insana, amargurada. Amor. Como alguém poderia acreditar naquilo? Patético. Tirou a blusa, as marcas ainda abertas em suas costas sangravam, o torpor era quase alucinógeno, uma lágrima solitária cruzou a terra pálida de seu rosto. Estava acabando. Pontos escuros surgiram em seus olhos, ela estava perdendo as forças, mas que diferença fazia? Não já havia perdido tudo? A força era o que menos lhe importava. Levou, com certa dificuldade, a mão até uma das feridas, e sentiu o toque viscoso do sangue fresco, ao mesmo tempo o toque áspero do que secara em sua pele maculada pela violência. Era o preço a pagar por buscar o inexistente. O amor não existia, mas a dor e a mentira eram reais.
Era início de Novembro. A neve já cobria a maior parte da cidade, branca e pálida como a pele dela. Um olhar em volta lhe revelava toda a beleza que a maioria das pessoas não conseguia enxergar. Ela sabia porque estava ali, decisão, inclusive, que ela não tomava, mas cumprir ordens era uma de suas obrigações. Não gostava, mas não se importou. Proteger. Foi o que lhe haviam dito para fazer, mas agora, tão longe de casa, parecia algo ridículo, sem importância. E então ela o viu. Os cabelos castanhos caramelizados que caíam-lhe pelo rosto, cobrindo-lhe também o pescoço, pouco acima dos ombros largos, os lábios bem desenhados que escondiam um sorriso de dentes perfeitos, as orbes negras e intensas que eram incapazes de vê-la, podia parecer impossível, mas ela sentiu algo vivo no seu peito.
Proteger. Logo deixou de ser obrigação, passou a ser necessidade. A necessidade incontrolável de estar perto, de ouvir a voz cadenciada e grave, os olhos meigos e ternos cheios de uma certa dose de travessura que a faziam sentir confusa, ela podia jurar que algo dentro dela acelerava. Mas era impossível, ela não era assim. Aos poucos, a necessidade de ser vista por ele aumentou, ela queria ser notada, queria senti-lo, queria que ele olhasse para ela e não mais através dela. Queria ouvi-lo chama-la mesmo que ela não tivesse, de fato, um nome. E ela o fez. Desistiu de tudo por ele, lutou bravamente contra si mesma e contra suas leis para aproximar-se. Mas ele a enganou. Usou-a friamente e logo em seguida desapareceu. Rompeu suas promessas e seu coração em milhões de pedaços. Coração. Sim, parecia impossível, mas ela descobrira ter um no momento em que ele foi partido.
O clarão intenso tomou o cômodo.
A luz cegante não a incomodou, ela esperava por eles. A luz era parte dela, assim como, agora, também a escuridão. Não esboçou uma única palavra ou qualquer resistência. Passara a vida toda desejando sentir o amor que os humanos eram capazes de cultivas. Agora estava condenada. Os humanos não sabiam amar, concluiu, pois o amor não existia. Eles tinham olhares pesarosos, estavam tristes pelo destino que a esperava. Quem era ela para dizer que os homens não eram capazes de amar? Os anjos também não foram feitos para o amor. Suas asas se perderam, seu coração fora arrancado, seus sonhos destruídos e seu destino selado. Tudo porque ela se arriscara na utopia de conhecer algo inexistente, porque crera no folclore que os humanos usavam para justificar suas vidas. Ela descobriu que o amor por alguém pode te destruir e, em sua teoria antiga, sua crença, amor não destrói.
Mas não havia amor. Não existia.
Ela caminhou para a luz. E então...
Escuridão.


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