Mitologia





Já me vi com os mais loucos possíveis. Mas agora poderia estar com o mais louco possível. Era impossível que alguém já houvesse vivido o que ele contara viver. Assustava-me a cada palavra dita: imaginar cenas trepidas de ardilosas discrições que mais pareciam um roteiro bem formado. Assim, ele me era um mistério. Uma pérola que me irradiava enquanto eu acreditava em suas contagens de vivencias. Fazia-me voar e voar por horas crendo o quão houvera sido difícil a vida daquele ser.
 Encantara-me pelo modo de falar, pela beleza contida e nada disfarçada. Inspirava-me sensualidade ao olhar, e calor ao tocar. Dignava-se com os contos. A cada peça falada uma volta ao passado vivido e irreal.
 Fora real até quando eu acreditara. Quando tudo começou, tudo que fora dito assombrou-me e quase me velou. Morreria de amor. Mas que amor fora esse que não conseguia enxergar o que era verdade?
 Ele dignificava-se. Ele me bebia. O jogo começara a ser jogado, contudo um oponente apenas em campo. O outro entorpecido de amor estava, e perdeu-se; eu me perdi em suas palavras. As minhas próprias nem sabiam como agir. Um outrem qualquer tomara conta de nossa comunicação e tentara guiar uma relação que nem os próprios envoltos estavam conseguindo.
 Era uma espécie de treinador, mas não era o meu treinador. Era o dele e ele faria dele o que ele bem entendesse. E queria fazer de mim também. Mas eu fui forte e ele não venceu. As ordens: calou-se e eu acreditei.
 Fora então que aconteceu de novo, mas dessa vez fui atento à palavra e palavras não são apenas palavras, palavras colocadas com outras palavras transformam-se em palavrões. E cada ser tem seu próprio palavrão. O palavrão deles continuava o mesmo. Treinador e jogador, com o mesmo palavrão.
 Disse ter acreditado, mas quem acreditara foram eles. Teciam a teia cada vez mais fina. Eu já nessa levada era um inseto esperto. As aranhas queriam pegar-me. Queriam a minha teia de mentiras, mas eu não era uma aranha, eu não podia tecer uma teia como eles.
 Ele se calou. O treinador.
 O treinado continuou, sua vida fantástica escapava pelos lábios como pingos de saliva de uma fala mal feita. Eu prestava cada vez mais atenção ao seu palavrão e a sua mensagem. Mensagens novas, mensagens anteriores. Eu tinha certeza que sua teia estava quase no fim. Por fim o segundo viera falar comigo.
 Mais uma vez como um outrem que pegara nossa comunicação e fazia-se a bem entender. Eu destruí sua teia ao primeiro contado. Ele fora esperto e eu mais ainda. O treinado, o treinador e o outrem era a mesma pessoa e esse fora o jogo para me pegar, o jogo que, deveras, era uma teia imensa; uma rede que cairia sobre mim e exprimiria as minhas mentiras, mas a mentira que dissera não fora eu. E sim ele; sua mentira quase nos destruiu.
 Novamente suas gostas de saliva imunda escapavam de sua boca e ele detonava-me a cada palavra dita. Eu ‒ com minha esperteza adquirida ‒ só tendia a crescer, e cresci.
 Ele era mágico, porém eu era forte e poderia resistir sua força que me encantava. Eu o queria, mas seus personagens também o queriam.
 Suas histórias eram sua vida. E sua vida eram histórias não vividas. Nunca aconteceram. Seus personagens eram reflexos do caráter que ele almejara possuir. Os personagens nas histórias eram pessoas que ele gostaria de ser e suas histórias eram sonhos que ele gostaria de viver e isso era sua vida. Isso o alimentava. A mentira própria era tão forte que enganava o seu próprio criador.
 A mentira fora tão grande que se tornara verdade. Experiências que ele gostaria de ter vivido, viveu em sonhos e as guardou no passado. Lembrá-las era a principal tarefa de viver. E viver em suas mentiras que trouxe àquele mundo. Eu descobri tudo. Ele nunca fora nada, a não ser um bom estudante dedicado e inteligente.

 Ele pensara ter me enganado. Apenas enganou e mentiu para si próprio. Ele nos destruiu com suas mentiras mitológicas que já eram uma verdade. Sua mania no transtorno nos transformou num mito. E a mitomania venceu o jogo.




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