Do Real Ao Virtual



A manhã mórbida o despertava com o zumbido perturbador e doloroso. Ele, já cansado antes de abrir os olhos, levantava da cama lenta e vagarosamente. Suas costas pesavam com o que estivera a aprontar por esses dias. Sua cabeça pensava aquilo ser um vício novo que ele carregava. Contudo, era o vício mais prazeroso. Nunca houvera sentindo-se tão bem, apesar de ainda sim nada daquilo ser real e suas misérias continuarem as mesmas, naquele mês mais ainda.
 Tudo começara com uma simples ideia. A ideia mais fútil daquele mundo, mas para eles ela não fora. Suas gargantas ansiavam pela palavra certa que um dia séria dada. Era um circo armado. Ou melhor, uma armadilha daquilo que carregavam e buscavam no outro. Em si, porém, ainda estavam contidas, mas a revelação do outro os séria um prazer inestimável, ainda que fosse a verdade só deles e só para eles. E assim eles fizeram:
 Se os fosse verdade o que almejam o que fariam com tal? “Deixa pra lá”.
 Então, eis que criaram a conta.
 Naquela mesma noite esperaram. A foto falsa, os dados falsos, tudo criado entre os três. Mas esperar se tornara uma tarefa cansativa.
 Esperaram um, dois, três, quadro dias e nada de serem aceitos. Desistiram então com tremendo desprazer.
 E eis que a segunda ideia surgiu:
 ‒ Vamos jogar com o outro, ele também carrega verdades que nos são ocultas e disso eu tenho quase certeza, só precisamos o cercar e usar da mesma abordagem que usaríamos agora.
 Os outros dois logo atentaram-se e enroscaram-se no estopim daquela bomba que não se sabia qual a possibilidade de explodir.
 Ele, ao que parece ingênuo, aceitou o convite e logo fora abordado disfarçadamente pelos outros que desejavam seus segredos.
 Contudo, tudo teria que parecer real, fora então que surgiram os outros. Disso tudo, não fora só um que saíra enganado.
           
Depois de acordar e caminha vagaroso pela casa, ele seguia em direção à cozinha para aprontar o café. O relógio já apontava às dez horas da manhã, porém o silêncio ainda se mantinha nato e concentrado. Seus ouvidos ainda zumbiam desde a madrugada. Ao fim do café forte ele lembrara-se que estava sozinho em casa durante o mês, e sozinho em si como se sentia sempre.
 Para estar só, uma fora sua escolha, outro fora somente as pessoas que para ele nada ligavam. Não ‒ apenas poucos amigos, mas seu coração estava vazio. Faltavam-lhe palavras que atingissem sua libido e o despertassem desejos. Ele queria sentir-se, pelo menos uma vez, homem. Não só homem, mas um homem desejado. Um homem cercado por olhares que o devorassem. Mas este homem não tinha corpo, apenas o coração que não fora necessário para tal.
 E sua mascará se criou:
 Atrás de um perfil falso, com foto falsa, informações falsas, ele era falso.
 Lá ele tinha tudo o que buscava. Por trás do corpo de outro, ele tinha o que lhe faltava. Deveras, era dolorido pensar que nada daquilo seria real e que jamais ele poderia aceitar os pedidos que lhe eram feitos e ele com tanta vontade de aceitar, dispensava com tristeza, pois nada daquilo era real.
 A virtualidade lhe deu uma falsa chance de sentir-se desejado, mas não fora nada mais que isso: uma falsa chance de sentir-se desejado. E de fato ele sentiu. Os outros o desejavam pelas suas palavras e pelo seu coração, mas também o desejavam pelo belo corpo da foto falsa de onde por trás ele se escondia. E isso o tirava o encanto, certo de que a mínima revelação ele seria deixado para trás.
 Mas depois do café, ele apanhava o computador e se punha a sentar e lá passar o dia. Provava das conversas, do desejo, do prazer e satisfação solitários e logo via pela janela que anoitecera.
 Era tudo tão vazio.
 E mesmo depois do anoitecer, lá ele continuava a estar: sentado e com palavras e mais palavras sustentando uma ideia irreal. E até mesmo na madrugada ele continuava a estar.
 E isso perdurou. Perdurou até ele descobrir o segredo do outro. Até ter a verdade que buscava junto dos outros dois amigos. Sim, de fato tudo saiu como planejado, porém ele só não planejou a falsa ilusão de preenchimento de vazios que ele se envolveu. A teia era grande demais.
 Sabia o porquê, não conseguiria terminar aquele mês, mas haveria de sobreviver de qualquer forma. Já rira com os amigos as mazelas secretas que eles descobriram do outro. Já se deliciara com tudo aquilo, estava na hora voltar ao mundo real, de dar um fim aquilo.
 O deu.
 Fora simples: apenas apertar o botão de excluir e excluiu.

 Mas não excluiu a sua verdade: continuava o mesmo jovem gordo, inteligente, doce de coração e nada, mais nada, desejado por quem quer que seja. Desejavam apenas suas palavras numa noite chuvosa qualquer de domingo ao pé do ouvido, e o corpo de sua foto falsa, a qual ele se escondera atrás.



0 comentários:

Postar um comentário

 

Curta

Siga