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Prezado Mim Mesmo,
   Venho por meio de vós disposto a pedir perdão. Perdão por quê?, o senhor se pergunta. Perdão por vos selos a única alma viva que escutaria o que eu tenho a dizer. Pois sei que o mundo me ignoraria, como a um inseto que bate incessante na janela e que, caso me ouvisse, não hesitaria em esmagar-me na mesma hora.
   Então, caro senhor, peço apenas para que me escute, quando todo o resto não escutar. Não senhor, não sei se o mundo inteiro já falhou, apenas sei que eu estou falhando, e isso para mim é prova suficiente. Quando olho pela janela do ônibus, só vejo o mundo falhar. Quando olho nos olhos daqueles que amo, só vejo a vida falhar.
   Perdoe-me se vos pareço sentimental demais, mas a vida já me deu provas suficientes de minhas falhas, acredite. Eu vi a vida afundar nas periferias da grande metrópole, sob as luzes do fim dos tempos. Apenas olhei enquanto lhe roubavam a alma. Apenas aplaudi quando lhe sequestraram a razão. Mas chorei quando a esperança tornou-se vã.
   É preciso que acredite em mim, senhor. Eu não queria que nada disso acontecesse, para mais ninguém. Apenas queria ver a vida pagar pelos seus erros, não, risque isso, pelos MEUS erros. Achei que o mundo me consumiria com a culpa, a culpa da morte da vida, então fugi. Mas o mundo não veio.
   Descobri, caro senhor, que o mundo não se importa. Não se importa comigo e nem com nenhum outro. Sem a vida, acabei perdido, sem sentido, e não sei como voltar. Não sei como voltar para a vida que eu tinha. Não sei que faculdades reformar ou que valores resgatar. Se a vida realmente se foi, senhor, eu consigo lhe afirmar com todas as letras: eu gostaria muito mais de ser o cadáver que eu deveria ser do que o homem que sou.
   Temo que agora só me reste apenas uma certeza nessa vida, a de que o que me sobrou é tudo o que eu tenho e que tudo que eu perco é problema meu. E claro, sou-lhe infinitamente grato por você senhor, que me acompanha mesmo nos dias mais sombrios por esse inexorável vale das sombras.
   Atenciosamente,

   E. P.




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