O Mar de Alice




Alice morava perto da praia, mas morria de medo do mar. Tinha medo das ondas, medo do fundo, medo de tubarão. Preferia ficar na areia.
Alice era criança, mas não gostava de castelos de areia, gostava de desenhos na areia.
Desenhava tudo o que vinha na sua cabeça e da maneira que achava que era certo. Desenhava animais, pessoas, planetas, acontecimentos, sua visão sobre a vida.
Mas esses desenhos nunca duravam muito tempo. As ondas vinham e apagavam para sempre.
Alice tentava desenhar cada vez mais longe das ondas. Os desenhos até duravam mais algumas horas, mas nas noites de maré cheia, o mar vinha e novamente apagava suas emoções.
Alice tinha a necessidade de que algo se eternizasse na sua vida. Mesmo criança queria uma continuação, tinha um desejo de perpetuar seu amor à vida.
Mas o mar não deixava e Alice não via graça em desenhar em outros lugares que não a areia. Gostava de sentir cada grãozinho arranhar delicadamente seus dedos e outros entrarem por debaixo das suas unhas e ali ficarem como uma lembrança.
Passaram-se alguns anos até que Alice aceitasse que seus desejos por algo que fosse eterno eram pura ilusão, o acaso e o destino iriam sempre fazer do jeito deles e mudar seus planos.
Ela passou a não mais temer o mar assim que o entendeu. Entendeu a obsolescência que as coisas têm na nossa vida e que é pra ser assim. Aprendeu a não se apegar a ideias, opiniões, desenhos e pessoas, pois sabia que tudo um dia viraria um de seus desenhos que o mar iria apagar.
Alice passou a amar o mar do mesmo jeito que se encantou pelo acaso. Por não saber o dia de amanhã, pela vida sem bula, pelo não-controle de nada.
Ao invés de desenhar na areia, preferiu entrar no mar, encarar e se divertir com toda a incerteza do seu novo amigo.



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1 comentários:

  1. Parabéns Tati. Lindas palavras... by: Matheus (teatro)

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