Te Espero





Ao meio dia o despertador toca, Edwin já está no banheiro começando a se arrumar, escova os dentes até  ver o brilho neles, faz a barba com perfeição meticulosa e volta para o aposento principal para escolher sua roupa, abre a mala e levanta um a um os seus ternos escolhendo o mais apropriado. 
-Deve ser hoje, não pode haver erros. 

A uma hora em ponto Edwin esta na porta do saguão do hotel ,um porteiro já de certa idade abre a porta para Edwin e pergunta. 
-É hoje o grande dia Edwin 
-Talvez sim, talvez não, depende da sorte... 
-Seu taxi está esperando. 
-Obrigado Gustavo. 

 Edwin chega ao destino as exatas 14:23 e fica no taxi esperando até as exatas 14:29, levanta-se e sobe a galeria. 
-Boa tarde Edwin, pontual como sempre. 
-Ora, muito obrigado Raul, traga o de sempre, por favor. 
-Como desejar, com licença. 
Edwin contempla a vista dado que o bar onde está, fica em uma galeria avarandada no centro de São Paulo, na placa diz desde 1960 assim que a galeria metrópole abriu, era um símbolo histórico de um tempo onde elegância era tudo, o bar tinha linhas externas simples de acabamento em madeira clara ,seu interior era bem diferente com acabamento todo em mogno e um balcão gigantes em L, com sua parede bebidas forrada de garrafas de uísque de todos os lugares do mundo, mas Edwin sempre gostara de ficar na varanda, além de poder fumar la, ela sempre tem uma boa vista do ponto de ônibus e o estacionamento da Av São Luiz . 
-Aqui a esta a cerveja senhor. 
Edwin distraído responde superficialmente. 
-Obrigado. 
Barbara é uma funcionaria recente do N&G ,a quase um mês é colaboradora desse bar tradicional de São Paulo mas ainda não se acostumou, é tudo muito clássico, a decoração fora construída para não mudar, tudo tem de ser lustroso e amarelado como a 40 anos atrás e ela ainda não se decidira se gostava disso ou não. Barbara percebe a presença de Edwin assim que ele chega, se intriga com ele de imediato, então vai até Raul o funcionário mais antigo da casa: 
-Raul, quem é aquele cara que parece um galã de filme dos anos 70? Ele está a mais de duas horas na mesa só fumando, nem tocou na cerveja, já vi você trocar quando esquenta umas mil vezes ... 
Raul já ouvira essa pergunta mil vez,mas nunca se cansou de responder, afinal ,de todas as história que já ouviu em sua vida como garçom , aquela era a que mais lhe comovia ,se sentia um pouco mal por falar dele, sempre o teve como um amigo e não tinha certeza se ele gostaria que outros soubessem os seus motivos, mas algumas histórias são muito boas para não serem compartilhadas.   
-Aquele é o Doutor Edwin, é um cliente muito antigo nosso, ele vem aqui a mais de 20 anos , logo quando eu comecei a trabalhar aqui soube a história dele. 

- * - 

-Boa tarde Senhor, como posso servi-lo? 
Sorrindo Edwin lhe responde. 
-Boa tarde meu rapaz, por favor, nunca deixei que ninguém que me ajuda me chamasse de senhor, tenha bondade de me chamar de Edwin, traga uma original por gentileza. 
Raul atende-o prontamente, tem um apreço automático pelo homem, muito educado, bem vestido, era o tipo de pessoas que tinha prazer em servir no N&G. 

As horas se passam e Raul começa a ficar intrigado, o seu cliente não bebe, não entende como pode ter alguem que vai a um bar só pra fumar, mas ele não bebe nem mesmo um gole da cerveja, assim que ela esquenta, ele o chama e pede pra trazer um gelada e jogar aquela fora, ao anoitecer a curiosidade de Raul esta no seu auge e ele vai até a mesa de Edwin. 
-Olá senhor, desculpe incomoda-lo. 
Diz Raul envergonhado 
-Senhor não meu rapaz, Edwin, qual seu nome? -Pergunta Edwin com dura objetividade mas ainda sorrindo gentilmente. 
-Perdão senhor, digo Edwin, é Raul, muito prazer.   
-Ora o prazer é todo meu, o que deseja? -Edwin estende a mão e o cumprimenta. 
-Não quero ser intrometido, não pense que estou abusando da ousadia, mas me intriga o porquê do senhor pedir tantas cervejas e não toma-las, o porquê disso? 
Por algum segundos Edwin mantem o seu sorriso tradicional e encara Raul, pouco a pouco ele substitui por um semblante obscuro e responde: 
- Ora Raul, e uma pergunta muito boa, acho que eu nem sei a resposta mais. 
Edwin tira um papel,uma folha dobrada em quarto do bolso e a encara. 
-Essa foi a única coisa que minha ex-mulher deixou quando foi embora, ela não me pediu nada, só que eu viesse aqui todo dia 15 as 14:30 da tarde e lhe esperasse com uma cerveja gelada, engraçado, dizendo em voz alta parece ridiculo, isso foi a 2 anos... 
Raul parece ter sido atingido por um tremendo tapa ,seu rosto fica muito vermelho, ele mal pode conter a vergonha e até um pouco de raiva, vergonha por ele, e raiva da mulher. 
-E o senhor ainda faz isso uma vez por mês? 
Edwin o encara, guarda a carta de volta ao bolso, pega seu maço de cigarros e o acende numa longa tragada, solta a fumaça e o responde.  
-Religiosamente. 
Raul permanece em silencio, incrédulo. 
-Já amou alguém de verdade Raul? Se um dia amar vai entender os meus motivos. 
Raul ligeiramente comovido o reverencia com um movimente leve de cabeça, Edwin retribui e Raul se retira. 


- * -
  
Edwin termina seu cigarro e olha o seu relógio de pulso (22:00), tristonho pega a carta de sua ex-mulher do bolso e lê 


Olá meu amor,  
Estamos casados a 3 meses e esses tem sido os melhores meses da minha vida,  
Nunca aprendi tanto, nunca amei tanto, mas nem tudo são flores, 
Nunca lhe respeitei, vivo ao seu lado pensando no mundo. 
Agora que tenho dinheiro, não posso viajar, pois não iria sem você que trabalha feito louco. 
Agora que sou jovem não saio mais a noite, sei que você não se incomodaria, mas não quero acabar por desrespeitar-te. 
Tenho aberto mão da minha vida pelo nosso amor, e não acho justo, nem com você, nem comigo, por isso vou lhe deixar, tenha consciência que te amo demais, e nunca vou amar novamente, não como amo você, mas eu tenho uma vida para viver, perdoe o meu egoísmo, um dia eu volto, pra ser mais exata, dia 15 as 14:30 Na N&G.  

Com todo amor,  
Alessandra 



Dos olhos de Edwin escorre uma única lagrima, abre a carteira, deixa duas notas de 100 reais sobre a mesa, pensa em toda a vida que dedicou a esperando alguém, nunca havia se perdoado por ter a deixado partir, sentia que era tudo culpa sua, mas algumas coisas são simplesmente irremediáveis, não podia dedicar o resto da vida atrás de um fantasma do passado, por mais que a amasse ela partiu, e agora era hora de deixa-la ir novamente, dessa vez para sempre. 
Edwin levanta-se , pega a carta, e com seu isqueiro a incendeia, permanece mais alguns segundos a vendo queimar no cinzeiro antes de sair. 
-Você se atrasou demais amor.



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