Página Três






Eu caminho por um túnel sombrio, sozinho. 
 A solidão é uma suposição, já que mal posso confiar nesses olhos cansados e senis para ver o caminho a minha frente, quanto mais para detalhes como a solidão. Eu apenas caminho em frente, um passo atrás do outro. 
 Isso pode ficar difícil, não é mesmo? Ou até mesmo impossível, eu diria. Caminhar, digo. Você dá um passo depois do outro depois do outro depois do outro. Você acaba se tornando melhor nisso do que gostaria. Pode até não ser difícil, mas pode ficar repetitivo. E não ajuda em nada quando você apaga o arquivo inteiro por acidente e não tem uma cópia do manual. 
 Olho para as luzes acima da minha cabeça. Você quase consegue imaginar que há Deus ali, escondido entre o concreto, dando passos na luz. Ou será que a luz é o espaço entre os passos de Deus? Nunca fui muito religioso, então não sei por que imaginei isso. Só sei que meus passos acompanhavam as luzes no mesmo ritmo e sentido. Unidirecional. Monótono. Etéreo. 
 Acho que eu estou indo mais rápido. Agora não sei mais se estou caminhando por um túnel sozinho ou se estou andando de carro com alguém. Como não há nenhum volante em minhas mãos, espero realmente que se for um carro, que haja alguém no banco do passageiro. Ou quem sabe esse seja o meu destino, morrer de forma patética em um acidente de carro e virar notícia na página três. Mas quem eu estou enganando, uma nota de rodapé resumiria perfeitamente bem a minha vida. 
 Seja qual for o meu destino, ele se aproxima a mais de 180 quilômetros por hora. 
 Percebo que não estou mais sozinho e que talvez nunca tivesse estado. Há pessoas ao meu lado, umas caminhando, outras correndo. Elas são apenas borrões, desprovidos de feições, mas não de sentimento. Umas andando pra frente, outras se afastando. Algumas apenas paradas, indecisas, ou até indiferentes. Não importa. Não conheço nenhuma delas. Pessoas que eu posso ou não ter visto. Que eu posso ter amado. Que eu possa ter odiado. 
 As luzes se sucedem rapidamente, como se Deus estivesse com medo de ficar para trás e perder o que quer que está para me acontecer. Talvez eu esteja em um filme de ficção científica barato, entre alienígenas e astronautas. Me pergunto se eu já usei drogas, mas a resposta intuitiva vem na forma de "sins" e "nãos". Me concentro. Olho nos arquivos na minha frente, mas são muitas testemunhas e depoimentos. Muitas coisas que não levam a nada. Mas é um crime bonito. 
 A velocidade aumenta até o ponto em que eu percebo uma afirmação tão antiga quanto verdadeira, que talvez estivesse dentro de mim há mais tempo do que eu me lembre: eu não quero ser isso. 
 Não quero ser uma nota de rodapé. 
 Não quero ser um suspiro no meio do vendaval. 
 Não quero ser só mais um borrão. 
 É com esse pensamento que eu me viro e agarro o volante das mãos dela. Ela não tenta resistir. Apenas grita. Me sinto culpado por isso, mas não há tempo. Estamos na velocidade máxima e não há futuro que eu possa ver. Eu viro bruscamente o volante na esperança de reverter o sentido antes que seja tarde demais. 
 Mas justo aí, é tarde demais. 
 A página três surge na forma de puro concreto, liso e sólido, e eu quase posso ver o meu sangue ali, um parágrafo mal redigido e seco depois de tanto tempo. E nos meus últimos momentos, me lamento 
profundamente por trazê-la comigo. Eu me viro com um pedido de desculpas que talvez nem saísse direito, mas eu não ligo. Eu preciso tentar. 
 Quando me viro, vejo seu rosto, simples e belo. Mas não presto atenção nisso. 
 Ela não está mais gritando, e eu percebo o porquê. 
 Ela acordou. 
 Ela está viva. 
 E em seus olhos... lá no fundo, eu vejo. 
 Futuro.   
 E soa tão bonito. 




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