No Entardecer




Já havia acabado há tanto tempo - pensava.
Estava em um lugar maravilhoso. Talvez realizando um dos grandes sonhos. A família estava toda reunida. Amados. Soara com tremenda falsidade, mas com paciência se engole.
O cruzeiro estava no entardecer. O céu alaranjado nunca fora tão lindo quanto antes. Apenas nos momentos em que busquei inspiração: na orla tão movimentada - o alaranjado do céu no entardecer, o cálido sol e o ventar que era mais forte - fechavam meus olhos me faziam-me viajar com a poesia.
Mas agora estava lá, com minha família. Apoiados no parapeito do navio, observávamos o mar, abraçados.
Fora quando tudo começou.

Talvez já nem soubesse mais o seu nome. Levei um tempo até relembrar. Porém, sabia que era ela. Seus cabelos voavam ao vento, pretos e compridos. Ela encarava - próximo de mim - o mesmo entardecer que eu encarava com minha família. Sua concentração era nata, o único movimento que produzia era o da respiração lenta e cautelosa. Assim como eu bem relembrava, era ela. Por vezes até pensei ser frieza, ou, quem sabe, apatia. Mas não, esse era seu jeito.
     Fui acometido da lembrança do assalto, eu estava nervoso, mas ela extremamente cautelosa, soube agir da melhor maneira. Lembrei-me das pequenas discussões que marcaram um ano e meio de relação, ela sempre calma e muito saudosa. Eu nervoso. Lembrei-me do fim: ela, nada diáfana, nos permitia ver o que sentia; eu desmoronado.
     Observei mais um pouco de sua silhueta na luz. E também o vi. Repousado em seus ombros, o rapaz magro e de cabelos encaracolados. Aparentava calma também, eles tinham paz - pude rapidamente perceber. Ela, de repente, voltou-se a ele e o beijou. No meio peito o sol acalentou algo. Eu não soubera dizer o quê. Mas estava forte, estava batendo tão depressa.
    De mãos dadas eles caminharam pelo corredor, em minha direção. Anestesiado a vi passar, ela encarava o horizonte com força, ele o chão, e eu os olhos dela. Ver suas mãos dadas fora uma pontada: inveja, ciúmes, quem sabe? De quê?
Ela não me reconheceu, e eu com uma das mãos levantadas pronta a cumprimentá-la... tive certeza.
A certeza que jamais tivera.
Ela passou direto por mim.
E eu ainda a amava.





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