Às Três Horas da Manhã





Às Três Horas da Manhã


O brilho do globo nunca estivera tão vivido. Tão alucinante. Contagiante. Eu estava encostado no bar, cotovelos sobre o balcão e com a cabeça completamente vazia em pensamentos. Os olhos vagam pelo vazio, o vazio de pessoas que agora me circundava. Tão vazio quanto a noite em que eu estava. Tão vazio internamente que quem quisera saber de mim só deveria saber que naquela noite eu estava tão vazio que sozinho encontrava-me.

Caminhei a passos lentos para fora da casa barulhenta e vazia, cambaleei pela rua estreita e, também, tão vazia quanto eu. Soturna, mas não fora capaz de me amedrontar; desemborquei numa praça que não estava tão vazia. Estava cheia de gente, cheia de gente sobre a chuva fina e vazia que nos estava a contemplar. Às três horas da madrugada.

Às três horas da madrugada!

Era tão absurdo, eu desejara estar sozinho, tão sozinho que abrandei meus passos e fora em direção não oposta, mas de esgueira. Não tão grande, nos afastava uma grande distância, ainda sim, eu não estava mais só. Estava com eles, mesmo desejando estar só. Unidos gritavam palavras de efeitos, corriam e eu ainda lembro-me de ter ouvido grandes barulhos...

Às três horas da manhã!

Sob chuva!

Os superiores estavam indo contra eles; estavam, ainda, numa grande mistura enlouquecedora. Eu passara tão ereto e de pose respeitosa para não sofrer regalias que nem parecia ter bebido tanto. Ou sim, talvez eu não fora atacado por estar visivelmente embriagado.

Parei, contudo, numa mesinha de concreto na praça e acendi um cigarro. Puxei a fumaça com tanta força que ela me aqueceu e eu senti-me ligeiramente sozinho, como gostaria de realmente estar. Mas não estava; olhei com olhos cerrados a confusão, lançavam em todas as direções gases que faziam mal aos olhos...

Às três horas da manhã!

Passei a mão no rosto e reparei que esquecera os óculos na casa; voltei, apesar de toda a minha confusão. O chuviscar gélido cortava a minha pele, mas eu nem estava com frio. Apesar de sentir não poder respirar devidamente.

Entrei por onde saí e mais uma vez estava no local vazio, depois da rua vazia; não estava sozinho, estava cercado e perguntei sobre meus óculos: eles me foram apresentados, quebrados.

Droga! Precisaria trocar as armações.

Voltei à porta e pensei em minha casa, mas estar pela rua...

Às três horas da manhã!

...dava-me uma sensação boa de liberdade. Como a fumaça que invadira meus pulmões e me aquecera: aquela sensação invadia-me e aquecia-me. Eu queria estar lá, não querendo. Estar pela noite chuvosa, não tão fria, pelas esquinas...

Às três horas da manhã!

...assustava-me, porém era um jeito nato de ser eu; eu sem precisar disfarçar-me de boa gente e de sorrisos calorosos. Era eu e ninguém mais, daquela noite nada levaria; era eu e eu queria continuar sendo eu e mais ninguém. Estava só, com eu; eu estava lá e continuaria lá até o ponto em que a preocupação e os bons modos não atingiriam o meu eu com eu mesmo e eu pudesse degustar do meu eu da forma mais degustosa e minha...

Às três horas da manhã!

Eu acordara.



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