Sensações vazias tão cheias

by - quinta-feira, abril 30, 2015



Sensações vazias tão cheias...
Frio.
Quem poderia imaginar que um dia, gradativamente eu chegaria ao fundo do poço como sempre havera previsto?
Dor.
Não consigo controlar as punhaladas que meu próprio coração me causa ao bater. Sangro, calada, sem chance sequer de gritar por socorro. Mas grito silenciosamente no suplício que eu mesma me infligi.
Medo.
O escuro me cerca. É tão familiar e ao mesmo tempo tão assustador. Durante toda a vida eu cresci envolta em trevas disfarçadas de luz, usei sorrisos que não me pertenciam, derramei lágrimas que ninguém e todo mundo viu. Vivi em uma cela sem janelas, açoitada pelo meu terror à vida.
Apatia.
Para onde foi a minha força? Que fiz eu com a minha vida? Para onde estou caminhando? Vou chegar a algum lugar? Não me importa mais. Essa é a principal dificuldade. Quando você perde o interesse por coisas que antes amava, por coisas que antes te faziam sorrir, mesmo que você não tivesse vontade de fazê-lo, então você percebe que algo em você perdeu o sentido.Já não importa se é dia ou se é noite, cada segundo mais eu me prendo, me isolo, me cerco de escuridão.
Lágrimas.
Tão antigas, tão novas, tão familiares... cresci acompanhadas por elas, nasci à sua mercê. São minhas amigas tais quais as palavras, mesmo que agora tão raras, tão presas, tão letais. Quando elas secaram e se tornaram esse maremoto dentro de mim?
Confusão.
São dias presa em meu quarto. Isolada dos meus pais, da minha irmã, dos poucos amigos que eu sequer sei se são mesmo reais... quem sou eu, afinal? Que espécie de pessoa eu me tornei? Os dias passam, as oportunidades desaparecem tanto quanto a minha esperança, insistente peça que ainda me mantinha de pé, mas agora me vejo sozinha, descrente, abandonada pela minha própria fé. Oca, escura, dolorosa, uma garota lacrimosa sem lágrimas, um recipiente desprovido de matéria. Que será de mim? Incapaz de continuar a caminhar com minhas próprias pernas, dependente de alguém para tudo, incapaz de cuidar de mim mesma, de ser o que eles queriam que eu fosse: normal.
Solidão.
Amiga antiga. Amiga sincera. Amiga real. Meu futuro ao seu lado me aguarda, sombrio e gélido com seus braços espinhosos prontos para me abraçar, me envolver em sua melancólica felicidade em paredes brancas seguras, em divisas distantes do meu pensamento conturbado pelo medo e a apreensão dos dias que se seguem... curvo-me, tremo, grito, mas ninguém me ouve, os céus escurecem e a chuva cai sobre minha vergonha, mas não é o bastante para lavar minha alma ensanguentada. Nada pode pará-la. Até quando eu vou insistir em viver de ilusões?
Silêncio.
Quietante. A música cessou. Os sonhos adormeceram com o fechar dos olhos. Tão fácil, tão frio, tão rápido. Imersa no frio, presa na dor, paralisada pelo medo, refém da apatia, afogada em lágrimas, aturdida pela confusão, vítima da solidão e adormecida no silêncio... Sensações vazias... tão cheias, tão reais... quase palpáveis. É tudo que me resta ser, tão vazia e tão cheia... tão inteira e tão despedaçada, tão sozinha no meio de uma multidão, muda mesmo com voz. Incapaz de ouvir os gritos do silêncio que meu coração clama, cega para qualquer futuro verdadeiro, apavorada demais para viver.
Talvez seja esse o meu destino. Morrer mesmo enquanto respiro.

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2 comentários

  1. E as vezes tudo o que nos resta são as sensações, que podem está carregas de lembranças boas, ou não! Belo texto!

    joandersonoliveira.blogspot.com.br

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    1. Olá, Joanderson! É verdade... obrigada pelo comentário, fico feliz que tenha gostado do texto! Beijão.

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