Pensando

by - quinta-feira, abril 23, 2015



Pensando

Já faz um tempo eu tentei me convencer de que o amor é uma piada sem graça. Uma ideologia que, na verdade, não é algo consistente e possível. Isso não anula o fato de que o meu coração teimoso insiste em querer, vez ou outra, interessar-se por alguém. A diferença é que eu me tornei muito boa em deixar de ouvi-lo.
Hoje eu encontrei com minha última "paixonite" perdida... é, foi interessante. Nós não nos falávamos ha algum tempo, mas ele queria ser meu amigo, só que eu era intransigente e orgulhosa demais pra isso - tá, ainda sou - mas, em novembro do ano passado, coloquei essas implicâncias de lado e vi que, se ele queria ficar perto com a minha amizade, eu poderia perfeitamente ignorar os sentimentos que eu achava sentir por ele. Hoje em dia, fico meio nervosa - mas bem menos que antes - e um pouco desconfortável na presença dele, mas não beira o absurdo de antes quando eu mal podia respirar. Acho que eu já me repeti tanto que sou insensível, que não existe amor, que relacionamento é uma perda de tempo e que eu nunca mais vou me apaixonar que acabei me convencendo disso, chegando ao ponto de tratá-lo e agir como se ele fosse mesmo só um conhecido meu, alguém com quem eu partilho certo grau de simpatia. Nada mais que isso. Foi bom perceber esse avanço nos meus sentimentos, mesmo que isso implique dizer que, de certa forma, eu cresci.
Hoje foi um dia de solilóquios. A semana santa esta aí, é, basicamente já chegou, e isso me remete muito a quando eu era criança. Fui criada em uma igreja católica, desde sempre meus pais me guiaram a seguir os preceitos cristãos, fazer catecismo, primeira comunhão, frequentar a missa, fosse aos sábados ou aos domingos e, a semana santa era sempre levada muito a sério. Domingo de ramos íamos à procissão que percorria o centro da cidade, sexta feira santa era um dia de silêncio e tristeza, pois nós imergíamos de tal modo no sofrimento de Cristo, que parecia mesmo que voltávamos os mil anos atrás quando ele sofreu por nós, por nossa causa. A vigília pascal era meu momento favorito. Ficávamos na praça, em frente à igreja, eu sentava nos pés do meu pai ou da minha mãe enquanto a missa, que ia até a meia noite, durava. E eu vibrava com os fogos da primeira hora do dia, celebrando a ressurreição de Jesus. Eu ainda era inocente para isso.
O tempo passou, eu fui crescendo e, aos poucos, meu pai foi se fechando no mundo dele. Tomou ódio do clero, se tornou intransigente e ranzinza. Mesmo assim, minha mãe e eu sempre íamos à missa, pelo menos na páscoa. Tentei me crismar, quatro vezes! Mas nunca conseguir. Motivo? Interação. Era quase uma norma dos formadores fazer com que você interagisse, se misturasse, se mexesse propriamente. Mas essa não é parte da minha personalidade, eu sou tímida, não gosto de receber atenção ou de holofotes sobre mim, interagir com outras pessoas é quase o mesmo que me mandar parar de respirar por uma hora. Não sei em que momento, exatamente, eu comecei a me afastar... não apenas da igreja, mas da fé. Nós vivemos em um mundo que está no final, não há como negar isso, estamos nos últimos respirares da terra, matamos uns aos outros por termos crenças diferentes, opiniões sexuais diferentes, pensamentos diferentes, classes diferentes, religiões diferentes... parece que tudo é motivo para guerra, razão para matar. As pessoas não acreditam mais em Deus, em Alá ou seja lá como o chamem em outras religiões. E, quando acham que acreditam, o fazem com fanatismo e não com fé, com a verdadeira fé. Eu parei de frequentar a igreja como antes, minhas orações fervorosas e sinceras foram se tornando rotineiras e quase mecânicas, aquela chama no meu coração, aquela força que me fazia clamar a Deus por paz, por amor, por proteção, foi aos poucos se apagando.., se tornando uma brasa quase morta. E foi nesse momento que eu me tornei o que sou hoje: uma garota vazia.
Não que antes eu fosse cheia. Mas, pode parecer estranho pra você, eu tenho falta do meu mundo desmoronado, do meu casulo negro de proteção. De quando eu dizia que uma música era boa quando ela me fazia chorar a ponto de não conseguir respirar, de abafar os gritos com o travesseiro, de quando eu queria ser meiga como a Hilary Duff, mesmo que meu sorriso chorasse. De quando a minha maior preocupação era a prova de matemática. Saudade de quando eu chorava todo tempo, todo dia, mas era estranhamente mais feliz.
Hoje estou na faculdade. Me sentindo velha só porque passei dos vinte, me angustiando por ter que dar aula a uma professora exigente que me marca desde a escola, precisando suportar um lugar onde eu não me sinto bem e ainda sendo pressionada pela minha mãe a fazer algo que eu odeio. Desde que eu iniciei o tratamento psiquiátrico, o mundo à minha volta mudou de curso. Eu larguei a algum tempo, mas parece que os resquícios dos efeitos continuaram sobre mim, como quando você se intoxica, não conseguir me libertar totalmente e acho que nunca mais vou ser a mesma, não sei se isso é bom ou ruim. Antes, eu chorava, eu libertava a dor que estava reprimida no meu peito. Hoje não consigo fazer isso, como se as lágrimas tivessem congelado na minha garganta, formando uma bola cheia de espinhos que rasga de dentro pra fora e, mesmo sufocando, eu não consigo expelir. Eu não sei quem eu sou hoje em dia, que tipo de pessoa eu me tornei e nem se ela é boa ou ruim. O tempo todo eu me sinto incorreta, vazia, estranha, deslocada. Ando tropeçando pela vida, sem rumo, com medo do que vem quando eu virar a página do livro... como se eu tivesse perdido minha identidade no meio do caminho, o problema é que eu não posso tirar uma segunda via de mim mesma.


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