John - Parte V: Vergonha

by - quarta-feira, abril 29, 2015






Vergonha

John não gostava de sair comigo. Ficávamos apenas em casa, sem contato com mais nenhum outro ser humano. Eu não tinha amigos, minha vida era completamente dependente de John, então não tinha quem convidar para nos visitar – mas John também não fazia questão de trazer nenhum dos deles.
Por muito tempo, eu achei que ele tivesse vergonha de mim – por outros tantos, achei que ele estivesse me traindo. Mas nenhuma das duas hipóteses parecia acertada, porque nenhuma delas explicaria o fenômeno John por completo.
Uma vez, logo quando começamos a nos envolver, John me levou a uma festa do trabalho, e não falou comigo a noite toda. Olhava-me feio toda vez que tentava me aproximar e sentia, pela forma que conversava com seus colegas que não me queria ali. Tinha vergonha porque eu era de outra condição social, talvez.
Quanto à traição, ele teve seus casos por um tempo – eu conseguia sentir o perfume das outras com quem ele se deitava quando chegava em casa, mas engolia meu orgulho e não falava nada. Não duraram muito; o padrão da canalhice provavelmente não agradou o centro de controle e ele logo trocou para outros padrões.
Mas a vergonha se manteve.
Quando pergunto por que raios nunca mais me levou a nenhuma festa ou porque nunca convidou nenhum amigo para nos visitar, ele não responde. Sequer me olha. Finge que está entretido lendo, mas eu sei que não está. John apenas lê em voz alta.
Eu jogo o travesseiro em sua direção, irritada. Detesto quando ele me trata assim – e detesto mais ainda o fato de ser seu objeto sexual. É apenas isso que eu sou, praticamente uma boneca inflável. Não foi isso que eu pedi pra mim. Meu ideal de vida não era ficar presa a um cara doido, que não sabe quem é, para quem eu sou apenas a mulher que ele come de noite.
Sei que ele está me analisando atentamente pelo canto de olho. Detesto esse padrão esnobe que ele resolveu usar justo hoje. Justo hoje que eu quero toda sua atenção. Jogo o outro travesseiro e ele não se importa. Não se importa com a minha raiva, não se importa com meus sentimentos.
Levanto-me da cama irritada. Vou embora dessa casa. Vou para qualquer lugar, a casa de uma amiga, embaixo da ponte. Qualquer lugar é melhor do que conviver com as loucuras dele. Eu cansei de seus padrões, cansei de como me trata.
Saio do quarto, irritada, direto para o telefone. Qualquer pessoa serve.
Não me lembro de nenhum número.
-Já acabou com o show? – John veio atrás de mim, os olhos ainda no livro em suas mãos. Olho para a porta da entrada, pensando se valia a pena ir embora. Deixá-lo para trás de uma vez. Detesto John e seus padrões, mas não sei para onde ir. Sou obrigada a engolir meu orgulho, mais uma vez. Volto para minha cama e cubro a cabeça. Não quero que John veja meu sofrimento. Mas ele me conhece. Deita-se ao meu lado e me abraça. – Amanhã vamos jantar fora, pode ser?
Não sei se devo acreditar nesse John. Não sei se John vai acordar amanhã ao meu lado. Não sei sequer se vou acordar viva. Mas eu prefiro ter fé. Prefiro crer em um novo dia, em que ele será o John que sempre sonhei.




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