Seu Personagem



Seu Personagem
Luisa Lopes, 2014

Música Tema:
Miss Movin On - Fifth Harmony




Eu nunca escrevi sobre você, não é? Não como já escrevi sobre todos os outros, em cartas, em desabafos de palavras não ditas. Não que eu não quisesse escrever, não tenho nenhuma birra contigo, nem nada do gênero. Acho que apenas te deletei completamente da minha memória. Sequer um personagem sobrou de você.

É engraçado lembrar quão apaixonada eu fiquei logo que te conheci, e como praticamente fiquei de quatro por você. Estava claro para o mundo inteiro; tão claro que até você já sabia antes mesmo de eu abrir o jogo... Antes mesmo de eu mostrar as cartas, que você já conhecia.

Logo depois que todas as minhas ilusões foram destruídas pelo seu “quero apenas ser seu amigo”, seguido de um abraço carinhoso, que quase me matou, eu procurei conversa após conversa, olhar após olhar, dia após dia, pelos sinais que eu não vi.

Até hoje não os encontrei.

Parei de viver pensando nisso, pensando em onde tinha me enganado, tentando descobrir o que eu fizera de errado. Eu não podia ter me iludido tão fortemente. Os sinais estavam tão claros pra mim – como poderiam ser mentira?

Foram meses bem sombrios para mim – tão sombrios quanto enevoados, tanto que sequer me lembro do que me ocorreu naquela época, e nem faz tanto tempo. Sei que depois que decide me desvincular de qualquer sentimento por você, eu apaguei tudo. Todas as memórias falsas e as ilusões verdadeiras. Todos os sorrisos e olhares; todas as piadas e conversas no banco após a aula. Tudo foi deletado como se sequer tivesse existido.

As tramas que comecei a escrever para o personagem que você seria não foram jogadas fora porque não consigo me livrar de meus escritos – mas apenas por isso; não porque você merecesse ser mais um dos meus personagens. Você não merecia tamanha honra – não merecia ser eternizado.

Naquela época eu não sabia; eu achei que eu era a errada. Não tinha consciência de que de príncipe, você não tinha nada. Agora, quando eu olho para trás, sei que eu me deixei embrulhar pelas minhas ilusões e mais uma vez me permiti viver nas minhas fantasias. Você, ao contrário, percebeu – e se divertiu com isso.

Você gostava de me ver te procurando – gostava do sentimento de domínio por existir alguém que o queria tanto. A palavra certa é essa – eu estava dominada, completamente domada. Um leão de circo que você brincava do jeito que preferia. Soltava a rédea quando estava cansado e ia atrás de outros brinquedos, mas nunca o suficiente para que perdesse sua fonte de autoestima.

Sua fonte de ego inflado.

Fui a menininha apaixonada, correndo atrás de você, por tempo demais. Tempo o suficiente para que eu percebesse quão ridícula era minha situação, mas tempo demais para que eu saísse por cima.

Eu saí machucada, bastante ferida, e as cicatrizes impediram-me por meses de tantas outras coisas. Não que eu te culpe – não sozinho. Você foi o culpado por brincar; eu fui a culpada por me manter cega por tanto tempo.

Por sorte não te encontrei mais depois de tudo. Quando vi, fingi que não enxergava, e apaguei no instante seguinte a informação de sua existência. No começo foi difícil, confesso, mas você fazia o mesmo com tamanha naturalidade que me deu mais forças para apagar.

Deletei tudo, como disse. E nunca mais pensei. Realmente não me importava mais. Não foi o primeiro coração ferido, não seria o último. Não te daria nenhum título pelos seus feitos.

Até hoje.

Quando te encontrei novamente, não teve nenhum coração palpitante. Não houve rosto corando quando você se sentou ao meu lado. Nenhuma alteração na minha respiração, nenhuma palavra engasgando na garganta... Nada além da indiferença de ter ao meu lado um completo desconhecido.

Não foi por você agir como se eu fosse uma desconhecida também, como se nada tivesse acontecido... Foi a forma como meu corpo não reagiu ao tapa na minha cara de que você ainda existia. Simples assim – não houve qualquer reação. Nem vontade de te olhar, nem vontade de mandar mil mensagens para minha melhor amiga contando que você estava ao meu lado.

Nada.

Foi minha indiferença que me surpreendeu. Atingiu-me tão forte que fui obrigada a procurar todos os papéis sobre você que não joguei fora. Li um por um e sorri. Sorri mesmo. Não por você, mas por mim, porque eu sempre fui alguém que nunca conseguiu se desvincular de ninguém, mesmo quando a pessoa me faz mal. Jogo tudo para debaixo do tapete e finjo que não sei que ainda estou machucada.

Mas não com você. Eu simplesmente não sinto mais nada. E por isso você merece um personagem.

O cara que eu não amo mais.





6 comentários:

  1. ~chorando aqui~

    Por favor, pare de fazer textos bons, tá? Eu lhe proíbo! adhauhduahduahduahdhau. Amei o texto, como sempre. É bem interessante... E você escreve tão bem ♥

    The Lord of Thrones

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    1. Ah, não faz assim D: Como vou viver sem escrever? Obrigada pelos comentários, viu?

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  2. o importante é ser intensa em cada capítulo da vida,não?

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  3. Olá :)
    Eu pensei que já tinha comentado este texto :O
    Enfim,o que posso dizer?
    Alguns textos seus me fazem chorar..é como se você descreve minha vida sabe?

    Tal ruim quando alguém que nos era importante vira apenas mais um na multidão.
    Belo texto :)

    Beijos e se cuida
    www.rimasdopreto.com

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    1. Olha, então quer dizer que nossas vidas são muito parecidas, porque muita coisa eu escrevo sobre mim - ou sobre coisas que acontecem com as pessoas ao redor de mim.

      É triste mesmo, mas acontece. Alguns amores não foram feitos para dar certo, anyway.

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  4. Você escreve muito bem! Estou apaixonada pelos seus textos haha Parabéns!
    Beijos
    http://naoaocontrario.blogspot.com.br/

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