O Menino do Skate




O MENINO DO SKATE
A incrível história do amor que não aconteceu
(Luisa Lopes - 2014)


Sabe como vários romances na literatura e no cinema começam com um pequeno acidente? Um trombo, um tropeço, coisas simples do cotidiano. Eu nunca fui muito chegada nesse tipo de trama, acho que em parte porque nunca vivenciei nada do gênero e não conseguia enxergar realidade nas narrativas do surgimento desse amor.

Pois bem, digamos que eu mordi minha língua. Lá estava eu, tranquilamente caminhando, entretida na música que vinha do meu iPod. Grande avenida, o grande movimento de sempre – e eis que ele me atropela. Acho que tentou desviar de outro alguém, ou tentou me ultrapassar e eu que mudei de sentido... A bem da verdade, não importa muito como se sucedeu – para todos os efeitos, ele acertou o skate no meu pé. Ele voou para frente, seu meio de transporte voltou para trás.

Pela forma com que ele aterrissou, pude ver sua raiva por ter sido interceptado. Oras, era o meu pé que estava machucado, não o dele. Eu que deveria estar com raiva. Acho que fechei a cara enquanto observava o “babaca” se equilibrar, torcendo para que ele desse de cara no chão...

Minha macumba não deu certo, que pena.

Eu vi a raiva em seus ombros antes de ele se virar e me ver.

Se estivéssemos em um filme, esse momento duraria uns cinco minutos. Se estivéssemos em um livro, um de nós perderia o fôlego por um milésimo de segundo. Ele coçaria a cabeça, constrangido, e eu arrumaria o cabelo, claramente envergonhada, e lentamente desceria em direção ao meu pé dolorido. Ele se aproximaria para checar se eu estava bem, nossas mãos se tocariam, nossos olhares se encontrariam e BAM! Surgiria o amor.

É óbvio que nenhum dos dois notaria isso logo de cara – mas algum objeto meu, obviamente identificado, teria caído durante o pequeno acidente sem que nenhum de nós notasse. Ele me ajudaria a me levantar, esperando, no fundo, que eu não conseguisse andar, mas eu estaria encabulada demais para manter essa situação constrangedora por muito mais tempo. Eu agradeceria a ajuda e ele pediria desculpas pela milésima vez. Aliás, as únicas palavras a saírem de sua boca durante todo esse “encontro” seriam “Foi mal” e algumas tentativas ininteligíveis de se começar uma conversa mais profunda.

Eu me despediria com o olhar de quem quer ficar e já a alguma distância viraria para trás, para saber se ele ainda estava lá, se ele também me olhava. Ele me observaria partir depois de soltar um longo suspiro, não acreditando no que acontecera – e não acreditando, ainda mais, na sua incapacidade de conversar normalmente com uma garota. Quando já não conseguisse mais me distinguir dos outros, ele desviaria o olhar para o chão e encontraria meu artefato.

Ah, os cosmos sempre ajudam os apaixonados.

Ele cuidaria do que quer que fosse esse artefato como se fosse sua vida, afinal, seria a única forma de me reencontrar. E eu? Bom, eu seria eu mesma. Como diria meu amigo, eu iria Luisar desde o segundo que o deixasse para trás. Por certo pensaria em mil tramas que começariam com um acidente – e começaria um livro novo, em que a protagonista se apaixona por um skatista.

Eu o procuraria em cada cara em cima de uma prancha com quatro rodas, mesmo consciente da impossibilidade de encontra-lo novamente, afinal, São Paulo não é como as novelas da Globo nos fazem acreditar. De noite, na hora de dormir, perguntaria a minha fiel abelha de pelúcia o nome do amor da minha vida que eu, por uma vergonha que não me é peculiar, perdi a chance de perguntar.

Após alguns dias, já desacreditaria do amor novamente e blasfemaria o destino, o culpado pelo meu sofrimento. Então teria uma pequena taquicardia quando ele conseguisse me contatar, querendo me devolver meu preciosíssimo objeto. Quando o encontrasse, eu contaria toda a história envolvendo esse quase-talismã e ele escutaria toda a besteira que eu diria com inquestionável interesse.

Por óbvio, combinaríamos em todos os gostos e demoraria muito até percebermos que aquele acidente nada mais foi do que o destino unindo duas pessoas que foram feitas uma para a outra.

Ah, que esplêndida história de amor poderia ter começado com um erro de direção dele ou um desequilíbrio meu – ele poderia ter me dado um novo personagem, poderia ter virado um livro.

Sim, poderia ter sido uma magnifiquíssima história de amor, mas ele estava em um relacionamento sério com a pressa paulistana e me deixou só com a dor no pé.




12 comentários:

  1. Uau! Que crônica maravilhosa! Você deveria escrever, fazer livros de crônicas, ou de uma história. Adorei de verdade.

    The Lord of Thrones

    ResponderExcluir
  2. C*C*T*, Você me trolou! Eu amei o texto, a cada novo paragrafo eu pensava: "não vai acontecer nada, só pode!" Fui preso até o final da cronica e foi só o que poderia ser uma história de amor. Você escreve tão bem. Me prendeu na cronica, prenderá a outros muitos também, com certeza!

    Deu certo, continue com mais crônicas!

    http://gabryelfellipeealgo.blogspot.com.br/
    El Costa, do Confins Literários

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Trolei nada heheh - desde o começo eu deixei bem claro que não ia acontecer nada. Culpa é minha que você se deixou levar pelas tramas românticas? hehe
      Brincadeirinha.

      Excluir
  3. MEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEU DEUSSSS! Cara, eu fiquei tipo "não acredito que ela fez um post desse tamanho, não vou ler tudo", mas olha, você me prendeu muito, como disse o colega acima, e eu fiquei omg omg omg, o que vai ser no final? O mais engraçado era que seria meio óbvio esse final, porque a crônica inteira você falou do "se fosse num filme ou livro", mas eu nunca pensei que seria assim. Sério, você é uma escritora maravilhosa, quero ler outras crônicas suas, investe nisso. Agora, isso aconteceu com você ou é tudo fictício? Porque ficou MUITO bom!

    Beijo!
    www.meianoiteequinze.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Aaaah, eu tenho essa mania de textos longos. Preciso perder um pouco disso - tenho dó dos meus leitores que precisam ler todas as minhas virgulas hehehhe
      Olha, comigo só aconteceu a parte do atropelamento, o resto é tudo coisa da minha cabeça de escritora hahaha

      Excluir
  4. Olha, pode continuar a escrever tãi bem assim por favor? Sério menina! Ficou muito bom ! No começo não queria ler, mas é incrível a forma como fiquei refém da sua crônica! ♥
    já tem postagem nova, vem ver :)

    www.pequenamenina31.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  5. Muitoooo bom mesmo, gostei do jeito que você escreve, diferente do normal, se destaca. Sobre o que você falou no meu blog, eu queria dizer que a maioria das minhas histórias são assim, são difíceis de entender, o desfecho fica implícito, cabe ao leitor entender do jeito que seu humor permiti.
    P.S.: Adorei seu blog, estou seguindo para acompanhar.

    ResponderExcluir
  6. Esqueci de responder sua pergunta, o "eu" que encontrou Raul foi a narradora. Quando escrevi pensei que Raul se casou com outra mulher, mas nunca se esqueceu do amor que teve com Juliana. Mas ele não a revê.

    ResponderExcluir
  7. Muito muito muito lindo, o final mais esperado não ocorreu,mas foi melhor do que imaginei '' poderia ter virado um livro''..... Muito lindo.
    http://garotadonzela.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  8. Oi, Luisa! Como vai?
    Gente, como assim é a primeira vez que você escreve uma crônica? Parabéns, moça, se saiu muitíssimo bem <3 Amo crônicas e também escrevo, e, gente, ficou MUITO BOM! Quem sabe esse menino de skate não esbarre em você qualquer dia? Ó, não é impossível se vocês fizerem o mesmo caminho todos os dias e em um desses dias cotidianos vocês se esbarraram... apesar de que São Paulo é São Paulo :S hahah Te entendo. Enfim, ficou muito legal e realista.
    Beijinhos,
    Karol.
    http://heykarol.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  9. Amei o texto haha. Realmente é bem diferente dos tipos encontros de filmes e livros que a gente sempre vê, acho que aquelas coisas nem existem haha
    http://luludeluxemburgo.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir

 

Curta

Siga