A Última Carta



Boa noite Multicoloridos.
Eu sei, eu me fiz de ignorante na última postagem e nem sequer um boa noite eu dei. Peço desculpas - ainda estou tentando me acostumar com essa história de voltar a "blogar", não apenas postar meus textos.

Sobre o texto - esses dias eu decidi arrumar meu quarto. Para quem me conhece, sou pragmática demais, e por isso às vezes prefiro deixar meu quarto bagunçado do que arrumá-lo.
Pois bem, dessa vez decidi arrumar. Foram cinco dias de arrumação, juro. Tirei livros, roupas, pelúcias, tudo, de seus devidos lugares e realmente fiz uma "limpeza" no meu quarto.
Entre elas, estava minha caixa de lembranças, onde de vez em quando eu guardo algumas coisas, até textos mais antigos, que foram escritos para alguém importante, e que eu não queria publicar por razões pessoais.
Essa carta é um deles - de fato não é tão antiga, mas era uma delas. Como é "inédita", achei que valia a pena publicar. É isso.


Música Tema: Final Goodbye - Rihanna




A Última Carta


Eu não achei que fosse ter que dizer essas palavras – não achei que um dia teria que escrevê-las como forma de me despedir. Dizer adeus nunca foi meu forte, ainda mais quando por dentro de mim corre algo que me faz querer ficar.

Em primeiro lugar, eu sinto muito se o pressionei – e também sinto muito se tive que tomar uma decisão sem pensar nos seus sentimentos. Eu precisei disso e não me arrependo do que escolhi. Só me arrependo de não ter-lhe dito certas coisas antes.

Nos últimos meses, sozinha, eu revivi os últimos anos – vi todos os meus sentimentos, todas as minhas lembranças voltarem para me atormentar. Foi como se eu abrisse os históricos de uma longa convivência e os lesse, só que tudo na minha mente.

Conforme as lembranças de nós dois voltavam, eu me assisti em um processo lento de tortura e degradação, confundindo passado e presente, inventando um futuro que nunca existiria – que jamais existirá.

Eu revivi todos os nossos abraços, nossos segredos, nossas conversas – toda a nossa amizade. Vi seus olhos diversas vezes e me enterrei nos seus braços outras tantas. Segurei suas mãos mais de uma vez e, de alguma forma, te fiz sorrir. Parecia um conto de fadas – eu só tinha  lembranças boas até então.

Depois que senti seu gosto, desvirtuei tudo que tinha de nós dois. Acho que comecei a ver coisas que não existiam, porque senti algo dentro de mim que não se conformava com a realidade. Fui morrendo entre a verdade e a ilusão, enlouquecendo com o que eu estava perdendo. Com o que eu perdi, na verdade.

Perdi a pessoa que eu considerava meu melhor amigo; a pessoa que eu sabia que podia contar sempre que eu precisasse – a pessoa que eu mais sinto falta no meu dia a dia. Destruí o que eu tinha e até hoje não entendo o motivo. Parecia tão natural, mas hoje vejo que não foi; que nada daquilo deveria ter acontecido – ou talvez devesse, para que eu pudesse me desvincular de tudo que me prende ao passado.

Depois de tudo que já passamos, eu não posso mais ser sua amiga. Sei que estou sendo covarde em dizer isso por uma carta, mas acho que não teria coragem de olhar em seus olhos mais uma vez. Não sei se aguentaria. Estou apagando tudo fomos da minha memória, apagando sua existência da minha vida, porque não aguento o que estou sentindo e não aguento saber que não é recíproco.

A culpa não é sua. Se existe alguém a condenar por tudo isso, essa pessoa sou eu. A verdade é que eu demorei a ver as coisas com os olhos de hoje. Eu passei os últimos anos me enganando – ou tentando me enganar – e era óbvio que, o dia em que tudo viesse à tona, os juros seriam cobrados sem qualquer piedade.

Eu incessantemente o tratei como um amigo, quando, nas entrelinhas existia algo a mais, pelo menos de minha parte. Passei todo esse tempo negando, escondendo o que eu sentia, porque eu namorava, porque você namorava, por outras tantas sequências de encontros e desencontros, acreditando cegamente nas minhas palavras de “apenas amigos”.

De fato, houve momentos em que eu percebi indícios de que não era bem assim que eu me sentia, mas eu abafei todos os gritos do meu interior, porque eu não conseguia encarar a realidade dos fatos.

E então aconteceu. O “nós” saiu da imaginação e me atingiu de frente, e diante de tanta veracidade de sentimentos, eu perdi todas as minhas forças para lutar contra o que me atormentava por dentro e por isso ficou impossível “vê-lo” como apenas amigo.

O problema nem foi perceber que o queria de outra forma; o que me destruiu por dentro foi ver quantas chances de ter um final diferente eu perdi por me recusar a lidar com o que sentia – foi ver em cada uma das minhas memórias os indícios de que, sim, poderia ter sido diferente, mas não é. Não importa o quanto eu queira, não posso mudar a realidade, e nem você.

É isso que dói – ver que a hora de sermos mais do eu e você, de sermos nós, já passou; que eu fiquei inconscientemente me cozinhando por dentro por tanto tempo, que eu me queimei; que eu menti para mim todo esse tempo – e que, agora que não consigo mais engolir a intragável verdade de volta, estou completamente vulnerável.

Mas a responsável por tudo isso sou eu, por socar tudo que sinto para de baixo do travesseiro e ignorar os minhas emoções o máximo que posso. E não há nada que você possa fazer para diminuir minha culpa. Eu vou ter que enfrentar as consequências sozinha.

Enfim, não há mais o que se falar disso. Não tenho mais o que perder também, agora que já destruí nossa amizade. Acho que só o que falta para dar uma basta em todo esse drama é dizer que – se é que você já não entendeu – eu sempre gostei de você, e ainda gosto. Devia ter deixado isso claro antes, devia ter percebido antes, mas agora é tarde demais.

É por isso que estou me afastando. Não é por estar com raiva, não é por te culpar. É por gostar mais do que deveria, mais do que sempre disse que gostava; por querer mais do que você pode me dar.

Espero de verdade que você seja muito feliz, e que me perdoe por isso, mas me dói só de pensar em você. Espero um dia poder olhar para trás e ver todos os momentos que passamos juntos com um sorriso no rosto, mas não agora. Agora não consigo.


Eu me despeço sem saber se um dia vou te ver novamente – se um dia terei coragem para isso. Encaminho-me para longe de seus poderes, deixando com você, além dessa carta, meu coração.

9 comentários:

  1. Que carta linda, tanta sentimento que precisavam ir embora, é tão ruim saber que devemos dizer adeus para algumas pessoas.
    Beijos
    Dezesseis de Volta

    ResponderExcluir
  2. Oi, tudo bem?
    Nossa você escreve muito, amei as palavras que você escolheu para expressar os sentimentos!
    Beijos... Samantha Culceag.
    Só pra Menores

    ResponderExcluir
  3. Uau, que carta maravilhosa! Nunca mandei cartas, mas, nossa.

    The Lord of Thrones

    ResponderExcluir
  4. Se eu lesse uma carta dessa eu.. não sei.. MEO DEOS! Ameo o modo como você escreve, como descreve, como sugere, suas metáforas! Amei a carta e choraria se eu não estivesse num momento de raiva :(

    http://gabryelfellipeealgo.blogspot.com.br/
    El Costa, do Confins Literários

    ResponderExcluir
  5. Oie,

    Me emocionei aqui lendo a carta e fiquei super curiosa se eles se encontraram ou não depois disso. Parabéns pela escrita e a música que escolheu é linda.

    Visite: Paradise Bookss

    Beijos.

    ResponderExcluir
  6. Boa tarde,
    Como vai?
    Adorei sua carta.
    Este ano perdi alguém que era muito minha amiga....
    Entendo seus sentimentos.

    Beijos e se cuida
    Rimas Do Preto

    ResponderExcluir
  7. Cartas são tão <3
    Eu amei!! Acho que leria um montão de vezes. Hahaha

    Beijo!
    Fofuramentos
    @bfofuramentos (twitter)

    ResponderExcluir
  8. Linda carta!
    Relacionamentos são tão complicados, né?
    Acho que sempre vai ser um erro tratar como amigo aquele de quem a gente gosta. Só nos iludimos e posteriormente sempre perderemos os amigos.
    Mas espero que tenha passado toda essa dor!
    E bola pra frente, te garanto que ele não será o único amor da sua vida. O tempo passa pra ele, mas passa pra você também!
    Bjoss

    http://fotografiaeleitura.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  9. Ai que carta incrível! Acabei chorando aqui junto, porque uns trechos acabaram me abalando bem passei por uma situação não semelhante, mas da perda de alguém, nunca é fácil né?
    Sou como você, demoro anos pra arrumar meu quarto, quando arrumo levo dias. Adorei o texto, obrigada por dividí-lo com a gente.

    Steh, livros de romance

    ResponderExcluir

 

Curta