Tuelho



Eu rolei na cama mais uma vez, tentando pela milésima vez encontrar uma posição confortável para dormir – mas não era meu corpo que estava incomodado, mas sim minha mente.

Eu não conseguia parar de pensar em nó – ou melhor, em como não existia mais o “nós”. Quando eu fechava os olhos, eu me lembrava. Não precisava forçar muito, elas caminhavam naturalmente. Bastava me concentrar na escuridão e no silêncio do meu quarto, que minha mente se enchia de lembranças.

Era por isso que mantinha meus olhos abertos, encarando a solidão da escuridão. Não facilitou; podia estar livre das memórias, mas fui consumida ainda mais forte pelos sentimentos.

Eu sabia que era o certo a se fazer quando tomei minha decisão – sabia que só sobrara sofrimento onde antes havia muito amor. Não que não houvesse mais amor, mas a dor crescera tanto que o bom da nossa relação ficou mudo. Mas nada disso me consolava – não tinha mais você para me consolar, e não haveria mais.

Rolei para o outro lado, jurando para mim mesma que seria a última movimentação – que eu dormiria a qualquer custo. De frente para a parede, eu senti o frio da noite me consumindo e me lembrei de seu abraço tão terno sempre a me esquentar.

Não consegui – deixei-me levar pelas lágrimas, crente que elas lavariam minha alma, levando meus sentimentos embora. Não lutei contra o choro; não sei por quanto tempo ele me dominou, mas quando minha respiração acalmou senti-me vazia por dentro. Todas as coisas ruins haviam desaparecido, mas eu ainda pensava no “nós” que não existia mais e não me deixava dormir. Lembrei-me de como costumava dormir feliz revivendo nossos dias juntos. Sentei-me na cama. Minha mente não ia me dar paz naquela noite.

Acendi a luz do abajur e do lado estava ele – nosso pote de sorrisos, com todas as coisas que dividimos durante nosso tempo junto, todas as coisas que me fizeram sorrir. Sem pensar, eu o peguei e o abrir, lendo cada um dos bilhetes. Uma a uma, as lembranças boas foram preenchendo minha mente.

Lembrei-me do castelo, da grama. Lembrei-me do cheiro de alecrim, da comida temperada. Lembrei-me do poema, das conversas sobre o universo. Lembrei-me dos signos, dos sinais. Lembrei-me dos jogos, das verdades, dos segredos. Lembrei-me das noites, dos finais de semana. Lembrei-me do abraço, do "latrocínio" e de outras tantas piadas que apenas nós entendíamos. Lembrei-me das gordices, do ratinho. Lembrei-me dos frappucinos, dos cafés – e de diversas outras coisas que não sabia explicar quanta felicidade cabia dentro de mim por elas terem acontecido.

Por último, lembrei-me dele. Olhei para minha estante. Ele estava lá, sorrindo para mim – parrudo, firme e forte. Meu tuelho de pelúcia. Não pensei duas vezes; levantei na meia-luz, peguei-o e deitei mais uma vez.

Eu sabia que não o devia fazê-lo, mas não consegui evitar. Ele ainda tinha o seu cheiro, e eu o apertei tão forte que ele sumiu entre meus braços. Eu precisava ser forte, precisava seguir em frente, mas não naquela noite. Naquela noite, eu só precisava dormir – e só você conseguiria me ajudar.



4 comentários:

  1. Adorei o artigo. Muito bem escrito, muito profundo, muito sentido.
    É daqueles artigos que nos tocam e nem percebemos bem porquê, talvez pela clareza das palavras, pela sinceridade sentida.
    Patrícia VEludo
    FB - http://descobrirviajando.blogspot.pt/

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  2. Lendo cheguei a sentir o que você estava sentindo, já passei por algo muito semelhante. Mas quem não passou? E se não aconteceu vai acontecer porque faz parte do nosso crescimento.

    FB | http://vanvariedades.blogspot.com.br

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  3. A falta de alguém que amamos é uma dor que é muito difícil de expressar e os objetos que marcaram a relação são fragmentos latentes dessa dor; lembranças que de fato inundam nossos pensamentos e sangram em nosso coração.

    VC foi muito feliz nesse post, conseguiu transcrever a dor, essa falta em palavras. Gostei!!



    Um beijo.
    Rê - FB
    www.natimusbeauty.blogspot.com.br

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  4. cheguei a sentir o que você estava sentindo, já passei por algo assim. Mas faz parte do nosso crescimento.
    Amei.
    Beijos
    FB - http://cartolarosa.wordpress.com/

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