Sorriso Venenoso - Parte I

by - domingo, abril 06, 2014



A luz do elevador nunca foi boa - talvez pela potência, ou pelo tipo. Não importava; independente do motivo, eu não conseguia gostar do que via.

Gastava mais tempo que o normal para me arrumar - escolhera meu melhor blazer, caprichara na maquiagem, arrumara meu cabelo. Estava impecável quando saí de casa, mas ali, olhando-me naquele espelho, já não me sentia tão segura.

Fechei os olhos e respirei fundo quando o elevador começou a diminuir de velocidade. Provavelmente todos já sabiam; os olhares e os cochichos eram inevitáveis, mas eu precisava manter a cabeça erguida. Não era eu a errada.

Quando a porta abriu, senti como se o mundo espremesse minha cabeça e o tempo parasse. Todos os olhares estavam sobre mim - o porteiro provavelmente avisou que eu estava subindo. Eu estava no holofote.

Conforme eu caminhava, as cabeças giravam me seguindo. A grande maioria sequer disfarçava. Foquei na minha mesa e atravessei o grande salão sem desviar os olhos dela. Ignorei as vozes também; não queria ouvir seus comentários maldosos.

Sentei no meu lugar e me fechei no meu mundo. Sabia que ainda estava sendo observada - precisava me mentar forte e impecável.

O computador não tinha sequer ligado quando fui informada que minha chefe me esperava. Respirei fundo - foi mais rápido do que eu esperava, mas pelo menos o show que me mantinha no centro das atenções não ia durar.

Levanto-me sem hesitar. Já sabia o que me aconteceria quando acordara. Só estava esperando pelo xeque-mate.

Subi de escada para o andar de cima e esperei no sofá pela minha vez. Sabia que seria deixada ali por um tempo como vingança; só meia hora depois permitiram minha entrada na sala da presidente.

Ela estava de costas. Precisava demonstrar que não se importava comigo. Quando virou, vi que ela também se preparara para aquele encontro. Se eu achava que estava bem, fui obrigada a admitir que ela estava muito melhor.

Ela fitou meus olhos e eu enxerguei todo o ódio que corria por dentro dela, e de como ela conseguia facilmente controlá-lo.

-Aqui está o termo de demissão - ela empurrou a folha por cima da mesa com tanta naturalidade que estranhei. Colocou a caneta por cima do papel e me encarou. Quando não reagir, ela balançou a cabeça, indignada - Não tenho tempo a perder com você, por favor.

-Eu só... - tentei me defender, mas ela me impediu.

-Eu te dei muitas chances; te escolhi, te promovi. E você me apunhalou nas costas. Usou das regalias que te dei para me passar a perna. Não temos o que conversar - seu olhar era frio e rígido. Não haveria discussão. Assinei o termo e me retirei, levando os papéis que ela me entregou. Logo que passei pela porta, sua secretária entrou. - Ligue para todos. Ela não trabalha mais nessa cidade. - ela falou alto, como se quisesse que eu escutasse.

Eu desci de volta ao meu lugar. Já não chamava mais tanta atenção. Havia uma caixa em cima da minha mesa. Coloquei minhas coisas aos poucos. Não queria ir embora apesar de tudo.

Com tudo guardado, corri os olhos pelo espaço. Minha única amiga ainda não havia chegado; não havia ninguém para sentir minha partida.

Encaminhei-me para o elevador e, por sorte, não precisei esperar muito.

-Tchau, vadia. - escutei antes de as portas fecharem. Olhei pelo espelho; era o grupo das venenosas que adoravam falar mal de todos. A porta fechou sem que elas vissem minha reação.

Quando saí do prédio, eu o encontrei - o causador de tudo. Achei que ele fosse me abraçar e me acalmar, mas ele não me viu até trombar comigo e derrubar todos os meus pertences.

Ao me reconhecer, desculpou-se e foi embora, sem ajudar a recolher meus objetos. Ali, agachada enquanto arrumava minhas coisas, eu me xinguei por dentro por ser tão burra. Perdi meu emprego por causa de um homem.

Voltei para casa, tentando não chorar. Olhei todos os meus pertences, sabendo que teria que embalá-los. Eu conhecia a palavra da presidente; ela faria o impossível para impedir que eu tivesse qualquer outro emprego. Engoli o choro, proibindo-me de derramar mais uma lágrima sequer. Podia estar na merda, mas pelo menos isso me ensinaria a não confiar em qualquer sorriso.

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7 comentários

  1. Nossa, esse seu texto é mto inspirador, o nome em si, já é bem impactante...
    A minha melhor parte, em que realmente me fez pensar foi:
    -Eu te dei muitas chances; te escolhi, te promovi. E você me apunhalou nas costas. Usou das regalias que te dei para me passar a perna. Não temos o que conversar - seu olhar era frio e rígido. Não haveria discussão. Assinei o termo e me retirei, levando os papéis que ela me entregou. Logo que passei pela porta, sua secretária entrou. - Ligue para todos. Ela não trabalha mais nessa cidade. - ela falou alto, como se quisesse que eu escutasse.
    Fb - http://atravesdoglitter.blogspot.com.br/

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  2. Que texto ótimo , dá muita vontade de lê a parte 2 gosto muito de textos assim de fácil entendimento.

    http://falandodtudoumpouco.blogspot.com.br/
    FB

    Beijinhos!

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  3. Olá Linda tudo bem....
    Passei para conhecer seu blog ele esta um charme, e já estou seguindo...
    pode retribuir??//// agradeço já
    http://dieinydicas.blogspot.com.br
    beijinhos

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  4. Ui. Viajei na pele da turista do elevador!
    Belo texto.
    Abraços,
    M. S. Dehlia - FB
    http://anjovendido.blogspot.com.br/

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  5. Nossa...
    Já estou esperando ler a segunda parte dessa história!

    Parabéns pelos textos literários!
    :)

    FB
    danielleaguiar. blogspot.com.br

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  6. Obrigada por ter assinado a petição contra a Head&Shoulders!
    Agora eu vim lhe dizer, que felizmente, nós conseguimos! Graças ao apelo de milhares de pessoas como você, que assinaram essa petição...
    A Head&Shoulders se comprometeu a não usar mais óleo de palma de desmatamento ilegal!

    Obs: Essa empresa será fiscalizada pelo Greenpeace, para que cumpra com o prometido.

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  7. Que belo texto, gostei muito! Já estou aguardando pela segunda parte.

    Beijos,
    Baunália

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