John - Parte II: Nomes

by - domingo, março 09, 2014


“John”, você se apresentou. Eu lembro bem que fiquei me perguntando se você era gringo ou não. Não parecia, não tinha sotaque... Só tinha o nome. Lembro que nem sobrenome me deu – não consegui me fazer de stalker e te encontrar no Facebook como sempre fazia com os caras que eu curtia. A verdade é que quando te conheci, foi como se você fosse apenas mais um na noite...

Passei meu número por costume – e, como de costume, passei a semana sem pensar nos caras que tinha conhecido na balada. Mas ao final dela, meu celular tocou. Não conhecia o número, não estava esperando nenhuma ligação. Estranhei... mas atendi. Era você. Não reconheci na hora; precisei que você se apresentasse e então lembrei.

Mas sua voz estava tão diferente – você parecia diferente. Lembro que naquela primeira noite você fez o tímido: demorou a puxar papo comigo e depois conversou por um bom tempo sem sequer me tocar, com um sorriso tímido e o rosto corado. Acho que por isso não lembrava tão bem de você – o cafajeste sempre fica mais marcado na mente feminina.

Naquele dia você estava mais seguro, mas extrovertido – poderia até dizer que estava com sotaque. Quase cheguei a acreditar que talvez você realmente fosse estrangeiro. Fiquei interessada e aceitei sair com você... Quando estava para desligar o telefone, alguém te chamou de Pedro.

Pedro... Ainda hoje me pergunto se é esse o seu nome verdadeiro. Sei que é o nome que você usa para questões importantes, como o trabalho, ou as eleições. Apesar de saber que você não teria como forjar seus próprios documentos em face ao governo, não tenho certeza se Pedro é seu nome real. Quando te chamei por esse nome vi seus olhos crescerem em raiva e me arrependi na mesma hora.

Todas as manhãs você me enlouquece com milhões de outros nomes com os quais decide que vai se chamar pelo dia. Eles não têm padrão, tenho que anotar em um papel para não esquecer e te chamar por outro nome... Lembro bem o que aconteceu quando cometi o erro de te chamar pelo nome errado em público.

Mas de noite, quando estamos sozinhos, você prefere que eu te chame de John – apenas John – como nos primeiros dias, como nas primeiras noites, quando você ainda parecia perfeitamente encantador e estável; quando me conquistou e amarrou meu peito em suas mãos. Posso ver o seu sorriso crescer quando te chamo por esse nome... E então você me chama de sua Alice.

Às vezes até esqueço que esse não é meu nome – às vezes quero acreditar que somos mesmo John e Alice, perfeitos e felizes, como você faz parecer quando chega à noite, quando me ama. Mas até quando?

(Parte da Coletânea John - Luisa Lopes, 2014)

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9 comentários

  1. Texto lindo e ao mesmo tempo triste, conseguir sentir a dor, o amor entre os dois...
    Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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  2. Que história diferente. Ele muda de nome quando muda de personalidade?

    Beijos

    http://manuellamontesanto.blogspot.com.br

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  3. Lindo texto, triste, melancólico, mas lindo! Ambíguo... o amor é complexo mesmo né!

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  4. Lindo texto, triste, melancólico, mas lindo! Ambíguo... o amor é complexo mesmo né!
    Um beijo e boa semana.


    FB - www.natimusbeauty.blogspot.com.br

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  5. Gostei do texto, meio triste, mas realista
    AltoseBaixos

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  6. Que texto mais lindo. Gostei bastante. Achei muito interessante essa troca de nomes do homem durante o decorrer do texto, você escreve muito bem.
    FB Jéssiica Magalhães
    http://balaiodecores.blogspot.com.br/

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  7. Ele tem várias personalidades diferentes?
    Nossa, eu jamais conseguiria ficar com um cara assim, por mais que me machucasse me afastar dele no começo, eu acho que seria menos doloroso a dor de perder o "amor" no começo, quando ainda não há tanta intimidade do que depois que já me envolvi completamente.

    beijos

    FB

    http://venachia.blogspot.com

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  8. Nossa,, Não nem o que dizer sobre o texto!
    Você consegue descrever muito bem a história e nos fazer envolver querendo mais!
    Parabéns e a partir de hoje que acompanhar cada post novo!
    Beijos.

    FB Priscilla Souza
    http://ihcompartilhei.wordpress.com

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  9. Texto ótimo, nossa!! emocionei... muuuito show!! Acompanhando o blog firmemente...
    FB
    eternamente15.blogspot.com.br

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