A Mulher dos Meus Sonhos


Ela é linda.

É só o que eu consigo pensar quando a vejo andando sozinha pelo jardim. Seus cabelos semi presos caem em cascata sobre as costas, encantando-me. Seu vestido colado ao corpo revela todas as suas curvas, fazendo-me deseja-la mesmo sem conhecê-la.

Ela caminha cada vez mais em direção ao fundo do parque e eu não consigo evitar em acompanha-la. Eu a perco de vista, mas algo me guia e a encontro sentada ao lado da fonte, olhando para direção em que eu estou, como se estivesse me esperando.

Não entendo seu olhar; não sei se posso me aproximar ou não – mas não consigo evitar. Eu a desejo tão vorazmente que não penso em minhas ações.

Quando chego à sua frente, ela estica a mão em minha direção. Eu a seguro sem pestanejar – sua mão é fria, mas estou tão quente por dentro que me sinto refrescado.

Sento-me ao seu lado, meus olhos fixos nos dela. Ela parece curiosa e abre um sorriso tímido, mas é nos seus olhos que eu me perco, tamanha sua imensidão.

Perco-me, mas me encontro.

Eu a reconheço de alguma forma – sei que ela é a mulher com quem por noites eu sonhei. Eu a esperei por tanto tempo que minha alma pode finalmente relaxar. Estou completo enfim. Eu sorrio, imaginando toda a felicidade que me aguarda agora que a encontrei. Em meio aos meus pensamentos, não percebo sua movimentação. Assusto-me ao sentir o gosto de seus lábios – limão e alecrim.

Perco os sentidos com seu beijo; já tive tantas outras, mas nenhuma causou um incêndio dentro de mim com ela. Estou intoxicado por seu sabor, controlado por meus desejos. Não comando mais o meu próprio corpo.

Ela se afasta para me olhar e sei que sente o mesmo; estamos ambos descontrolados, a mercê das vontades um do outro. Ela também me quer, eu sei. Ela está ofegante, assustada com toda a verdade entre nós – com toda a intensidade.

Ela abre o botão do meu paletó, abraçando-me por dentro dele, a cabeça encostada no meu peito. Sinto seu corpo frio roubando meu calor, e meu corpo queima ainda mais quando penso em como esquentá-la.

Eu a fito, esperando que ela não leia meus pensamentos, ou pelo menos não se assuste. Ela me encara por alguns instantes e depois me beija mais uma vez.

Aos poucos, enquanto a beijo, eu a deito no banco, meu corpo por cima do dela. Não me importa que estejamos em público, não me importo com quem possa nos ver. Eu a quero – e preciso tê-la agora, antes que ela fuja. Eu a esperei por muito tempo e sinto através de seu corpo que ela também estava a minha procura.

Não tenho noção do tempo, ou da sequência de fatos, mas quando percebo, estamos nus, a água da fonte nos molhando, a brisa da noite batendo em nossos corpos vulneráveis, mas não há frio – o calor de sermos finalmente um nos protege.

Cansados, deitamos abraçados, olhando um para o outro. Eu a amarei para sempre, eu sei – e ela não precisa falar para que eu saiba que sente o mesmo. A energia que exala de nossos corpos é o suficiente para nos contar aonde chegaremos.

Durmo sem roupa, com a troca de calor entre nós. Durmo com o coração calmo por finalmente tê-la em meus braços. Durmo esperando ver o negro de seus olhos pela eternidade.

Acordo com o vento empurrando a água da fonte em direção ao meu rosto. Acordo com o corpo frio, apesar de vestido. Acordo sozinho, com um sabor amargo na boca e uma dor de cabeça.

Acordo e não a vejo.

Devagar, eu levanto – procurando por qualquer vestígio, qualquer resquício da noite passada. Perto dos meus pés, uma garrafa de vodka vazia; minha dor de cabeça fica insignificante perto da dor no peito que sinto. Ela não existe – mais uma vez foi tudo minha imaginação de bêbado.

Eu posso procurar o quanto quiser – não há nenhuma sapatilha de cristal para me guiar de volta a ela – a mulher que eu amei na noite passada não é real.

Estou tonto, mas preciso voltar para casa. Preciso guardar toda a vergonha que sinto junto com minha desilusão. Preciso me recompor antes que vejam minha dor.

O peso da minha decepção é tão grande que meus pés não conseguem sequer desgrudar do chão. Arrasto-me por todo o caminho até meu apartamento. Só então noto o quão sortudo sou – dormi num parque público e voltei para casa são, salvo, vestido e com minha carteira intacta. Em outras ocasiões eu sorriria diante desse milagre, mas não hoje.

Subo a escada, resmungando de cansaço a cada degrau. Inspiro fundo e dou um pique, chegando mais rápido ao meu andar. Paro em frente à minha porta ofegante e encosto a cabeça nela antes de abri-la, a fim de recuperar o fôlego.

Meus olhos miram o chão e então eu encontro. Jogado em frente a minha porta está um pequeno retalho azul. Eu o pego e o reconheço – é um pedaço do vestido dela.

Sinto a adrenalina correndo pelo meu corpo – ela é real. Ela tem que ser real. Minha mão treme enquanto tento manusear minhas chaves. Ela tem que estar aqui. Meu corpo parece que vai explodir quando finalmente abro a porta e corro por todos os cantos do meu apartamento, procurando-a.

Não a encontro.

Minha cabeça está a milhão – o retalho em minha mão não pode ser uma coincidência. Ela tem que ser real.

Paro na sala de estar e observo os resíduos da noite anterior. Garrafas e mais garrafas de bebidas pelo chão. O chão sujo de vômito – que também suja parte da minha roupa, agora noto. Também vejo restos de comida por toda a sala. No braço do sofá está a minha cortina. Provavelmente eu a arranquei durante minha bebedeira. Não foi exatamente a melhor das minhas noites.

Só então noto o tecido da minha cortina – é o mesmo tecido do retalho que eu seguro. A cortina, aliás, está toda rasgada, e consigo encontrar o exato pedaço de onde aquele retalho saiu.

É demais para mim.

Solto meu peso no sofá, focando meus olhos no teto branco. Eu ainda vejo o negro de seus olhos; ainda sinto o limão de seus lábios; ainda sinto o frio de seu corpo. Doí-me o peito admitir que ela não é real.

Olho para o chão, procurando entre as garrafas qual seria a melhor companhia para a minha solidão. Fecho os olhos – não posso chorar. Tenho que ser forte, tenho que resistir.

Quantas vezes mais eu ainda vou procurar no álcool a forma de inventá-la? Não é a primeira vez que eu a imagino, que eu me deixo levar pela minha criação. Ainda que não me lembre, sei que foi a ilusão de sua existência que me levou até o parque. Mais uma vez ela dominou meu corpo, mais uma vez eu perdi para o álcool.

Sei que ela não existe, mas basta um pouco de vinho para que eu a veja em todos os cantos, como um neurótico. Preciso parar, eu sei, preciso lutar contra esse domínio, mas quando estou sozinho, é tão fácil cair em seus braços.

Mas não posso jogar minha vida fora, enchendo-me de álcool mais uma vez, só para reencontrar a mulher dos meus sonhos. Preciso entender que acabou, preciso conviver com a realidade. Mas não hoje, não com a dor de cabeça que sinto.

Deito-me, puxando a cortina para cobrir meu corpo. Pelo menos assim terei o que restou da minha ilusão.

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